10 de setembro de 1997





CINEMA

Foto: CLAUDETTE BARIUS/DIVULGAÇÃO

Ford como James Marshall: presidente-síndico do mundo

Força aérea um (cartaz nacional) - Harrison Ford invadiu as telas no papel de um idealizado presidente dos Estados Unidos. Sob a eficiente direção do alemão Wolfgang Petersen, o ator-galã não interpreta um presidente qualquer. Ele é James Marshall, um destemido presidente-herói, que defende a família pilotando uma fortaleza voadora a 30 mil pés de altitude e, claro, também luta pela paz do planeta como toda autoridade americana metida a síndica do mundo. A ação acontece quando Marshall tem seu avião sequestrado por terroristas russos liderados pelo vilão Korshunov - ótima interpretação do ótimo Gary Oldman. Petersen faz o filme decolar mantendo o suspense do confronto entre o bandido e o mocinho, mas haja paciência para aguentar tanta patriotada.

VÁ SE TIVER TEMPO


ARTES
J. Carlos (Centro de Arte Hélio Oiticica, Rio de Janeiro) - Os 60 anos do Estado Novo, instalado pela ditadura de Getúlio Vargas, estão sendo muito bem comemorados com as 100 reproduções do chargista carioca José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos (1884-1950). Dono de um traço ágil, o pai dos caricaturistas brasileiros tece a história do País em trabalhos cheios de ironia, especialmente os que cobrem o período entre 1937 e 1945. À época, J. Carlos colaborava com a revista Careta, que imortalizou sua obra. Um dos pontos altos da mostra é Deserto, impagável desenho em que Getúlio, com seu indefectível charuto, se mira num enorme espelho lamentando a falta de nomes para sucedê-lo no poder.

VALE A PENA


TEATRO

Hamlet (Teatro Sérgio Cardoso, São Paulo) - Na sua ambiciosa montagem da mais famosa tragédia de William Shakespeare, o diretor paulistano Ulysses Cruz imaginou uma majestosa corte feita de aço e veludo vermelho. Vestiu os atores em elegantes trajes militares e fez as intrigas palacianas desenvolverem-se num espaço labiríntico limitado por pesadas cortinas, escadas móveis e pontes suspensas. Com música ao vivo e iluminação perfeita, a história do príncipe da Dinamarca - que concebe uma série de artimanhas para vingar a morte do pai - recebeu um tratamento visual de primeira. Quanto ao protagonista Marco Ricca, apesar de não arrancar encantos da complexa personalidade de Hamlet, mantém uma performance convincente durante as 2h30 do espetáculo. O problema concentra-se no resto do elenco. Certos atores declamam suas falas como se estivessem tendo o primeiro contato com o texto. É quando o espectador se depara com a dúvida milenar contida na peça: "Ser ou não ser, eis a questão."

VALE A PENA


SHOW

Foto: DIVULGAÇÃO

Manson: marketing do anticristo


Marilyn Manson (Olympia, São Paulo, dia 8) - Grupos religiosos de diversas tendências já prometeram fazer um protesto na noite de apresentação desta banda americana nascida na Flórida. Motivos é que não faltam. Marilyn Manson - vocalista que batizou seu conjunto misturando os nomes de Marilyn Monroe e Charles Manson, o sanguinolento líder do assassinato da atriz Sharon Tate, nos anos 60 - vive alardeando que é o anticristo. Como todo marketing bem trabalhado, a falação induziu muita gente a acreditar, aliás, sem muito esforço. Basta olhar para o visual cadavérico de Manson, que sempre pinta a cara de branco e os olhos e a boca de negro. Além da imagem teatral, o grupo também justifica a fama fazendo um som denominado devil metal. É um rótulo de performance, sem dúvida, mas a receita de rock industrial com elementos eletrônicos do tecno é digna de um verdadeiro anticristo.

VALE A PENA


LIVROS

A laranjeira (Rocco, 216 págs., R$ 23) - A brutal conquista da América pelos espanhóis através do massacre das sofisticadas civilizações maias e astecas e o surgimento em seguida de uma cultura hispano-indígena são o tema de fundo das cinco novelas curtas assinadas pelo mexicano Carlos Fuentes. Embora passem em épocas dife-rentes, as novelas são interligadas pelos mitos do povo conquistador e do povo conquistado. Em As duas margens, por exemplo, o relato pós-morte de um espanhol que participou da invasão do México é um amargo balanço dos ardis usados para dominar os astecas. Mas é em Apolo e as putas que o autor destila com humor prazeres imediatos ao mostrar um ator americano de filmes B, fracassado no casamento e na profissão, entregar-se a uma orgia com sete prostitutas e sua cafetina. Ao propor um enfoque histórico sobre a América hispânica, Carlos Fuentes fez um livro instigante e cheio de ironias.

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