9 de julho de 1997






Silêncio eloquente
Após abandonar a literatura há 19 anos, o festejado escritor Raduan Nassar ressurge no volume Menina a caminho

ROBERTO COMODO

Há 19 anos em absoluto silêncio, fiel a uma irônica decisão de abandonar a literatura e se "dedicar à criação de galinhas", só anunciada em 1984, o festejado escritor paulista Raduan Nassar volta à cena literária aos 61 anos com a publicação de Menina a caminho (Companhia das Letras, 85 págs., R$ 13,50). O volume é uma reunião de cinco narrativas curtas que, com exceção de um texto inédito - Mãozinhas de seda, produzido no ano passado -, foram escritas no início das décadas de 60 e 70. O ressurgimento de Nassar provocou um verdadeiro frisson entre seus leitores e os fãs do compositor, cantor e autor Chico Buarque de Hollanda. No lançamento do livro em São Paulo, uma multidão de 600 pessoas se acotovelou no auditório do recém-inaugurado Shopping Ática e, atenta, quase sorvendo as palavras, acompanhou a leitura feita por Chico de um trecho escolhido dos contos do escritor paulista. O sempre lacônico Raduan Nassar, autor de apenas duas obras, mas de notável qualidade - Lavoura arcaica e Um copo de cólera -, enfrentou sua timidez, desculpou-se pelo carregado sotaque caipira de quem nasceu em Pindorama, no interior paulista, e retribuiu a homenagem do colega, lendo trechos de Benjamim, o segundo romance do compositor. Avesso a entrevistas e badalações de noites de autógrafos, o escritor, que, em contraste com o astro Chico Buarque, até agora é conhecido e cultuado apenas num restrito círculo, suportou com estoicismo as luzes dos flashes.

Sétimo filho de imigrantes libaneses, numa família de dez irmãos, Raduan Nassar - que deixou o curso de Direito para se formar em Filosofia - fez sua estréia na literatura em 1975, com o romance Lavoura arcaica. Uma versão transgressiva da bíblica parábola do filho pródigo, o livro expunha aos leitores uma sofisticada prosa poética de rara força e densidade, que mesclava o lírico e o trágico num drama de contestação familiar. Três anos depois, o escritor lançou a novela Um copo de cólera, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar. Através destas duas criações impactantes, Nassar foi descoberto e elogiado pela crítica, que ressaltou o estilo seguro - enxuto e singular -, burilado com paixão por um autor estreante que surgia como o senhor absoluto de sua linguagem.

Em 1984, consagrado no Brasil e já traduzido na França e na Espanha, o escritor comprou a fazenda Lagoa do Sino, perto da cidade de Buri, a 250 quilômetros de São Paulo, e passou a se dedicar ao cultivo de arroz, milho e feijão. Espantou a todos, logo em seguida, ao anunciar que iria parar de escrever. "Estou dando uma virada radical na minha vida e começo a me perguntar como é que pude entrar por esse cano da literatura. Minha cabeça fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores e implementos. Tudo isso que nada tem a ver com o pasto das idéias", declarou na época, em um de seus raros depoimentos. "Em termos estruturais, não considero o processo de invenção da literatura diferente do processo de invenção em outros campos da atividade humana. Já disse que qualquer indivíduo, a menos que seja bloqueado pelas condições de vida, é capaz de inventar, que inventar não é exclusivo de uns poucos", justificou em 1992. Alfinetou ainda os que lhe exigiam mais linhas em novas produções. "Não existem só os pedantes que se perdem num cipoal de palavras para dizer ninharias, existem também orelhas prolixas, sempre dispostas a ouvir as maiores lorotas."

Composta por um romance, uma novela e os textos breves de Menina a caminho, a vigorosa e concisa obra de Raduan Nassar, que o escritor já definiu como "uma obra e meia", exibe na precisão de sua escrita uma crítica ao estabelecido e um desencanto com a hipocrisia do mundo. No seu primeiro trabalho de ficção, escrito no início dos anos 60 e que dá título ao novo volume - publicado anteriormente em duas coletâneas, uma alemã e outra mexicana, de contos brasileiros e numa edição não-comercial da Companhia das Letras -, o leitor acompanha o passeio errante de uma garota sem nome por uma pequena cidade interiorana, certamente a natal Pindorama do romancista. Através do seu olhar fragmentado, percorre a rua principal, uma barbearia, a sala de aula, um bar e se depara com a brutal realidade de personagens amesquinhados, numa narrativa cinematográfica que culmina num belo e dramático desfecho.

Dois outros textos do livro, Hoje de madrugada e O ventre seco, de 1970, escavam com palavras exatas as feridas de amores findos. O brevíssimo Aí pelas três da tarde, de 1972, relembra sem citar a redação do extinto semanário paulistano Jornal do bairro, fundado por Nassar e seus irmãos em 1967, numa empreitada jornalística que teve importante papel político e cultural. No último conto de Menina a caminho, o irônico e impiedoso Mãozinhas de seda, escrito em 1996 para o segundo volume dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, dedicado ao escritor, mas não publicado a seu pedido, Raduan Nassar observa as mãos de "certos intelectuais", notando que muitos deles parecem fazer o uso intensivo da pedra-pome. "Eruditos, pretensiosos e bem providos de mãozinhas de seda... Mas sem rosto e entregues a um rendoso comércio de prestígio, um promíscuo troca-troca explícito, a maior suruba da paróquia." O auto-exílio literário do escritor parece lembrar o pacto realizado em O ventre seco, num acordo quase perfeito com o mundo. "Em troca do seu barulho, dou-lhe o meu silêncio", diz o narrador. Um silêncio eloquente, no caso de Raduan Nassar.




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