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Foto: ALAN RODRIGUES
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A dramaturga Sílvia esperou pela pessoa e pelo momento certo para engravidar de Margot.
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F A M Í L I A
Mamãe aos 40
Com a ajuda da tecnologia, mulheres tiram do baú o sonho de engravidar
LIA BOCK e RITA MORAES
A concepção de um plebeu teve para os súditos da rainha Elizabeth o sabor de fofoca da corte. Eles passaram a semana especulando sobre a recente gravidez de Cherie, esposa do primeiro-ministro inglês Tony Blair. Com 15 semanas, a gestação teria começado num período de férias idílicas na Itália ou, segundo a oposição, seria mais uma estratégia de marketing de Blair, candidato à reeleição em maio. Mas o que surpreendeu o público, e não só o inglês, é que Cherie, que já tem três filhos, decidiu ser mãe outra vez aos 45 anos. Na verdade, ela representa bem as mulheres de sua geração, para quem o relógio biológico começa a soar, mas já não é um empecilho para a maternidade. Beneficiadas pelos avanços tecnológicos e pelos processos de dia-gnóstico precoce de saúde dos fetos, mulheres nostálgicas de seus bebês ou aquelas que priorizaram a carreira profissional podem ceder com segurança ao sonho de ser mães de segunda hora. É exatamente o que sente a jornalista e apresentadora de tevê Sílvia Poppovic, 44 anos, grávida de cinco meses. “A ciência abriu a porta para as mulheres da minha idade que, na luta pelo seu espaço, tiveram muitas vezes que optar entre a carreira e a família”, afirma. Sílvia vive há quatro anos com o endocrinologista Marcelo Bronstein, que tem três filhos já adultos. No começo, ele resistiu um pouco, mas agora está adorando a idéia de viver novamente entre fraldas e mamadeiras. E a segurança oferecida pela medicina foi determinante para a tomada de decisão do casal. Em tese, as condições de parto entre uma mulher de 20 anos e outra de 40 não diferem. Mas a partir dos 40, a quantidade de óvulos bons diminui o que aumenta o risco de o bebê ter algum tipo de malformação congênita e dificulta a fecundação. Enquanto uma mulher em cada 15 com idade entre 20 e 30 anos tem dificuldade de engravidar, depois dos 40, uma em cada quatro não consegue ter filhos sem tratamento. Muitas passam por processos de fertilização que incluem controles semanais. Depois da fecundação, o acompanhamento continua acirrado com monitoramento do feto para dia-g-nóstico precoce de anomalias. “A ciência oferece controle dos riscos tanto para a mãe quanto para o bebê”, diz o obstetra e especialista em medicina fetal Thomaz Gollop, do Instituto de Medicina Fetal e Genética Humana. O desejo de ser mãe adiado por tanto tempo acaba transformando essa maratona de exames e visitas ao ginecologista numa mistura de angústia e prazer. Tanto empenho mostra que mesmo ocupando outros espaços sociais, a maioria das mulheres ainda tem a maternidade como indispensável para a realização pessoal. “Elas investem muito tempo na carreira e têm outros projetos, além de casar e ter filhos, mas o desejo de ser mãe continua latente. Não ter filhos é sentir-se incompleta”, aponta Madalena Ramos, coordenadora do Núcleo de Casal e Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Por sorte, até mesmo o mundo empresarial percebeu isso. Hoje, empresas modernas empenhadas em ganhar produtividade querem funcio-nários felizes e realizados. Isso inclui não negar os anseios pessoais de casar e constituir família. Antes, para ser competente, a mulher tinha de optar entre a família e o trabalho. Atualmente, ninguém quer um superexecutivo frustrado, seja homem ou mulher, que não consiga estabelecer um relacionamento afetivo De qualquer forma, não foram somente as limitações do trabalho que levaram o sexo feminino a adiar o projeto família. A independência financeira tornou as mulheres bem mais exigentes em relação aos parceiros. Hoje, elas podem escolher não só com quem terão o filho, mas quando e como - o que as faz casar mais tarde. Foi assim com a dramaturga Sílvia Lohn, que aos 41 anos teve sua primeira filha, Margot, de seis meses. “Fui deixando até achar a pessoa certa e o momento que valesse a pena. Quando se abre o espaço na vida e na cabeça é que é a hora. Não adianta forçar”, acredita. Excessos - As maiores preocupações dessas mães de segunda hora são os riscos de criar o filho - tão esperado - com mimos exagerados ou não conseguir amenizar possíveis conflitos entre gerações, que neste caso podem ser agravados. Afinal, quando seus filhos estiverem com 15 anos, em plena adolescência, essas mulheres estarão por volta dos 55. “Como foi um projeto muito adiado, esse bebê pode ser foco de excessiva ansiedade e atenção. Filhos únicos de jovens mães já recebem essa sobrecarga. No caso, isso fica potencializado”, explica a psicanalista Madalena Ramos. É menos complicado quando a criança tem irmãos mais velhos que podem fazer a ponte entre pais cinquentões e seus caçulas. Como acontece na família do primeiro-ministro inglês e também na de Selma Balejo de Oliveira, 44 anos. Ela acabou de dar à luz a Kevin, de 30 dias, mas contará com Fábio, 20, e Flávia, 10, para driblar a diferença de idade. “Foi uma escolha consciente e um meio de conciliar filhos e trabalho. Quis me dedicar a um de cada vez”, justifica. Entre as vantagens da maternidade tardia apontam-se com frequência a maturidade e a situação financeira e profissional mais bem encaminhadas, mas também a tranquilidade de não estar deixando para trás sonhos juvenis. A secretária executiva Marisa Pellegrini, 44 anos, por exemplo, começou a trabalhar aos 14 e dedicou mais de 20 anos ao desenvolvimento profissional. Há seis anos se casou e a estabilidade emocional e financeira transformou em urgência o sempre presente desejo de gerar um filho. “Eu não poderia passar pela vida sem ser mãe”, diz ela, derretida com o nascimento de Yasmin há dois meses. Nessa fase da vida, um filho vem só para acrescentar. “Para muitas mães jovens, a maternidade aparece como um entrave. A criança é alguém que limita a sua liberdade de sair, ir a festas, se divertir ou mesmo dormir até mais tarde”, analisa. Não é uma regra, mas ela não deixa de ter razão num ponto. Não se pode negar que pais mais felizes e realizados - que têm filhos não por uma contingência, mas como projeto de vida - têm grandes chances de criar crianças mais saudáveis, seguras e alegres.
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