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Dando bandeira
Apesar da violência, do preconceito e da discriminação, os homossexuais brasileiros enfrentam o medo e começam a sair da sombra
Edição 1448, de 02/07/1997


A reportagem

Há pouco mais de três anos, os homossexuais brasileiros hasteavam pela primeira vez a bandeira do arco-íris em comemoração ao Dia Internacional do Orgulho Gay. Como acontece desde 1970, um ano depois de o bar Stonewall, no Village nova-iorquino, ter sido palco de uma maciça reação de homossexuais contra a opressão policial, o último fim de semana de junho marca a data, também celebrada em Paris e Londres.

Mas, enquanto os homossexuais verde-amarelos buscavam sair da sombra, o preconceito vinha à tona. Na semana anterior à publicação da reportagem, deputados e representantes de diversas religiões apresentaram uma lista de 120 mil assinaturas de repúdio ao projeto de união civil para pessoas do mesmo sexo, da então deputada Marta Suplicy (PT-SP), que entrara na pauta de votação na Câmara dos Deputados. Na mesma semana, no entanto, os socialistas franceses apresentavam um projeto idêntico ao da deputada e, nos Estados Unidos, o presidente Bill Clinton enviava mensagem ao país repudiando a violência e prometendo ações drásticas contra a discriminação.

O primeiro relatório da Anistia Internacional sobre perseguição aos homossexuais, concluído havia dois meses, citava o Brasil como um dos países que mais discriminam e cometem crimes contra outras pessoas. Num rol de 150 nações, a situação brasileira era considerada grave pela alta violação dos direitos humanos. O relatório mostrava ainda que de 1980 a 1996, foram registrados 1.468 mortes violentas de homossexuais. Segundo o Grupo Gay da Bahia, entidade presidida pelo antropólogo Luiz Mott, a cada três dias um gay era assassinado no País e o Nordeste era campeão de atrocidades: em 1996, foram notificados 26 assassinatos somente em Pernambuco.

O escritor pernambucano Aguinaldo Silva afirmou à reportagem que sempre fez o "jogo claro" porque todas as vezes que teve de fingir se sentiu muito mal e dividido. Não fazia muito tempo também que a cultura gay encontrara mais espaço. Um dos deflagradores, apontados pela reportagem, foi o Mix Brasil, festival de filmes gays apresentado em 12 cidades anualmente e que estava em sua quinta edição. O empresário André Fischer, criador do festival, também responsável pelo lançamento do maior site gay brasileiro na Internet, com páginas específicas como as dedicadas às lésbicas e janelas em que se faz o chamado outing, comum nos EUA, e que tem como objetivo revelar a homossexualidade de enrustidos famosos.

Casais de homens e mulheres homossexuais, também entrevistados, celebravam seus tantos anos de união e comentavam as dificuldades em driblar familiares. Outros descobriam os paetês e a peruca loira e brilhavam à noite, nas portas de casas GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) que então proliferavam em São Paulo e em outras importantes capitais do País.

 

O que houve depois

Enquanto em Paris, neste ano, comemora-se "a vitória da audácia e do bom senso", como pronunciou Bertrand Delanoë, o primeiro socialista a governar a cidade em 130 anos e homossexual assumido, o projeto da prefeita de São Paulo Marta Suplicy, que defende a união civil de pessoas do mesmo sexo, permanece estacionado. Além disso, foi um prato cheio para os adversários de Marta nas eleições de 2000, como Paulo Maluf, que disparou inúmeros ataques pessoais contra a então candidata.

Ainda assim, homossexuais brasileiros saem do armário e se divertem em casas noturnas ou em eventos como o Mix Brasil. O festival de cinema itinerante já soma oito anos de estrada e, segundo André Fischer, o público é dez vezes maior do que no ano de estréia. Em 2000, 50 mil pessoas acompanharam a programação que levou às telas 176 filmes que tratam do tema, o dobro de películas selecionadas em 1993. Dos 80 filmes nacionais inscritos no ano passado, 30 foram exibidos. O site de Fischer conta com 15 mil acessos diários.

Para o empresário, o preconceito diminuiu. "À medida que o movimento ganha visibilidade, deixa de ser um bicho de sete cabeças", defende Fischer. "O Brasil não é um paraíso, não é São Francisco ou Holanda, mas também está longe do Afeganistão." Pior, na Namíbia, quando na segunda-feira 19, o presidente do país, Sam Nujoma, disse em discurso transmitido pela televisão, que a Constituição nacional não permite a homossexualidade e ordenou à polícia que prenda e deporte todos os homossexuais residentes no país.

Não é à toa que homossexuais de diversas partes do mundo estão buscando asilo político nos Estados Unidos onde funcionam organizações como a International Gay and Lesbian Human Rights Commission (IGLHRC) e a Lesbian and Gay Immigration Rights Task Force. O Serviço de Imigração (INS) não divulga o número de casos aprovados, mas, segundo dados da IGLHRC, mais de 400 homossexuais receberam asilo político baseados na orientação sexual.

Eles chegam de El Salvador, onde travestis são assassinados à queima-roupa, da Romênia, que prevê penas de prisão para homens que andam de mãos dadas na rua, do Irã, onde eles são executados. Os exilados nos EUA também vêm do Brasil, onde, segundo dados levantados pelo Grupo Gay da Bahia (www.ggb.org.br), a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos no País, um homossexual é morto a cada 2,5 dias. A entidade informou, no entanto, que o número de mortes diminuiu. No ano passado, morreram 130 homossexuais e, no ano anterior, 169.

De acordo o coordenador da GGB, Oséias Santana, o preconceito "mudou de cara", assim como os homossexuais. "Os gays comportam-se como qualquer heterossexual, freqüentam academias, escritórios, o que inibe qualquer atitude preconceituosa", afirma Santana. Embora a discriminação tenha sido "apaziguada", segundo o coordenador, no Nordeste a população gay ainda sofre mais. "Os homossexuais daqui são negros, são a minoria da minoria", explica Santana.

Mas há quem discorde do apoio dado pelo GGB aos homossexuais brasileiros que buscam asilo político nos EUA. "Trata-se de oportunismo barato", afirma André Fischer. "Que eles arrumem outra desculpa para o seu desejo de migrar, morar em Miami", continua ele, que já foi procurado por pessoas queriam se mudar. Mas o País deve mudar.

Pela primeira vez, houve uma condenação por intolerância sexual no Brasil. Dois dos 18 skinheads presos após o assassinato de Edson Neris da Silva na praça da República, em São Paulo, pegaram 21 anos de prisão em regime fechado. Silva foi espancado até a morte porque estava andando de mãos dadas com o namorado.

 

 

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