![]() 28 de outubro de 1998 |
![]() Eu amo meu carro Capaz de inventar apelidos, gastar horas do tempo livre encerando a lataria ou ainda se endividar para comprar um zerinho, o brasileiro é apaixonado por carro. Os 300 modelos – entre eles, o novo Fusca – do Salão do Automóvel celebram os 100 anos deste romance
ÁLVARO ALMEIDA E MARIA FERNANDA DELMAS Quem jamais cobiçou o carro do próximo? O empresário Lawrence Pih tem bons motivos para ser um dos homens mais invejados do Brasil. Sua garagem é um luxuoso Salão do Automóvel particular. São três Mercedes, um BMW 750, um Bentley Turbo e três Ferraris. A grande estrela é a F50, produzida em série limitada e cotada no mercado a US$ 1,4 milhão, seguramente a máquina mais valiosa em circulação nas ruas do País. "Acelero ela nos fins de semana, especialmente quando posso dar alguns vôos no autódromo de Interlagos", conta. Algum cuidado especial? "Só não largo na mão de manobrista." Apaixonado pelos carrões vermelhos com a marca do cavalinho italiano, Pih ainda não está satisfeito. Namora atualmente uma das atrações do XX Salão do Automóvel, a 550 Maranello – paixão dele e talvez dos 500 mil visitantes esperados, entre 29 de outubro e 8 de novembro, no pavilhão do Anhembi, em São Paulo. O maior evento do gênero na América Latina é uma orgia para quem gosta de carro: pode-se passar a mão, dar uma olhadela no motor e até girar para lá e para cá a direção de nada menos de 300 diferentes modelos. Sonho de consumo de um em cada três brasileiros, como constatou a pesquisa de comportamento do consumidor "Fala Brasil!", da agência Propeg, o carro pode separar casais, arruinar orçamentos – e garantir muito prazer. Entre as preciosidades deste Salão está a jóia que deu origem à série: o Peugeot Phaéton Type 15, primeiro carro de linha de produção a chegar ao País, pelas mãos de Santos Dumont, há exatos 100 anos. No outro extremo desta história brilha o Beetle, a nova versão do Fusca, que foi o maior sucesso da indústria automobilística brasileira. É bem verdade que as vendas já foram melhores. Atingiram o recorde de 1,94 milhão de veículos em 1997, mas devem encolher 25% neste ano. Há cerca de 200 mil carros nos estoques das lojas, as linhas de produção das grandes montadoras pararam e os empregados estão em férias coletivas. "O mercado está estagnado", afirma José Carlos Pinheiro Neto, presidente da associação das montadoras. Nada disso mudou, porém, os planos de Honda, Toyota e Mitsubishi, que já apresentam seus modelos made in Brazil. Tampouco abala a confiança de Mercedes, Audi, BMW, Chrysler, Citroën, Peugeot, Renault e Asia, que prometem para breve carros e motores nacionais. "A concorrência será muito acirrada em 1999, por isso estamos empenhados em reforçar nossa marca, ampliar a rede de vendas e tornar os preços cada vez mais competitivos", explica Leonardo Senna, da Audi. Todos farão uma solene pré-estréia neste imenso showroom de 75 mil metros quadrados.
Em tempos de juros altos e incerteza quanto aos rumos da economia, mais do que nunca o brasileiro deve se limitar a uma paixão platônica com os carros. É hora de paquerar. Flertar, por exemplo, o Mégane Scenic, que a Renault produzirá no Paraná até o final do ano. A empresa planeja reproduzir no seu estande a linha de montagem dessa minivan. Pode-se namorar o Classe A, o badalado compacto que, a partir de fevereiro, sairá de Juiz de Fora, Minas Gerais, para o mundo. O visitante tem a oportunidade até de fazer um teste virtual do carro de aproximadamente oito minutos. Os simuladores também são atração no estande da Fiat, onde certamente terá fila para brincar no autorama da Fórmula Palio. A General Motors ataca com as novas versões do Astra, Omega e Blazer, enquanto a Honda vem com a linha 99 do Civic e o carro-conceito J-VX. O destaque da Toyota é o Prius, um veículo híbrido que funciona a gasolina e eletricidade. O show continua com o Big Foot da Ford, aquelas picapes com rodas gigantes, que divertem os americanos, passando por cima de carros velhos. A fábrica apresenta ainda o Mercury Cougar, lançado este ano nos Estados Unidos. Na linha robustez, vale até investir no exótico: a Land Rover oferece o seu Defender 110 para que o ex-pugilista Maguila tente destruí-lo a marretadas. Sempre entre os preferidos, os esportivos estão bem representados pelo Porsche Carrera 4, a versão com capota do BMW Z3, e a Pajero Evolution – versão limitada do modelo que ganhou o rali Paris-Dakar 98. A Chrysler apresenta o Prowler, com seu estilo futurista e tecnologia de carro de corrida, que será vendido por encomenda no Brasil a partir do ano que vem. Se a preferência é pelo luxo, o coupé TT, da Audi, promete fazer barulho ainda antes de as portas do Salão se abrirem. Já nesta segunda-feira, ele desce de helicóptero no Anhembi para uma platéia de especialistas. Deve impressionar pelo design e pelos equipamentos: tem câmbio acionado por botões na direção, antes só disponível em carros esportivos, e acelerador computadorizado, sem cabo ligando o pedal ao motor.
Um detalhe técnico que poderia enlouquecer o engenheiro Jorge Luis Jardim. Já Luciana, sua mulher, diria: "E daí?" Eles não se entendem, quando o assunto é automóvel. No Vectra de Jardim, por exemplo, ninguém fuma. Para seu azar, Luciana pegou o tão amado carro do marido num dia chuvoso em São Paulo, no começo do ano, e caiu num buraco. Resultado: um pneu furado, uma roda amassada e a cara feia do marido. "Até hoje ele se lembra disso", aguenta Luciana. Nem todas as mulheres são avessas aos veículos. Ao contrário. Cada vez mais elas se tornam um público importante – já representam 40% do mercado. "Homens e mulheres se relacionam de maneira diferente com os carros. Eles têm uma relação mais emocional e se ligam em desempenho e aspectos técnicos. Elas são mais práticas, preocupam-se com dirigibilidade e, portanto, estão dispostas a experimentar outras marcas", compara Carlos Eugênio Dutra, gerente de marketing da Fiat. A atriz Isadora Ribeiro valoriza a segurança. "Ele é forte, robusto, resistente, abrutalhado e me protege diariamente", diz ao descrever seu Land Rover, apelidado de "Meu trator". Ela garante que lava pessoalmente o carro toda semana e até já passou a noite nele. "Ficamos sem luz num verão carioca e a família inteira (o marido e a filha, Maria Antônia) foi dormir no carro, com o motor e o ar-condicionado ligados", recorda. Isadora vê um componente sexual na paixão brasileira por automóveis: "Todo jogador de futebol tem um carrão. Afinal, um belo bólido é como um blazer bem cortado." Blazer? É esse o sonho de consumo do zagueiro Odvan, do Vasco e da Seleção. "Aí posso carregar família, cachorro, papagaio e muita bagagem", brinca ele, proprietário de um reluzente Mitsubishi Eclipse prateado. "Parece até o carro do Batman", diz. Ele, no entanto, comprou primeiro a casa própria e se contentou com modelos mais simples até poder investir no carrão. Símbolo de status social ou "sinal exterior de riqueza", como prefere o secretário da Receita, Everardo Maciel, o fato é que o sucesso parece vir no porta-malas de um carrão. Não por acaso, o pagodeiro Salgadinho, do Katinguelê, exibe uma pequena coleção que inclui uma Ferrari, uma Mercedes, um Mustang e um Jeep Cherokee. O atual técnico da Seleção Brasileira, Wanderley Luxemburgo, comprou numa só tacada um Porsche e dois Jeeps Cherokees num leilão da própria Receita.
Quem não tem tanta sorte ou está no início da estrada, mesmo assim investe o que pode na sua paixão. Com um salário de R$ 1,5 mil, o editor de vídeo Maurício Tibiriçá, 25 anos, embarcou durante dois anos numa prestação de R$ 1 mil para comprar um Palio. Ele atrasou um pouquinho, mas conseguiu quitar a pesada dívida este mês. No caminho, ainda colocou outros R$ 4 mil em equipamento de som e rodas especiais. Com mais recursos, o comerciante Marco Aparecido Júlio não mediu esforços para incrementar sua picape importada SS-10. O carro custou US$ 23 mil, mas ele gastou US$ 7 mil em acessórios. "Nunca conto onde consegui para não ter nenhum carro igual ao meu", confessa Marco, que ainda desembolsa R$ 1 mil mensalmente na manutenção do veículo. Esses cuidados são efetivamente demonstrações de carinho do dono. "O brasileiro quase trata o carro como um ser humano", observa Márcio Pegado, gerente de marketing da Ipiranga, distribuidora de combustíveis que centrou sua publicidade nesse relacionamento. A campanha da agência Talent ganhou por dois anos consecutivos o prêmio Profissionais do Ano e mostra situações extremas de zelo, como o metalúrgico que interrompe a assembléia para saber se o adesivo do sindicato deixa aquela "melequinha" no vidro do carro.
Tanto quanto dinheiro, quem gosta mesmo de automóvel gasta é tempo com ele. "Dedico 95% das minhas horas de lazer aos carros", calcula o publicitário Júlio Andery. Ele ama raridades: tem um Belair 1957, um Impala 1958 ("Com plástico original nos bancos!"), um jipe Ford 1976, mas seu preferido é a Corvette 1958, que pertenceu ao falecido piloto Camilo Cristófaro – que recentemente teve outro carro, uma Maserati 300S, leiloada na Christie’s, de Londres, por cerca de R$ 900 mil. Os carros são mesmo como filhos para Andery e, por enquanto, dormem espalhados por São Paulo. Mas ele tenta unir a família. Há dois anos procura uma casa de dois ou três dormitórios com oito vagas na garagem. Por falar em garagem, o engenheiro mecânico e restaurador de quadros Ruy Tolosa Barreto transformou a sua em uma oficina, onde recupera meticulosamente um Porsche 911 S 1967. "Para conseguir a perfeição, não pode haver prazo", ensina Barreto, que só se distrai do seu hobby para dar atenção ao filho Pedro, de seis meses. O carro ficou dois anos e meio numa oficina para refazer a carcaça e deve levar outro ano e meio até ficar pronto. Um trabalho como esse pode consumir US$ 100 mil. E é comum que o valor de mercado do carro seja a metade do desembolsado para restaurá-lo. Mas a verdadeira paixão não tem preço. Colaborou Sidney Garambone, do Rio
| ||||||||||
|
![]() | |||||||||||