157401 de dezembro de 1999  
Foto: AFP

  E S P A Ç O
Clube dos três
Chineses já podem pôr astronautas em órbita da Terra

NORTON GODOY

A corrida espacial entre os EUA e a ex-URSS - fomentada em parte pela guerra fria dos anos 50 aos 70 - transformou estes dois países nos únicos com capacidade tecnológica de colocar astronautas em órbita do planeta. Esse restrito clube recebeu na semana passada a adesão de mais um poderoso sócio, a China. No sábado 20, os chineses lançaram com sucesso o poderoso foguete Shenzhou (Barco dos Deuses), ainda não tripulado. Sua cápsula, com capacidade para levar até três astronautas, deu 14 voltas na órbita terrestre e desceu sem problemas no Norte da China, no dia seguinte. Enquanto os americanos davam de ombros, fazendo pouco caso da conquista chinesa, as autoridades de Pequim comemoravam não apenas as implicações comerciais do fato, mas também as consequências militares - estariam agora aptos a derrotar as defesas antimísseis atômicos dos EUA e da Rússia.

O Shenzhou é na verdade um modelo mais robusto e melhorado da série Longa Marcha, que há anos é usada para colocar satélites em órbita, inclusive brasileiros. O foguete foi lançado durante a madrugada de sábado do Centro Espacial de Jiuquan, na província noroeste de Gansu. Um jornal oficial chinês, o China Business Times, observou que a nova tecnologia poderia ser usada para mudar a trajetória dos foguetes em vôo, “permitindo que os mísseis (nucleares) façam uma pequena dança, escapando do ataque dos oponentes (mísseis antimísseis). A notícia chegou a ser interpretada nos meios diplomáticos estrangeiros como uma rara confirmação de que o governo chinês está não apenas usando a pressão política, mas buscando também uma saída tecnológica para combater propostas ocidentais para um novo acordo internacional de defesa.

Especialistas independentes acreditam, porém, que o sucesso do Shenzhou irá apenas melhorar a posição da China no competitivo mercado de lançamentos de satélites comerciais. Prova disso seria a longa fila de espera com compromissos para os próximos 18 meses. Os mesmos especia-listas avaliam, por outro lado, que a tecnologia usada agora pelos chineses não difere muito da empregada há tempos pelos russos, país com o qual mantiveram uma temporária parceria estratégica. “É uma tecnologia ainda muito crua e espartana”, disse Joan Johnson-Freese, analista do Centro para Estudos de Segurança do Havaí. “Se você quer colocar um satélite de precisão em órbita, não deve procurar a China.” De todo modo, o sucesso do Shenzhou dá mais argumentos aos chineses no contencioso com os críticos americanos, que acusam Pequim de ter roubado tecnologia espacial dos EUA. “É como se eles dissessem, olha o que podemos fazer sozinhos”, explica Johnson-Freese.

 

 
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