![]() 24 de junho de 1998 |
![]() A turma do barulho Brinquedos sonoros podem prejudicar a audição das crianças e torná-las agitadas e agressivas
KÁTIA STRINGUETO Criança gosta de folia e de brinquedo que faça barulho, muito barulho. Mas os apitos, cornetas, trenzinhos musicais, telefones e demais objetos sonoros que tocam pela casa podem acabar com a paz dos pequenos e causar prejuízos à audição. O alarme de perigo soou há cerca de um mês, com uma pesquisa realizada pelo médico londrino Peepak Prscher. Após medir a intensidade sonora dos brinquedos e concluir que a maioria excede o volume seguro, o médico aconselhou os pais a não comprar brinquedos cujo ruído ultrapassasse o som de uma conversa (cerca de 60 decibéis). No Brasil, o limite de ruído para brinquedos é de 85 decibéis, o equivalente a um despertador ou motor da broca de dentista. Por incrível que pareça, esse parâmetro não foi estabelecido a partir de algum estudo realizado com crianças. Foi utilizado um limite imposto pelo Ministério do Trabalho para atividades insalubres – trabalho em metalúrgica, por exemplo. Ou seja, um trabalhador não pode permanecer por oito horas ininterruptas submetido a um ambiente com barulho acima de 85 decibéis. Descontentes com esse parâmetro, técnicos do Instituto de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) iniciaram um movimento para revisar a norma. "Os limites atuais de som estão acima do seguro. São perigosos", diz o engenheiro Oscar Augusto Cunha Carneiro, da Divisão de Certificação de Produtos do Inmetro. A situação piora quando se repara que na norma atual não é especificado a que distância a intensidade de som deve ser medida – próxima ou não do ouvido da criança. "Insisto na correção da norma desde agosto do ano passado. Chamei para uma reunião o pessoal do laboratório de acústica do Inmetro, fonoaudiólogas do Instituto Nacional de Educação do Surdo e a Associação dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), que não compareceu", afirma Carneiro. Se a proposta de revisão da norma for aprovada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), haverá a partir de julho uma redução gradual dos limites acústicos dos brinquedos ao longo de três anos. O problema é que nem os técnicos do Instituto sabem dizer ainda até quanto é necessário reduzir esses volumes. "Enquanto isso e em detrimento disso, a criança está em risco", admite o especialista do Inmetro.
Essa dificuldade em estabelecer uma nova regra começa com a falta de estudos mais precisos sobre o assunto. Não se sabe sequer a que distância o aparelho que mede o som deve ser colocado do brinquedo. E isso faz muita diferença, já que o som se propaga no ar e quanto mais próximo ao ouvido maior o impacto. Para mostrar a oscilação desses valores, o otorrinolaringologista Richard Voegels, do Hospital das Clínicas de São Paulo, fez a medição por meio de um equipamento que registra os níveis de decibéis (decibilímetro) em duas situações: com o aparelho medidor encostado ao brinquedo e a 40 centímetros de distância. Os resultados comprovaram que a maioria dos produtos só está de acordo com a norma brasileira vigente – ou seja, atinge um limite de 85 decibéis – quando colocados longe do aparelho. Encostado ao brinquedo, os decibéis extrapolam. Aquele trenzinho que apita, acende as luzes e levanta as rodinhas, por exemplo, chega a 106 decibéis. Pelo bom senso, o médico, que será pai no segundo semestre deste ano, afasta a possibilidade de comprar a maioria dos brinquedos. "Acima de 80 decibéis, o barulho de um secador de cabelos, acho o som nocivo para a criança", defende Voegels. Como se vê, não há um consenso em relação a limites. O inglês Prscher defende 60 decibéis. Voegels, 80. A norma em vigor estabelece 85. Não bastasse, há ainda uma quarta opinião, a da fonoaudióloga Thelma Costa, presidente do Conselho Federal de Fonoaudiologia. "O ideal é que o som não ultrapasse os 70 decibéis. Não irrita, não é lesivo e é educativo", diz. Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq, engrossa a polêmica. "Seguimos a norma brasileira. Adoramos brinquedos barulhentos, quanto mais recursos, melhor para desenvolver a identificação de sons pela criança", afirma. "Com muito respeito aos médicos, eles não entendem nada de brinquedo", alfineta. Ricardo Bento, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia, rebate: "Posso não entender nada de brinquedo, mas a Abrinq não entende nada de ouvido." Bento, aliás, é do time dos que defendem o limite de 80 decibéis. Polêmicas à parte, o fato é que o excesso de barulho pode estar prejudicando as crianças mais do que se imagina. Infelizmente, elas já estão expostas a ruídos fora de casa, como no trânsito, no restaurante e no supermercado. Anatomicamente, o ouvido está pronto desde o nascimento, mas até um ano de idade o desenvolvimento das vias auditivas continua em crescimento. "O som é uma vibração, como as ondas que se formam no lago ao se jogar uma pedra", compara Ricardo Bento. Essa vibração balança células finíssimas com terminações nervosas que revestem o canal interno do ouvido e a cóclea (caracol do ouvido). Todo esse sistema precisa de estímulo para amadurecer. Por isso o som é importante. "Mas em exagero, age como um furacão num campo de trigo, arrancando as frágeis células nervosas e, assim, diminuindo a percepção auditiva", explica o médico. A sensibilidade infantil, portanto, supera a do adulto. Até os seis meses, a criança se intera com o meio ambiente por meio do que ouve. É a principal pista de contato com o mundo. "Tente manter-se com os olhos fechados por algum tempo e automaticamente você vai perceber que passa a prestar mais atenção ao mais suave ruído", compara Richard Voegels. Por isso, mesmo que os pais não se angustiem com o barulho – porque sua audição já está "envelhecida" –, há uma grande chance de a criança sofrer. O tamanho do aparelho auditivo, menor, nas crianças as torna mais vulnerável a um trauma porque a pressão que o som exerce no ouvido tem maior impacto. "Se 85 decibéis é um limite seguro para adultos, pode não ser para a criança", declara o otorrinolaringologista Gilberto Gattaz, professor de Fonoaudiologia e do setor de pós-graduação em Distúrbios da Comunicação da PUC-SP. Além disso, algumas crianças são mais sensíveis ao som do que outras. "Assim como há aquelas que pegam mais gripe, há as que, por uma questão genética, têm maior propensão a sofrer lesão auditiva", lembra Ricardo Bento. Ruídos extremos ou constantes são sempre prejudiciais: a curto, médio ou longo prazo. Gilberto Gattaz alerta que muitas vezes a criança faz uso indevido do brinquedo. Pode, por exemplo, levar um apito ou uma corneta direto ao ouvido do irmão. "Nesses casos, são cerca de 90 decibéis, uma verdadeira orquestra vibrando no ouvido", explica o médico. "Apesar de remota, existe a possibilidade de a criança ficar surda com o disparo de um único tiro de revólver de espoleta – que chega a 110 decibéis, equivalente ao som de uma britadeira." Os primeiros sinais de perda de audição podem ser percebidos quando a criança começa a falar. Ela troca, por exemplo, o s pelo f. Já o stress causado pelo ruído é mais fácil de ser detectado (leia quadro à pág. 84). O administrador de empresas Raul Boaventura, 33 anos, conta que seus filhos Bruna, quatro anos, e Fernando, de dois, ficam mais agitados quando brincam com brinquedos barulhentos. "Eles pulam, correm e gritam mais do que o normal. E logo enjoam do barulho", diz Raul. Além de prejudicar a audição, o stress sonoro aumenta a pressão sanguínea e reduz a concentração. A criança fica distraída, briguenta e o convívio é prejudicado. A longo prazo pode atrapalhar o rendimento na escola. Adriana Storani Otero, 24 anos, mãe de Amanda, três, e de Fernando, um, sabe bem o quanto o barulho afeta seus filhos: "Quando a Amanda passa o dia com a boneca e a bola, dorme tranquila", conta. "Mas depois de brincar com o pianinho, o radinho ou o trenzinho musical ela perde a calma: fala mais alto, começa a pular enquanto conversa. Se estiver próximo da hora de dormir, chora. Parece que tem sono e não consegue relaxar", diz. Talvez os adultos possam aprender um pouco com a sensibilidade das crianças e diminuir o volume da caixa de brinquedos.
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