![]() 11 de fevereiro de 1998 |
Verdadeiras bonecas
IVAN PADILLA E OSMAR FREITAS JR., DE NOVA YORK Mulheres lindas e obedientes, que não gostam de conversar sobre a relação e aceitam sexo sem envolvimento – uma fantasia de milhões de homens neste fim de milênio pode ser satisfeita com facilidade. Existem mulheres assim. Elas custam U$ 5 mil, são feitas de silicone e só podem ser compradas via Internet. Uma empresa americana, a Reactor (endereço www.realdoll.com), de Chicago, lançou há um ano e meio as real dolls – na tradução literal, bonecas de verdade –, imitações perfeitas que surpreendem pela beleza estonteante e pelo acabamento sofisticado. Desde o tom da pele até o formato dos dedos do pé, tudo parece real. Não sem razão, essas bonecas se tornaram uma febre no mercado de produtos eróticos. Desde o lançamento já foram vendidas mais de cinco mil unidades, 12 delas para compradores do Brasil. As encomendas são entregues em caixas cúbicas, semelhantes àquelas que acondicionam minigeladeiras, que não levantam a menor suspeita sobre o conteúdo. "Nosso compromisso é com o sigilo e a privacidade do cliente", garante o porta-voz da Reactor. Em território americano, a entrega demora entre quatro e 12 semanas para chegar às mãos ansiosas do comprador. O catálogo da Reactor oferece quatro versões da boneca, chamadas respectivamente Leah, Stacy, Celine e Julie. Todas parecem personificar um sonho da mulher ideal. Podem ser montadas ao gosto do freguês, a começar pelo corpo, disponíveis nos tamanhos voluptuoso e supermodel. Na hora de preencher o formulário de pedido, o interessado pode discriminar a cor dos olhos, cabelos, lábios, unhas, pele e até mesmo o tipo e o volume dos pêlos pubianos. A empresa não atende a encomendas personalizadas, como bonecas inspiradas em ex-namoradas ou em atrizes de cinema. O que não impede que os consumidores desavisados façam esses pedidos. Entre as campeãs de preferência estão Claudia Schiffer e Michelle Pfeiffer, e a solicitação mais sofisticada até agora foi de um modelo igual a Jacqueline Kennedy Onassis. Mas alguns clientes têm preferência por características que o gosto médio desaprovaria: gordas ou com seios gigantescos. A empresa aceita apenas as combinações que possam ser feitas com peças do catálogo.
O tronco e os membros da real doll apresentam alto grau de flexibilidade devido a uma tecnologia, também aplicada pela indústria do cinema para fazer bonecos animados, que consiste em inserir uma espécie de óleo não-tóxico entre as moléculas de silicone. Já a vagina, a boca e o ânus são feitos de um outro tipo de silicone ainda mais suave, elástico e escorregadio. Por causa das dimensões dos orifícios e da qualidade do material, um efeito de sucção ocorre durante a penetração para aumentar o prazer do usuário. O modelo standard possui orifício vaginal. Orifícios anal ou oral custam um acréscimo de US$ 250. A versão luxo já vem com os três acessórios. As juntas são de aço inox e podem ser dobradas em ângulos de até 180 graus, possibilitando as posições mais inusitadas do Kama Sutra, o livro erótico-religioso dos hindus. O esqueleto é de plástico PVC. Como o produto atura temperaturas de até 300 graus centígrados, a empresa até sugere que se esquente a boneca antes das brincadeiras para que ela exale um pouco de calor humano – ou algo próximo a isso. As real dolls são impermeáveis, bóiam e suportam até 300 quilos. Não têm sabor nem cheiro, salvo um suave aroma de frutas. Elas são entregues vestidas com calcinha, corpete, cinta-liga e minissaia, mas nada impede que o consumidor compre novos figurinos e adereços e brinque, ao pé da letra, de boneca. Chegam sem brincos, mas as orelhas, assim como as demais partes do corpo, podem ser furadas à vontade. Para os apreciadores do sexo inanimado, as possibilidades de diversão com as bonecas de silicone são infinitas. Lubrificantes podem ser usados, mas se a intenção for enfeitar a boneca com cosméticos, maquiagens e esmaltes, recomenda-se optar por cores naturais nas unhas, lábios e pálpebras na hora de fazer o pedido. O fabricante também não faz nenhuma restrição quanto ao uso de artefatos e vibradores nas partes íntimas. As novidades não param por aí. Estão em estudo uma versão mecanizada da boneca e até modelos masculinos e travestis. O rol de compradores das Real Dolls inclui de artistas plásticos em busca de decorações exóticas a homens solitários e casais que desejam incrementar sua vida sexual. Os depoimentos de usuários que aparecem no site são incisivos. O radialista americano Howard Stern, famoso por suas manifestações politicamente incorretas, deixou seu depoimento no site da Internet: "Foi a melhor relação sexual que eu já tive. Ela é fantástica. Melhor que uma mulher de verdade, melhor até que minha esposa", alardeia. "Comprei a boneca e ela é mais bonita ao vivo do que nas fotos. Parece de verdade. Para dizer o mínimo, estou extremamente feliz", afirma um comprador que não quer se identificar. Esta tal felicidade, na verdade pode ser uma fuga. "O processo emocional é complexo e algumas vezes frustrante. A substituição do ser humano por silicone mostra a falência das relações afetivas e a incapacidade de se entregar", analisa o sexólogo Moacir Costa, que trata do tema no livro Sexo – minutos que valem ouro. Para a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas, o sucesso das bonecas de silicone não é necessariamente má notícia a respeito das relações entre homens e mulheres. "O aparecimento de um mercado para bonecas de silicone parece indicar que as mulheres já não aceitam ser inteiramente passivas", calcula Carmita. "Não é por acaso que um produto assim apareceu nos Estados Unidos, onde o lugar da mulher na sociedade avançou muito neste século." A boneca real doll começou a tomar forma no princípio dos anos 90. Desde o começo de 1991, protótipos do modelo comercial começaram a ser testados. A julgar pelo tempo de testes, o projeto inicial estava bem longe do resultado pretendido. Só em 1996 é que as real dolls começaram a ser vendidas. A demora foi compensadora. A empresa garante que os compradores jamais devolveram uma só mulher de plástico. Mas experts em objetos eróticos advertem que, embora elas venham acompanhadas de um kit-limpeza, composto de sabão líquido e escovas, é muito difícil garantir a perfeita higiene dessas bonecas. A consultora sexual Allison Glock, a Dr. Sooth da revista americana GQ, uma das bíblias do consumo masculino, diz: "É bom lembrar que ao contrário das infláveis (que custam no máximo US$ 900), elas não esvaziam. Por isso fica difícil limpar os locais, digamos, de maior uso, que se transformam em depósitos de bactérias." E, para aqueles apressados em trocar a namorada por uma passiva escrava sexual, a consultora Glock avisa: "Não adianta. As áreas de penetração são muito abrasivas. Mesmo com muito lubrificante a fricção pode produzir queimaduras, bolhas e ferimentos dolorosos. Some-se a isso o contato com bactérias e tem-se uma boa infecção." Imagine: pegar uma doença venérea de uma boneca de silicone. Não existe mais ninguém sexualmente confiável?
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