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![]() 4 de dezembro de 1996 |
ANDRÉA MICHAEL
"A Marujada só sobreviveu porque conseguimos mantê-la como uma tradição das famílias de Bragança", diz João Batista, presidente da irmandade. Nem poderia ser diferente. Não há aulas nem manuais que ensinem as meninas a rodarem com as saias e a fazerem as fitas coloridas dos chapéus se misturarem contra o vento. Em Bragança, o Mistério de Natal, que pelas tradições católicas deveria durar uma semana, restringe-se a um único dia, o 25 de dezembro. No dia 26, a festa é toda de São Benedito, com a Marujada à frente. A explicação vem de longe. O verdadeiro dia de São Benedito é 5 de outubro. Mas, como antigamente o caminho da capital Belém até Bragança demorava dias para ser percorrido e havia poucos padres, costumava-se celebrar o Natal e o dia do santo de uma só vez. "O povo de Bragança é muito católico, mas também é agarrado a suas tradições. Acho difícil mudar o dia de São Benedito agora", conforma-se o bispo dom Luiz Ferrando. Também na culinária a influência dos negros se faz presente no Natal de Bragança. Na ceia, a feijoada, comida típica das senzalas, se transforma num prato indispensável na mesa paraense. Mas no lugar do feijão, as carnes são cozidas com folhas de maniva, um tipo de mandioca, dando origem à famosa maniçoba. À beira do rio Caeté, dona Eurides Gonçalves Rotterdam, a "rainha da maniçoba" de Bragança, conta que costuma cozinhar para 50 pessoas. "Minha maniçoba é conhecida até no sul de Minas", diz. É um prato trabalhoso. A maniva precisa cozinhar seis dias em fogo de brasa antes de chegar à mesa. Existe ainda um outro segredo: lavá-la bem e escaldá-la três vezes, antes de cozinhar. Para acompanhar a maniçoba, arroz escorrido. É o arroz preparado em muita água e sal, sem refogar. Depois de cozido, escorre-se a água.
"Abre a porta, senhora. Quem bate é o Reis de Boi!" Com essa saudação, os grupos de Reis de Boi levam sua mensagem de Natal aos moradores da baiana Juazeiro, às margens do rio São Francisco, no coração do polígono das secas. Quem assiste ao seu auto, está abençoado com a prosperidade trazida pelo nascimento do filho de Deus. É na praça central de Juazeiro, em frente à catedral da padroeira Nossa Senhora de Grotas e à casa onde João Gilberto criou a Bossa Nova, que a história dos 12 personagens se desenrola. Primeiro entram as Pastoras, que anun-ciam a marcha dos três Reis Magos a Belém para saudar o nascimento do Mes-sias. Com um verso consagrado pela voz da cantora Marisa Monte, uma Borboleta é convidada a colorir a cena: "Borboleta pequenina/ saia fora do rosal/ Venha cantar doce hino/ Que hoje é noite de Natal." Começa, então, um ritual todo baseado na ressurreição. A Jandaia, uma ave que pairava por sobre as pastoras, é morta por um caçador. Com a força da oração, ela retorna à vida. A estrela do auto, o Boi, só chega no final. Ensaia alguns passos da dança e logo é morto pelo garoto travesso Mateus com uma pedrada na testa. O Boi, chamado de Janeiro, também ressuscita por conta da reza de sua dona e das pastoras. Levanta-se, jovem e forte, tal qual o Ano-Novo que está por vir.
O Reis de Boi nasceu das caminhadas dos tropeiros do coronel baiano Garcia D'Ávila. Rumo ao Maranhão, eles paravam para pernoite em torno do Juazeiro Velho, uma árvore que, mesmo na mais duradoura seca, permanecia verde e frondosa. Ali nasceu um comércio local e, mais tarde, a cidade. Entre os "causos" contados à sombra do Juazeiro Velho, misturavam-se as histórias do Bumba Meu Boi maranhense, as crenças baianas e africanas. Dessa mescla surgiram as personagens do auto, como o Urubu e a Mulinha Dourada. Ela, uma moça bonita que se apaixonou por um padre. O romance dos dois acabou num castigo de Deus, que transformou a donzela em mula sem cabeça e o vigário no pássaro das carniças. A dona do Boi é representada pela professora de língua inglesa e literatura americana Maria Izabel Muniz Figueiredo, a Bebela. Homenageada como patrimônio histórico e cultural da cidade, ela dedicou a vida a estudar as raízes históricas do folclore juazeirense. Fundou o grupo folclórico Juá, que recuperou as letras do poeta Chico Bola para fazer o mais tradicional Reis de Boi. Mantém em sua casa a tradição dos presépios - ou lapinhas. Reza a lenda que, no dia 12 de dezembro, dia de Santa Luzia, se deve plantar o arroz e o trigo. No dia 20, os brotos que nascerem servirão para ornar a manjedoura do Menino Jesus. Tão tradicional quanto o Reis de Boi é a ceia de Natal de Juazeiro, a 500 quilômetros de Salvador. O prato principal é a leitoa de quintal. A receita é de Graçu, ou dona Maria da Graça, famosa quituteira da cidade. Primeiro uma limpeza total em suco de 30 limões. Depois, um dia de molho em uma mistura de dez temperos: vinagre, sal, pimenta-do-reino, semente de coentro, folha de louro, cravo, semente de girassol, noz-moscada, cominho e pixurim (noz-do-pará). No acompanhamento, o conhecido vatapá, aquela massa amarela à base de pão dormido, azeite-de-dendê, farinha de camarão seco, amendoim e castanha de caju torrados. Para trazer prosperidade, o Natal baiano antecipa o Ano-Novo. Misturado ao arroz, pode-se servir lentilha ou ervilha, símbolos da fartura. A sorte pede algum gênero do mar. Serve até aquele restinho de bacalhau que ficou no freezer. A mesa dos lares juazeirenses também se repete nas ceias coletivas de clubes e associações, em que cada um contribui com o prato que está dentro de suas condições financeiras. Nessas comemorações, são sempre encenados bailes pastoris, com histórias representadas ao pé das lapinhas. Uma delas conta a história de uma conversa entre os deuses, entre eles Terra, Estrela Dalva, Júpiter e Plutão, onde se discutia a chegada do filho de Deus. Temiam perder autoridade. Entre cantos, os anjos acalmam os ânimos e declaram Jesus o salvador da humanidade. Terra e Estrela Dalva, que não blasfemaram, se colocam atrás do presépio. Os demais deuses abaixam a cabeça, envergonhados, e se afastam. Guiados pela Estrela Dalva, chegam os três Reis Magos. Termina, assim, mais um auto de fé para louvar a chegada de Cristo no sertão baiano.
Quem anda no centro de Goiás, uma cidade encravada na Serra Dourada, pensa estar num cenário de novela de época. Fruto do ciclo do ouro no Brasil central, o município, nascido como Vila Boa de Goiás, hoje tem 27,7 mil habitantes. Ainda assim, as ruas estreitas são chamadas de becos e as praças, de largos. Além da região central, a antiga capital do Estado tem outros 19 bairros. Em cada um deles, nove casas são sorteadas para receber as rezadeiras que vão puxar a corrente de orações da Novena de Natal, de 16 a 24 de dezembro. Um livreto, preparado na primeira semana do mês, orienta os fiéis sobre as preces e os cantos que serão entoados. Tudo começa com uma dezena - um Pai-Nosso e dez Ave-Marias - em coro. Uma canção em nome da família também tem espaço reservado no roteiro: "Abençoa, Senhor, as famílias/ Amém/ Abençoa, Senhor, a minha também."
Toda essa fé tem explicação. No início de cada novena, os fiéis rogam ao Senhor alguma caridade, um benefício de que estão precisando. Pela crença, até o fim dos nove dias de oração esse pedido será alcançado. A dona de casa Ana Maria Ferreira, rezadeira oficial de Goiás, é presença obrigatória das dezenas. É com emoção que ela conta a maior graça que já alcançou. "Saí de casa para começar uma corrente deixando o meu marido deitado em cima de uma cama, vítima de reumatismo. Pedi ao Senhor que o tirasse daquela situação", conta Ana Maria, numa voz rouca, resultado de 55 dias de orações ao Divino Espírito Santo. "Quando voltei, ele estava sentado no sofá e sorria à minha espera." Além de fé, o Natal de Goiás tem voz. São 32, unidas no Coral Solo da cidade, sob a regência de Sebastião Curado. No mês que antecede o Natal, Tão, como é conhecido o regente, ensaia o coro na sala da própria casa. Dedos no teclado, ele dá as notas e orienta as vozes para seguirem o tom certo. "Um coral tem que ter afinação", diz Tão. "Só assim consegue despertar a sensibilidade das pessoas para o espírito de Natal." Na praça do Chafariz, com um diapasão à mão, ele rege as quatro vozes do grupo, de soprano a baixo. Dia 23, o Coral Solo vai percorrer a cidade em serenata. No repertório, o forte são as músicas sacras. "Mas têm algumas que o público exige que a gente cante, como Noite feliz", confessa Tão. As vozes também vão dobrar em homenagem à terra na canção Noites goianas, em que o compositor, Joaquim Santana, descreve as incomparáveis noites claras, meigas e puras da região. Os tempos áureos de capital, status de que desfrutou até 1937, são revividos todos os anos em Goiás, distante 144 quilômetros de Goiânia. Em obe-diência à lei, o governador do Estado segue para a cidade e ali se estabelece no Palácio dos Arcos, de onde despacha durante os dias 24, 25 e 26 de junho. A deferência se deve ao passado, literalmente, de ouro que Goiás viveu. O rio Vermelho, que corta a cidade, era uma fonte de garimpo, com ouro brotando de suas areias. Dessa época de fartura veio o costume de ornamentar mesas irrepreensíveis, costume revivido hoje principalmente no Natal. O casal Rita e Abner Curado, prefeito de Goiás, é um exemplo acabado da tradição. Com o talento culinário das irmãs Delaide e Joaquina Oliveira, ornamenta a ceia com rosas feitas em coco, lombo trançado e o famoso empadão goiano, recheado com lombo e peito de frango. O presépio mais famoso da cidade é preparado por Silvia Curado. Material utilizado: 50 quilos de açúcar refinado e um mês batendo massa. Mãos calejadas de 30 anos moldando alfenins, o doce goiano que mais tem arte, Silvia está expondo seu trabalho no Shopping Boughanville, em Goiânia. São aproximadamente 150 peças feitas em açúcar puro, desde o menino Deus até uma porquinha amamentando os filhos perto da manjedoura de Jesus. Silvia se recusa a colorir as peças. A explicação é simples. "O alfenin significa a paz de Deus entre os homens. Eu não posso tirar a cor branca desse símbolo." Diz a lenda que o alfenin devolve os sonhos de infância. Nada mais apropriado para dar ainda mais magia ao Natal dos vilaboenses.
O Natal em Santana do Livramento, a 495 quilômetros de Porto Alegre tem sotaque castelhano. A cidade é separada de Rivera, no Uruguai, por apenas uma avenida. A miscigenação das culturas por lá é tão grande que fica difícil definir qual a nação dos habitantes. O mais comum é encontrar o cidadão doble chapa, com dupla nacionalidade, que vota tanto no Brasil quanto no Uruguai. Por isso mesmo, a festa deste ano está sendo chamada de Natal da Integração. Essa união se dá também por conta do Mercosul. A principal atração será um coral de 70 vozes, formado por habitantes dos dois países. O desafio é descobrir quais das vozes são brasileiras e quais, uruguaias. Nem mesmo o maestro Getúlio Vares, 35 anos, nascido em Santana do Livramento e que estudou canto em Montevidéu, consegue contabilizar com precisão quem é gaúcho ou uruguaio. "Calculo que dez sejam do outro lado da fronteira", arrisca.
Mas a festa não fica só por conta da música. Claro, tem de haver muitas iguarias, de ambos os lados. O casal Atilio Duarte Ibargoyen, doble chapa, 43 anos, e Maria Teresa Barbosa Ibargoyen, 42, prepara uma ceia natalina para a família que demonstra as influências uruguaias na mesa brasileira. O prato principal é o cordeiro assado, servido com morangos e enfeitado com ramos de pinheiro. Para acompanhar, purê de maçã, farofa com frutas e chutney de pimentão vermelho. A bebida, é claro, muito vinho. Pode ser o uruguaio Solar del Cuareim ou o brasileiro Almadén, produzido na própria Livramento. A sobremesa dá o toque final castelhano, com alfajores, uma espécie de bolachinha recheada com doce de leite. "O cordeiro é uma influência uruguaia, que ganhou adeptos entre os santanenses, maiores criadores de ovelhas do Brasil", explica Ibargoyen. Além dessa mistura de sotaques, pode-se dizer que Santana do Livramento comemora o Natal duas vezes. Por conta do horário de verão, a meia-noite chega uma hora antes em Santana do Livramento do que em Rivera. O vendedor Rogério Corrêa, 36 anos, filho de pais uruguaios, nasceu no município gaúcho de Rio Grande. Transformou-se num doble chapa e com um ano de idade mudou-se para Rivera. Passou a vida entre duas bandeiras, tanto que mora no lado brasileiro e trabalha num free shop uruguaio. Como não poderia deixar de ser, seu Natal também é dividido. "Passo a primeira ceia com a família de minha mulher, Rosane, do lado brasileiro", conta. "Como peru ou leitão. Depois atravesso a fronteira para desfrutar a segunda ceia, com cordeiro, junto à minha família." Colaborou André Jockyman, de Santana do Livramento LEIA MAIS: Você sabia que... A casa se ilumina Mesa cosmopolita | Abertura | Capa | Índice | Fale com a gente | Arquivo | Assine ISTOÉ | |||||||||||||||||
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