8 de abril de 1998





Golfinho-terapia
Crianças autistas estão conseguindo melhorias espantosas com a ajuda misteriosa dos golfinhos

 

NORTON GODOY

Há séculos que os humanos têm uma relação muito especial com os golfinhos. A generosidade desses inteligentes mamíferos que vivem nas águas quentes dos oceanos é popularmente reconhecida. Histórias de marinheiros salvos por golfinhos datam desde a Civilização Grega. Não é difícil lembrar do sucesso do seriado de tevê Flipper. Hoje, porém, eles estão recebendo uma atenção especial da medicina porque estão ajudando crianças que sofrem de males como a surdez, a síndrome de Down (deficiência mental congênita) e o autismo (desligamento da realidade exterior). O caso mais recente é o de um menino britânico de oito anos de idade, Nikki Brice, que nunca havia pronunciado uma palavra porque nasceu surdo. Semana passada, após três dias de uma terapia especial com golfinhos, começou a falar. A história de Nikki se soma à de centenas de casos de melhoria espantosa obtida com o auxílio desses apaixonantes animais. O sucesso é tão grande que para receber esse tratamento em alguns centros de pesquisa americanos e europeus enfrenta-se uma lista de espera de até sete anos.

Para os médicos e psicólogos do Centro de Terapia Golfinho-Humanos de Miami, ainda não há uma explicação muito clara para esse fenômeno. Uma das teorias em estudo, segundo o doutor David Nathanson, que dirige o centro, é a de que os golfinhos usam sua exclusiva habilidade sonar para identificar desordens neurológicas nas pessoas. É sabido que esses animais têm a capacidade de emitir sons que, ao se refletir em objetos, voltam para eles e são captados pela sua mandíbula inferior, que transmite a informação sonora para o cérebro. Assim, o golfinho consegue formar imagens sonoras baseadas nas diferentes densidades dos materiais atingidos pelo som de seu sonar biológico. Para o neurologista David Cole, que trabalha na equipe de Nathanson, a energia contida nesses sons emitidos pelos golfinhos teria também a capacidade de cura. "É uma energia suficiente para fazer buracos na estrutura molecular de fluidos e tecidos macios", explica. "Então, uma hipótese que começa a tomar forma mostra que esses sons alteram o metabolismo celular do corpo humano, causando a liberação de hormônios e endorfinas, ou mesmo estimulando a produção de células-T (defesa imunológica)."

Para os pais de Josh Schmidt e Kirsty Brown, crianças que sofrem de autismo, poucos dias de terapia com golfinhos trouxeram mais resultados do que anos de tratamento convencional. Kirsty não falava. Agora consegue montar várias sentenças. O psicólogo Nathanson trabalha com golfinhos e crianças há 20 anos. Ele explica que em muitos casos basta dar à criança a chance de nadar e brincar com os golfinhos para que ela apresente melhoras. Em outros, estar com os golfinhos serve como um prêmio para a dedicação da criança nas sessões com um terapeuta infantil. Com o auxílio de novas tecnologias desenvolvidas pelo próprio centro, seu colega Cole conseguiu registrar as mudanças neurológicas que se dão no cérebro das crianças que interagem com os golfinhos. "Nos testes que estamos fazendo agora trabalhamos com pacientes que sofrem de câncer. Em vários deles houve uma espontânea e inexplicável regressão da doença", conta Cole.

Alguns médicos mais céticos acreditam que os efeitos terapêuticos dos golfinhos se devem apenas ao relaxamento proporcionado pela presença lúdica desses animais. O relaxamento, como é sabido, ajuda a estimular o sistema imunológico do organismo humano. Seja como for, o que importa para os cientistas do centro de Miami é que estão conseguindo resultados positivos em 97% das centenas de casos que já trataram. Para Nathanson, as crianças mostram um profundo sentimento de amor pelos golfinhos, pela música e água. "Por isso mesmo, uso o que elas mais amam para aumentar sua atenção, para chegar às áreas de seus cérebros que estão afetadas, o que é o mesmo que dizer que uso a força delas mesmas para alcançar suas fraquezas."






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