2 de dezembro de 1998




Neuróticos da roupa
Francês especialista em história da moda diz em SP que homens são obsessivos para se vestir


Foto: MAX PINTO

TRADIÇÃO Para Chenoune, a moda masculina é voltada para o passado: "Ela é arcaica no bom sentido. O homem repete seus ancestrais"

GISELE VITÓRIA

Como contar a história do mundo através da moda? Para o escritor francês Farid Chenoune, 49 anos, o culto à roupa é a pele da sociedade. "É possível explicar o mundo tomando a moda como metáfora. Não existe gente nua, existem pessoas sem roupa", diz. Autor de livros como Homens e modas – dois séculos de elegância masculina e o Underwear feminino, Chenoune chegou a São Paulo segunda-feira 23, convidado pelo sociólogo paulista Dario Caldas, pesquisador de moda masculina, para fazer uma conferência na inauguração do Centro de Educação em Moda do Senac.

Colaborador de publicações como a revista Vogue Hommes e o jornal francês Libération, o escritor usa a psicanálise para distinguir a moda feminina da masculina. Diz que para o homem ela é obsessiva e para a mulher, histérica. A obsessão masculina se traduz nas repetições e nas mínimas variações. "A moda masculina é arcaica no bom sentido – o homem busca seus ancestrais", afirma. "A mulher nunca está satisfeita. Sua frase chave é: ‘Não tenho nada para vestir.’ Ela quer dizer: não tenho nada que hoje confirme que sou mulher. É uma busca sem fim da feminilidade."




REPETIÇÕES Ao longo das épocas o terno nunca sofreu grandes transformações. Pequenas variações como número de botões ou tamanho da lapela marcam o traje símbolo da masculinidade

Para Chenoune, enquanto a roupa feminina mira o futuro, a masculina se volta para o passado. "A moda masculina recicla o que já existe, sobe os botões do terno para três, quatro, volta para dois", diz. "Temos a cultura de transmitir o nome do pai e os bens para o filho. Há uma necessidade de assegurar essa transmissão para garantir a continuidade. O terno é uma expressão desse poder", acredita. Ele cita o príncipe Charles como exemplo de elegância. A mulher sempre transitou com desprendimento no terreno da moda – até para incorporar trajes masculinos em seu guarda-roupa. Por muito tempo, a esfera de ação feminina foi a casa e a beleza. Não tinha projeção política nem responsabilidades profissionais. "A moda é uma expressão da feminilidade ao longo das épocas. Vestida, a mulher pergunta ao espelho: continuo sendo feminina? É uma eterna reafirmação", observa.

Também autor de um livro sobre o estilista francês Jean Paul Gaultier, ele reforça que a cultura gay ajudou a quebrar a rigidez do estilo clássico, que veste praticamente 90% dos homens. "As cores mais alegres, tecidos mais ousados, o decote V, as camisetas colantes e as calças mais justas são propostas de criadores homossexuais que renovaram o vocabulário da moda masculina", afirma. Um contraste na sobriedade inaugurada por Brumel, dândi inglês do século XIX considerado o pai da moda masculina contemporânea. "Os anos 90 deram largada a uma crise na moda masculina. Mudanças estão por vir. Hoje se destaca o que está por vir e não o que já passou." Mais uma vez, a moda é um reflexo.






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