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ALAN AZAMBUJA
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Um dos trunfos de Motta Veiga é a equipe, formada na escola real da Tailândia
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G A S T R O N O M I A
De pimenta em pimenta
Depois de se dedicar por oito anos à cozinha tailandesa em Paris, um baiano vira cozinheiro de rei
ANGELA KLINKE - Paris
Acozinha de Salvador e a de Bangcoc guardam muitas semelhanças - os ensopados com leite de coco, a força das especiarias e os perfumes sedutores. O engenheiro Manuel da Motta Veiga cresceu com as duas influências. A comida baiana alimentou seus dias de filho único e rico herdeiro de uma tradicional família nordestina. O exotismo dos pratos tai acaba de conferir a ele a exclusividade de servir um rei em seu próprio restaurante. Há oito anos ele é gerente-geral do Blue Elephant, no animado bairro da Bastilha, em Paris, e mais recentemente tornou-se sócio da holding com filiais em Londres, Bruxelas, Copenhague, Nova Délhi, Dubai, Beirute, Lion. Dinheiro nunca lhe faltou, mas a grande realização de Motta Veiga é ter vencido na Europa e, em especial, em Paris, num terreno tão povoado de estrelas como a gastronomia. “E o melhor de tudo é que faço o que mais gosto”, comemora num português com sotaque francês. Somente os chefs da rede podem cozinhar para a família real tailandesa. Qualquer lugar onde a comitiva se instale, lá estão os escudeiros da panela do Blue Elephant. O selo de confiança que as unidades de Paris e Londres acabam de receber, contudo, é ainda mais lisonjeiro. Pelas tradições da coroa tailandesa, um rei não pode sentar em qualquer balcão. Recebê-lo é uma honra. O segredo para ser fornecedor da corte não é simples. Todos os ingredientes usados são importados. “Da pimenta verde às orquídeas que enfeitam o restaurante”, conta. Outro trunfo é a mão-de-obra. Só pode trabalhar na casa quem saiu da escola real de cozinha tailandesa, uma instituição criada há dois séculos naquele país e que permitiu a existência de uma tradição gastronômica com identidade bem mais elaborada que a que era praticada nas ruas, e destoante das nações vizinhas. “ Só em Londres são 230 restaurantes tai, mas nós é que fomos agraciados”, comemora Motta Veiga. Humildade não é seu forte, mas seu trabalho tem-lhe rendido um prestígio que mal cabe em sua pequena estatura. Mão na massa - Formado em enologia em Bordeaux, Motta Veiga, que gosta de vestir griffes, orgulha-se de ter recebido o título de melhor carta de vinhos de restaurante exóticos de Paris. Há 16 anos, ele também já havia conseguido isso em Bruxelas e no seu restaurante de então, o Samambaia. Na capital belga, onde se graduou em engenharia, ele acabou fazendo fama com comida brasileira. Tinha receitas cedidas até por Zélia Gattai, como o abarém, massa de milho cozida com peixe. Foi a premiação de sua cozinha - na época ele colocava a mão na massa - que resultou no convite do Blue Elephant, de Paris. Hoje a casa se tornou sinônimo de badalação. A cada 15 dias, o primeiro ministro francês Lionel Jospin vai ao restaurante. É o mais assíduo de uma lista que inclui os atores Gerard Depardieu, Uma Thurman, Helen Hunt e os cineastas Luc Besson e Tim Burton. O secretário-geral da ONU, Boutros Boutros Galli, escreveu no livro de ouro: “excelent dinner”. Além da carta de vinhos e da comida, a clientela famosa é atraída pelo ambiente. “Sawadee”, diz a sorridente recepcionista, vestida em uma túnica oriental, nas boas-vindas na língua tai. No caminho até a mesa, uma profusão de orquídeas. Ao fundo, o som do borbulhar de água da cascata artificial. No ar, uma mistura de especiarias. Encantado por essa atmosfera, Roman Polanski, cliente da casa, filmou lá a cena em que o personagem de Peter Coyote seduz a belíssima Emmanuelle Seigner em Lua de fel. Foi uma divulgação e tanto e a clientela brasileira em Paris afluiu. A grande saia justa foi ter recebido a falecida Leda Collor de Mello, mãe do ex-presidente. “Foi logo depois das denúncias de meu primo (Eduardo da Motta Veiga, ex-presidente da Petrobras que denunciou um dos esquemas de corrupção envolvendo PC Farias). Eu não sabia quem ela era nem ela quem era eu. Quando falamos o sobrenome, foi um constrangimento.” Motta Veiga coleciona histórias como essa. Se acompanhado de seu drinque preferido então, melhor ainda. “Seu Manuel” derruba uma caipirinha toda noite, com meio copo só de açúcar. E, apesar de toda a pompa e títulos, revela. “Gosto mesmo é de Pitu.”
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