157401 de dezembro de 1999  
Foto: MARCELO MIN
Curi, o editor de É, promete não
esquecer os hetero

  D I V E R S Ã O
Programa legal
Guia de atrações culturais para o público GLS mostra que gay deixou de ser selo alternativo

MARTA GÓES

Um guia de lazer e atrações culturais para o público GLS de São Paulo - o É cultural - começou a circular este mês, com roteiros de filmes, peças, restaurantes, casas noturnas e, ok, saunas. O guia é uma criação de Celso Curi, um especialista em combinar cultura e mundo gay desde os anos 70, quando lançou uma coluna espe-cializada no jornal Última Hora de São Paulo. Na década de 80, o bar que ele fundou, Off, tornou-se um animado centro cultural. Há dois anos, ele lançou o guia Off de programação teatral e, em maio, abriu um teatro de 80 lugares, o N.E.X.T. É tem uma tiragem de 20 mil exemplares e é distribuído gratuitamente nos endereços citados, muitos deles presentes também nos guias convencionais. Este mês, o roteiro de É ganhou o reforço de um festival de cinema sobre a diversidade sexual, o Mix Brasil, e de uma mostra de teatro, a Off-Mix.

“O que é legal é que não se trata de uma simples lista de endereços”, elogia o ator Guilherme Leme, em cartaz no Off-Mix com o espetáculo Decadência, do inglês Steven Berkoff. “Toda metrópole que se preze tem uma programação gay variada e o público estava precisando desse tipo de serviço”, diz. A clientela homossexual é uma parcela importante do público em todos os bons restaurantes e casas de espetáculo. “A diferença é que uns admitem isso e outros fingem que não vêem”, diz o chef Alex Atalla, do Na Mesa, incluído no roteiro gastronômico de É. Com entusiasmo variável, isso se tornou uma verdade irrecusável em muitos países. De olho nos homossexuais americanos, que movimentam um mercado turístico avaliado em US$ 17 bilhões, o escritório oficial de turismo francês lançou nos Estados Unidos um guia sobre a França que gosta de gays. Muitos franceses resmungaram, irritados. Mesmo assim, a vida já foi mais dura. Nos anos 70, por assinar uma coluna gay no jornal Última Hora de São Paulo, o editor de É foi acusado de “atentar contra a moral e estimular a união de seres anormais” e foi processado. O convívio melhorou tanto que a segunda edição do guia, prevista para janeiro, vai ter uma seção hetero. Ninguém precisa se sentir excluído.

 

 
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