157401 de dezembro de 1999  
Foto: MARCELO MIN
“Cada vez eu queria jogar mais”, conta
Rodrigo Ceribelli

  C R I A N Ç A S
Uma febre chamada Pokemón
A garotada brasileira se rende à mania que rende bilhões no mundo

ELIANA CASTRO - São Paulo

Você pode até não ter reparado, mas, se tem filhos entre 6 e 12 anos, certamente está criando treinadores de Pokémons em sua própria casa! Não se culpe por não ter detectado a novidade. Nem se espante se tropeçar em bichinhos esquisitos na sala ou notar que seu filho fez a lição rapidinho. São sintomas da febre Pokémon. A invasão desses monstrinhos foi rápida, como, aliás, deve ser o ataque de qualquer monstro decente. E, no Brasil, pegou de surpresa até os empresários do segmento infantil, atentos às tendências.

A Estrela importou 140 mil produtos da linha Pokémon. Mas o estoque se esgotou na Semana da Criança. “Nunca vendemos um volume tão grande em um tempo tão curto”, espanta-se Aires José Leal Fernandes, diretor de marketing da Estrela. O sucesso foi tanto que a empresa decidiu comprar os moldes e lançar, em dezembro, produtos fabricados no País. Desde o final de outubro, a Panini Brasil Ltda. inundou as bancas com 150 milhões de envelopes de figurinhas e 400 mil álbuns. E planeja novidades.

A diferença entre a pokemania e todas as outras manias alavancadas por games e desenhos animados é o número de personagens Pokémon: são 150 monstrinhos, fora os caçadores. E, ao contrário da maioria das histórias de ação, essa também agrada as meninas. “Adoro o desenho porque as garotas participam das aventuras. E os personagens são fofinhos”, diz Gabriela Levinbook, nove anos, que mora em São Paulo. Ela descobriu Pokémon por acaso, quando assistia à tevê com o irmão Nicolas, sete anos. Os motivos que atraíram o irmão são diferentes dos que seduziram Gabriela. “Eles têm poderes e a história não acaba”, conta Nicolas. Os irmãos não perdem um episódio. A mãe, Lisete Rotenberg Levinbook, publicitária, não aprova o consumismo, mas cede. Comprou camisetas, miniaturas, fitas de game, álbuns e figurinhas para os filhos. Como a grande parte da meninada, Gabriela e Nicolas querem assistir aos desenhos de manhã, às 11h, no programa Eliana e alegria (Record) e às 22h, no CartoonNetwork. “À noite, não deixo! O horário de dormir, em casa, é 21h”, garante Lisete.

A maioria dos pais acha que o CartoonNetwork deveria exibir o desenho mais cedo. André Pessoa Guimarães, sete anos, que mora em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, é uma das crianças que mudaram o horário de dormir por causa do Pokémon. “As mães brigam, mas a gente (eu e os amigos da escola) não dorme sem ver o desenho”, conta André. Ele adora as competições. Para capturar um Pokémon, que é um bichinho “selvagem”, é preciso colocar um dos Pokémons domesticados para lutar com o outro. A idéia não é matar, mas fazer com que o bichinho desmaie para aprisioná-lo na pokebola. Depois, cabe a cada caçador treiná-los em combates.

Vício - Rodrigo Ceribelli Moreira, nove anos, se transformou em um treinador de Pokémon em julho. Primeiro, foi capturado pelas aventuras do menino Ash, o melhor treinador de Pokémon, e seu fiel companheiro Pikachu. Nas férias, viajou com a irmã e a mãe, a jornalista Renata Ceribelli, para Orlando, EUA. “Fiquei impressionada! Na Disney, os dois só queriam saber de Pokémon”, conta Renata. Resistindo ao tremendo apelo para as compras, Rodrigo não gastou um cent até encontrar uma loja especializada na nova mania mundial. De lá, trouxe games boys, camiseta, tênis, máscara... Assim que pôs as mãos no joguinho, viciou. “Cada vez queria jogar mais. Acordava de noite, sentia dores nas costas”, lembra Rodrigo. Até que a mãe notou que o filho estava com os músculos dos ombros retesados. Desde então, selaram um acordo: Rodrigo só joga nos finais de semana.

Matheus Gagliardi Castilho, 12 anos, de Brasília, não perde um episódio da tevê e brinca com Pokémon no computador. O jogo foi obtido via Internet no site do CartoonNetwork. O disquete percorre as casas dos amigos que têm a mesma mania. “O jogo obriga a pensar”, garante. Como os games têm instruções em inglês, a garotada é forçada a aprender a língua. “Se minha mãe deixar, passo a tarde na frente do computador”, confessa. A mãe, Maria Amélia, sabe. Por isso cobra do filho os deveres antes de liberar a diversão.

A repentina paixão pelos Pokémons mudou os hábitos da hora do recreio. Como o game boy tem um cabo que permite a uma criança jogar contra a outra, e cada versão (azul, vermelha e amarela) tem monstrinhos diferentes que podem ser trocados de um game para outro, como figurinhas, as crianças só querem jogar. Algumas escolas proibiram os alunos de usar o game no recreio. Tudo para estimulá-los a variar de diversão.

Pokenúmeros - O game boy, pai de toda febre Pokémon, foi criado pela Nintendo em 1996, no Japão. Em seguida, lançaram o desenho animado que, em 1997, provocou convulsão e falta de ar em 600 crianças japonesas, por conta dos efeitos. Depois do incidente, tiraram o lusco-fusco e melhoraram a história. Hoje, a pokemania rende US$ 3 bilhões por ano no Japão. Nos EUA, a febre dura há um ano e dois meses. Até o final deste ano, deve movimetar US$ 1 bilhão. No Brasil, onde a mania começou há seis meses, as vendas devem chegar a R$ 4 milhões até dezembro, segundo a Exim, o agente licenciador de Pokémon no País.

“Isso não é nada”, avisa André Forrastieri, dono da Conrad Editores que publica as revistas Pokémon Club Oficial, que vende 220 mil exemplares por mês, e a Pokémon quadrinhos, 60 mil exemplares vendidos a cada edição. O ano 2000 será melhor. Em janeiro, a Warner Bros. lança no Brasil Pokémon, the first movie (o número 2, em execução, será exibido em julho, nos EUA). Nos EUA, em uma semana, levou 20 milhões de espectadores aos cinemas e arrecadou US$ 56 milhões: a maior bilheteria da história do cinema infantil, a quinta maior da história do cinema.

Uma das características comuns aos pokemaníacos é a avidez por novidade. Por isso, de maio até agora, o atendimento ao consumidor da Nintendo no Brasil recebe em média 2.500 ligações por mês. Querem informações. “Soube que vai sair o álbum Pokémon II”, conta Diego Barroso Semblano, 12 anos, que mora no Rio e quase completou seu primeiro álbum.

Para o psicólogo Lino de Macedo, o sucesso de Pokémon pode estar na combinação de modelos antigos adaptados a uma linguagem moderna e globalizada. Ou seja, os caçadores repetem o passado masculino de capturar, dominar e transformar. As meninas ficam seduzidas pela fantasia de cuidar, treinar que faz parte da cultura do gênero feminino. Ele também espanta a teoria de que games no estilo de Pokémon fazem mal às crianças. “Os jogos não contêm em si nem vício nem virtudes”, avalia. Cabe aos adultos determinar os horários para a diversão e cobrar as obrigações. E evitar exageros. Fora isso, não há contra-indicações. Apenas diversão.

Colaboraram: Eduardo Hollanda (DF) e Valéria Propato (RJ)

 

 
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