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Beleza com fim trágico
OSMAR FREITAS JR.
Nos Estados Unidos os concursos de beleza infantil atraem multidões de famílias que sonham com um título, coroa ou troféu para suas menininhas. Trata-se de um fabuloso negócio que movimenta anualmente US$ 5 bilhões. O problema é que a fábrica de vaidades e dólares dos concursos de miss-infantil é considerada também uma autêntica máquina de moer carne. "Dificilmente uma menininha sobreviverá incólume a um concurso desses", diz a psicóloga infantil Mayha Johnston. A garota JonBenet Ramsey tragicamente confirma a tese de Mayha. Ela foi violentada um dia depois do último Natal e deixada amarrada e amordaçada no porão de sua própria casa. Tinha seis anos, mas suas fotos e imagens em vídeo mostram uma criatura atemporal. A maquiagem pesada e as roupas kitch típicas dos guarda-roupas de candidatas a miss transformaram a menininha em um travesti de adulto sexual. "Esta é uma sociedade que recrimina o sensualismo de crianças, mas que demonstra com seus atos um fascínio pedófilo", dispara a psicóloga. Ou seja, a neurose da pedofilia muitas vezes alimenta esse tipo de concurso e até mesmo uma erotização infantil. Portanto, é simplista dizer que o assassinato da menina foi culpa de sua erotização. É um discurso parecido com aquele que diz: os estupros aumentaram, pois as mulheres estão mais provocantes. Culpa-se a vítima por um crime hediondo cometido por razões muito mais profundas.
A morte de JonBenet chocou o mundo. Ela era filha de um industrial milionário e da ex-Miss 1977 do Estado de West Virgínia. A família morava numa mansão na cidade de Boulder, no Colorado. Ninguém diz ter ouvido nada de anormal durante a noite em que a menina foi morta. John Ramsey, o pai, havia chamado a polícia dizendo que a filha fora sequestrada. O rapto era comprovado por um bilhete exigindo uma quantia específica. Os investigadores vasculharam a casa e não encontraram nenhum sinal de arrombamento. Foi John quem desceu ao porão e encontrou a filha enrolada num cobertor. Testes de laboratório confirmariam o estupro da vítima. As investigações ainda não chegaram a nenhuma conclusão definitiva. Mas os principais suspeitos no imaginário popular, e nos indicativos dados pela polícia, são os próprios pais da garota. Existem indícios incriminatórios, como o bilhete de resgate escrito em blocos de anotações pertencente à própria família e a quantia do resgate que coincide exatamente com o bônus de fim de ano recebido por John.
O público parece concordar com isso. Tanto que uma atenção incomum passou a ser dada aos concursos de beleza infantis do país. Trata-se de uma subcultura que envolve três milhões de crianças em todo o território nacional, mas que se concentra mais nos Estados do Sul e Meio-Oeste. O segmento que mais cresce nestas competições é o da faixa etária entre zero e sete anos de idade. As candidatas pagam entre US$ 5 e US$ 600 de taxa de inscrição e chegam a investir US$ 15 mil em trajes para as meninas. Apenas 10% dos participantes são meninos. "Ver garotinhas de três ou quatro anos de idade cobertas de máscara de rímel me embrulha o estômago", diz Eva Stancil, proprietária de uma agência de modelos, que foi jurada de concursos de beleza infantil durante anos.
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