26 de agosto de 1998




Intriga internacional
Com uma narrativa fora do comum, Thomas Pynchon cavuca os meandros da guerra e da espionagem bélica

 

LUCIANO TRIGO

Contam-se às dezenas nas universidades americanas as teses que tentam decifrar O arco-íris da gravidade (Companhia das Letras, 786 págs., R$ 44), do americano Thomas Pynchon, obra enigmática de um escritor idem, que começa com uma atmosfera de pesadelo. Como nos dois primeiros romances do autor – V. (1963) e O leilão do lote 49 (1966) –, os personagens se vêem (ou se crêem) envolvidos numa conspiração, desta vez tendo como cenário a Europa arrasada pela Segunda Guerra. São páginas e páginas daquilo que se pode chamar de "literatura de invenção", mistura de tempos e vozes narrativas que exige do leitor muita paciência e disposição.

A história dá partida com uma curiosa descoberta. Poucos meses depois de os alemães iniciarem o bombardeio de Londres com os foguetes V-2, o Serviço de Inteligência Britânico conclui que o mapa que registra as conquistas sexuais do tenente americano Tyrone Slothrop corresponde exatamente aos alvos das bombas alemãs. O acontecido joga Slothrop no meio de uma intriga internacional envolvendo a negociação de segredos militares e industriais das superpotências com o objetivo de criar um foguete chamado 00000. Mas o tenente – que na infância servira de cobaia aos experimentos comportamentais de um cientista pavloviano – é vigiado de perto pela misteriosa "Firma", que, segundo o narrador, tem "uma filial em cada um de nossos cérebros."

Com uma narrativa nada linear, a trama de O arco-íris da gravidade é temperada na superfície por um senso de humor e, em alguns momentos, por uma obscenidade verbal de gosto duvidoso. Textos técnicos sofisticados sobre engenharia e balística se alternam com referências à cultura pop, às descrições oníricas de cenários apocalipticos e às reminiscências da infância de Slothrop de tal modo que o leitor corre o risco de ficar mais perdido que o próprio protagonista. Por baixo dessas camadas de gordura, no entanto, Pynchon desenvolve uma crítica sagaz ao endeusamento da tecnologia e à cultura da racionalização que sacrifica a liberdade do indivíduo. Nas entrelinhas, faz também um alerta antibelicista sobre a proximidade real do apocalipse e do aniquilamento da espécie. Vale lembrar que o livro foi lançado na época da guerra fria. Os tempos mudaram, mas o alerta igualmente serve contra o aniquilamento simbólico do homem esmagado por uma sociedade sem valores espirituais.






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