![]() 15 de abril de 1998 |
![]() Beleza sagrada
IVAN CLAUDIO No tempo das navegações, os portugueses descobriram na Índia um tipo especial de pérola que, ao invés dos perfeitos contornos esféricos, apresentava uma superfície cheia de irregularidades. Como era encontrada principalmente na cidade de Broakti – que os lusitanos pronunciavam Baroquia –, surgiu, então, o adjetivo "barroco", que passou a incorporar o idioma de Camões qualificando tudo o que era extravagante e fora dos padrões vigentes. Da mesma maneira foi designada a arte nascente, que, chegando aos rincões da colônia pelas mãos dos jesuítas, floresceu com vigor admirável sob impulso do fervor religioso. O estilo acabou fazendo escola e produziu um tipo de arte muito característico. Agora, uma bela amostra deste legado pode ser vista na exposição O universo mágico do barroco brasileiro, que reinaugura a ampliada Galeria de Arte do Sesi, em São Paulo. É a maior mostra do gênero já realizada no País, com 364 peças de 56 coleções vindas de seis Estados diferentes.
Sob curadoria de Emanoel Araújo, diretor da Pinacoteca do Estado, o impressionante conjunto, que abrange também o pré-barroco e o rococó, reúne 66 pinturas, 80 esculturas, 136 trabalhos em ouro e prata, além de peças de mobiliário, mapas, documentos e adereços de festas populares datados de 1640 a 1820. Estão presentes obras dos artistas mais representativos do período como o escultor e entalhador mineiro Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1738-1814), o pintor baiano José Joaquim da Rocha (1737-1807) e Valentim da Fonseca e Silva (c.1750-1813), chamado Mestre Valentim, que desenvolveu seu trabalho no Rio de Janeiro imperial. Alguns trabalhos nunca foram expostos anteriormente, a exemplo da imagem em madeira de Nossa Senhora das Dores (século XVIII), de autoria anônima, proveniente da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Dividida em setores temáticos, mas sem necessariamente seguir uma rigorosa ordem cronológica, a mostra inicia com uma série de mapas de demarcação do Brasil colonial ladeados por objetos em prata de uso litúrgico, enfatizando assim o papel da Igreja na conquista do Novo Mundo. Logo a seguir, convidado pela figura em mármore de um vassalo português, o visitante depara-se com os volteios e as ornamentações douradas de colunas e fragmentos de altares em pequenos espaços de cores terrosas e iluminação rarefeita. Ao som de músicas sacras do século XVIII, caminha-se então até a sala principal, quando todo o espetáculo ilusionista do barroco se mostra por inteiro. Tendo ao alto a imagem de Cristo da Ressurreição, assinada por Frei Domingos da Conceição e Silva (1643-1718), a exposição reproduz o espaço cerimonial de uma igreja, completado por uma reunião de santos de proveniência diversa, alguns de traços evidentemente mulatos. "A idéia foi possibilitar às pessoas a vivência de um grande ritual em pleno século XX", afirma Araújo.
Entre as inúmeras peças importantes, o curador destaca duas esculturas do século XVIII em madeira policromada que vieram do Mosteiro de São Bento, no Rio de Janeiro – São Cristóvão e Sagrada Família na fuga para o Egito. A primeira, segundo Araújo, sintetiza as linhas mestras do estilo. "Naquela figura chocam-se o lado sagrado e o lado profano, sensual." Esta é a primeira vez que o mosteiro carioca permite a saída de obras do seu acervo. "Como os museus têm poucos exemplares e as igrejas não são dotadas de um tratamento museológico, tudo se torna muito difícil", explica Araújo. No caso de Aleijadinho, cujas obras mais representativas são quase impossíveis de abandonar Minas Gerais, os empréstimos viáveis foram recusados em razão da comemoração do tricentenário de Ouro Preto, que acontece neste ano. Sucinta, a sequência de trabalhos do autor do impressionante conjunto de profetas de Congonhas do Campo está representada pelas imagens da comovente Nossa Senhora das Dores, São José das Botas e um outro Cristo da Ressurreição. Do barroco mineiro, também podem ser vistos dois óleos sobre tela enfocando a Santa Ceia e um dos passos da Paixão de Cristo, assinados por Manuel da Costa Ataíde (1762-1830), autor da famosa pintura da nave da Igreja de São Francisco, em Ouro Preto. Mais volumosa, a representação baiana salta aos olhos especialmente nas cinco telas de José Joaquim da Rocha, feitas em 1786 para a antiga igreja de São Pedro Velho, em Salvador, como Rei David e Alegoria ao Cordeiro de Deus.
Nas salas menos austeras, o visitante de O universo mágico do barroco brasileiro pode ainda apreciar um rico mobiliário da época e uma faiscante seção de prataria que inclui desde navetas do século XVII – réplicas de caravelas ornamentadas, usadas para colocar incenso – até jóias usadas em cerimônias mundanas. "Esta exposição foi montada para proporcionar descobertas", afirma Araújo. "É preciso passar lentamente diante das obras, escolhidas com uma pontuação especial para que a emoção apareça em primeiro lugar."
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