157401 de dezembro de 1999  

  S U C E S S Ã O
Herdeiro playboy já era
A nova geração pulou fora do berço esplêndido, foi à luta e agora engorda a empresa da família

ANDREA ASSEF

Aqueles garotos de pouca idade, muita arrogância e nenhum conhecimento que caíam de pára-quedas e com o nariz empinado nas empresas de seus pais estão definitivamente fora de moda. O herdeiro de hoje pulou fora do berço esplêndido e foi à luta. Aproveitou, sobretudo, o privilégio de estudar nos melhores colégios e universidades do País. Alguns têm MBA, o Master Business Administration (versão da moda do mestrado em administração), outros, experiência internacional. Acredite: há até workaholics entre eles, como Carlos Jereissati Filho, 28 anos, filho do dono da Iguatemi Shopping Centers AS, braço iluminado do grupo que leva o nome de sua família, que trabalha em média 14 horas por dia. Jereissati Filho é a mais perfeita tradução dessa nova leva. Estudou no colégio Santo Américo, um dos mais tradicionais de São Paulo, e cursou Administração de Empresas na Faculdade Getúlio Vargas. Mas foi com o pai que aprendeu a lição mais prática e útil para sobreviver no mundo dos negócios: não ficar no escritório lendo relatórios, com as pernas para cima e a secretária servindo cafezinho. “Se você agir assim - disse o pai -, a empresa vai quebrar, porque papel aceita qualquer coisa.” Jereissati, o filho, comanda a operação dos oito shopping centers do pai, de Caxias do Sul a Salvador, incluindo as áreas comercial, RH e finanças. Passa dois dias em São Paulo e o resto do tempo visita as unidades espalhadas pelo País. Inclusive aos sábados. Não é tarefa para qualquer herdeiro mimado - e, ao que parece, não é isso que a nova geração quer.

Cobrança - Como ele, a maioria pega no batente mesmo. É a nova geração que chega às empresas com um fôlego juvenil e muitas idéias na cabeça. Quer desmentir também o estigma do filho que acaba com a fortuna do pai. Cláudio, 30 anos, e André, 28, carregam o sobrenome Szajman, do presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, com a leveza de uma pena. E - outra característica da moçada - não pensam em se eternizar no poder. Através de um sistema de co-gestão, acabam de virar presidentes do Grupo VR, terceiro maior em vales-refeição do País, e já estão preocupados com a própria sucessão. “A família e a empresa são dois seres que queremos separar cada vez mais”, diz André. “Já estabelecemos pré-requisitos para nossos sucessores, como, por exemplo, uma formação acadêmica de primeira linha”, explica Cláudio. Jereissati Filho admite que não é fácil ser um grande empreededor como pai. “Há uma certa cobrança para saber se vou ser como ele”, diz. Mas isso passa, segundo Renato Bernhoeft, especialista em consultoria de empresas familiares. “O ideal é que esse jovem frustre mesmo aqueles que esperam ver uma cópia ambulante do fundador da empresa”, afirma o consultor, lembrando que o modelo empresarial brasileiro está esgotado e cabe à nova geração renovar todo o processo. No ano que vem, a Fipe-USP, em parceria com o Bernhoeft, inaugura o 1º MBA de Economia e Gestão de Empresas Familiares.

Incendiários - Para os pais que imaginaram se perpetuar na empresa por meio de seus herdeiros, o choque cultural com seus filhos-administradores é elétrico. Sérgio Herz, 28 anos, e Fábio Herz, 26 anos, filhos de Pedro Herz, dono da Livraria Cultura, já fizeram alterações no contrato social para a terceira geração. As novas regras são rígidas: futuras mulheres, parentes e amigos não podem trabalhar na empresa. Ou seja, os filhos de Sérgio e Fábio só poderão trabalhar na Cultura se estiverem qualificados profissionalmente. “Tivemos de carregar muita caixa de livros e arrumar quilômetros de estantes”, afirma Sérgio, que tem um MBA da Business School. Foi dele a idéia de colocar a livraria na Internet. Seu Pedro não tem o que reclamar da novidade: o comércio eletrônico já representa 10% do faturamento, com um crescimento de 60% ao ano. O irmão Fábio trabalhou durante um ano e meio numa distribuidora americana de livros, a Limerock, em Nova York, e desde que voltou, há dois anos, aplica o seu know-how na área comercial da Cultura. Enquanto os dois tocam o dia-a-dia da empresa, o pai, Pedro Herz, cuida da imagem e da relação com os fornecedores internacionais. “Meu pai diz que nós somos os incendiários e ele é o bombeiro”, comenta Fábio.

Sem culpa - Digamos que são incendiários do bem - e seus pais babam de orgulho. Com uma estratégia agressiva de vendas e a ampliação do leque de produtos e serviços, os garotos Szajman saíram de um faturamento de R$ 700 milhões, em 1994, para R$ 2 bilhões em 1998. Num caminho alternativo, o filho de Olacyr de Moraes, dono do grupo Itamarati, também fez o experiente empresário se derramar. Marcos de Moraes, 33 anos, não foi para a empresa do pai, mas soube usar a ajuda financeira que recebeu - do pai, é claro - para começar a vida. Criou um dos maiores sucessos “internéticos” do momento: a ZipNet e o ZipMail, o mais popular serviço de correio eletrônico gratuito da América Latina. Casado e pai de dois filhos, Marcos comemora o sucesso da empreitada e não esquece do crédito a Olacyr. “Ele me incentivou a montar uma empresa independente do grupo”, conta. “E é ele quem me ajuda muito, dando ótimos conselhos.”

O herdeiro de sucesso tem uma característica em comum: não carrega o menor resquício de culpa por trabalhar na empresa da família. É assim que se sente a executiva Eliane Bernardino, vice-presidente da cadeia de fast-food Mister Pizza. Formada em Engenharia Civil, com duas pós-graduações e uma especialização em franchising na Universidade da Louisiana, nos Estados Unidos, Eliane toca uma cadeia com 98 lojas e 1.500 funcionários. Seu pai, Zélio, que continua como presidente do grupo, respira aliviado. Aquele herdeiro que torrava grana sem limites, capotava o Mercedes de madrugada, largava a universidade no meio e só queria saber de mulheres e rock’n’ roll, cresceu. E, se o papai bobear, vai voltar à escola para aprimorar seus conhecimentos.

Colaborou Liana Melo (RJ)

 

 
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