29 de abril de 1998





Trombada cultural
América expõe contrastes entre americanos e gringos

 

LU GOMES

Antigamente, o negócio do escritor americano T. Coraghessan Boyle era o humor negro. Dava até para dar umas risadas com seus livros. Mas agora, com América (Companhia das Letras, 358 páginas, R$ 30), seu sexto romance, ele resolveu ficar sério. E chato. A trama é mais batida do que o martíni do James Bond. De um lado, a miséria cucaracha, do outro, a riqueza americana. E como não poderia deixar de ser, o encontro das duas facções é literalmente impactante: o rico atropela o pobre. Igual ao que acontece no cultuado A fogueira das vaidades, de Tom Wolfe – só que o cenário é o sul da Califórnia. Talvez pela situação geográfica, o livro de Boyle foi trombeteado como sendo o Vinhas da ira dos anos 90. Puro exagero.

América é apenas o que se pode chamar de romance com "mensagem" – um típico produto do liberalismo dos Estados Unidos. O cucaracha é um imigrante ilegal sem-teto. O americano, um esquerdinha festivo, jornalista politicamente correto que escreve sobre ecologia, mora num luxuoso condomínio e é casado com uma corretora de imóveis neurótica. O pobre é um estóico por necessidade, casado com uma adolescente idiota, que está grávida. Neste cenário de contrastes, os nativos estão assustados com a invasão dos imigrantes ilegais. Esperam por um apocalipse no qual os imigrantes já vivem. Aí começa o maniqueísmo. Mexicanos são ingênuos, mas no fundo são bonzinhos, enquanto os americanos são feios e intolerantes. Às vezes parece novela da Globo. Às vezes chateia bastante. E, quando se chega ao duelo final, nada se conclui. Fica tudo na mesma. O autor, aliás, ao vivo tem a maior pinta de intelectual "de esquerda". Apesar da pretensão seu livro é bem escrito. Não é uma grande obra e Boyle não é um John Steinbeck. Nem sequer chega a ser um Tom Wolfe.






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