157401 de dezembro de 1999  

  C O N S U M O
Marcas do tempo
Os calendários para o ano 2000 são tão bem cuidados que podem virar peça de colecionador

MARTA GÓES

O réveillon do ano 2000 fez muita gente querer um calendário caprichado. As papelarias reforçaram seus estoques, prevendo um consumo maior, e os grandes calendários institucionais levaram em conta esse olhar atento para lançar edições inesquecíveis. A Pirelli, que faz desde 1964 um dos clássicos do gênero, e a editora Gráficos Burti, que publica desde 1995 um calendário com temas brasileiros, reservaram lugar no olhar do público no primeiro ano do dígito 2.

“Nós imprimimos imagens do mundo fantasioso da publicidade o ano inteiro. Em nossa peça institucional, optamos por falar da realidade”, explica Luis Carlos Burti, da editora Gráficos Burti. Edições anteriores falaram de futebol, de religião e de crianças desaparecidas. A do ano 2000 é ilustrada por pinturas de índios ticunas do Alto Solimões que participam do projeto Educação Ticuna. Esse trabalho, criado em 1993, ajuda professores índios a concluir o segundo grau para implantar um novo sistema de ensino. Eles pintaram em oficinas de arte coordenadas pela antropóloga Jussara Gruber e usaram tintas e pincéis. “Às vésperas dos 500 anos do Descobrimento, não queríamos que ficassem restritos ao urucum”, diz o diretor de arte dos calendários, Alex Chacon. Em 12 pranchas de colorido vivo, os ticunas tiveram a chance de compartilhar com outros brasileiros sua sofisticação estética e visão de mundo. Entre outros cuidados, o calendário exigiu um programa de computador com letras do alfabeto ticuna, para a impressão. Este ano, pela primeira vez, ele vai ser vendido, por R$ 70, no Museu de Arte Moderna do Rio e na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.

Uma vitrine mundial que já foi ocupada por fotógrafos como Herb Ritts, Richard Avedon e Bruce Weber, o calendário Pirelli exibe em sua edição para o ano 2000 um ensaio da americana Annie Leibovitz sobre o corpo feminino. Os modelos são cinco bailarinas, a atleta olímpica e recordista britânica Jacqui Agyepong, e as top models Laetitia Casta e Alek Wek. As poses parecem telas de Rubens ou de Botticelli. São 40 mil exemplares, distribuídos entre clientes e parceiros comerciais da empresa. “Eu não estava preocupada com a atemporalidade, mas acho que todo mundo vai guardar o calendário do ano 2000” diz a fotógrafa.

A Fnac de São Paulo, filial de uma cadeia de 62 lojas de produtos culturais em cinco países da Europa, aumentou em 20% sua oferta de calendários. E tratou de garantir também que suas prateleiras exibissem os temas prediletos do consumidor desse produto. Por preços de R$ 11,90 a R$ 20,90, uma coleção da Graphique de France estampa fotos de ídolos da cultura pop, como Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Elvis Presley; reproduções de artistas famosos, como Van Gogh, Matisse e Renoir, e paisagens. “Bichos simpáticos, como gatos, cachorros e golfinhos também são tema obrigatório”, diz o reponsável pela área de livros e papelaria, Fernando Santos. Ao fixar a presença de uma marca ou de um tema no dia-a-dia das pessoas, os calendários são meios de comunicação poderosos. “Pouquíssimas peças promocionais podem prometer isso”, frisa José Guaraci Fraga, redator da produtora de material de promoção Made in Brasil Design. “Além de agregar valor à marca que o assina, um calendário tem que ser capaz de atrair simpatizantes para ela”, descreve Fraga. Publicitários e criadores de calendários sabem que eles precisam falar de assuntos que nos emocionem com imagens que dêem vontade de pregar na parede. “De modo geral, considero inesquecíveis os que contenham um vínculo forte com a sua época, pois é assim que nascem e perduram as lembranças”, diz o redator.

 

 
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