23 de outubro de 1997





Trovoada no deserto
Andy Green e o carro Empuxo superam a barreira do som um dia antes da comemoração dos 50 anos do feito nos ares




PETER MOON

O dia 13 de outubro entrou para a história do automobilismo. Foi quando um homem, o ex-piloto da Real Força Aérea Andy Green, segurando o manche do carro supersônico Empuxo, andou mais rápido que o som. As testemunhas do feito ouviram por duas vezes ressoar na paisagem desolada do deserto Black Rock, em Nevada, o estrondo criado pelo deslocamento de ar ao se ultrapassar Mach 1 (de 1.212 km/h na altitude de Nevada e 1.223 km/h ao nível do mar). Binóculos em punho, os espectadores só distinguiam sobre o cascalho marrom a nuvem de poeira erguida por um vulto longilíneo negro de 15 metros, que rasgava o ar como uma agulha fosca antes de abrir os pára-quedas para frear.

As duas corridas foram oficialmente cronometradas como supersônicas. Nas duas investidas, Empuxo comeu poeira às velocidades de 1.222,7 km/h e 1.216,2 km/h, respectivamente. "Apesar do que os jornais diziam, o carro não derrapou nem explodiu", disse Green.




Bredlove e Noble: quebra de braço continua

A corrida para ver quem seria o primeiro a romper a barreira do som em terra começou há quatro anos. Foi quando o inglês Richard Noble, que detinha o recorde mundial de velocidade (1.017 km/h) desde 1983 com o carro Empuxo 2, resolveu projetar um carro supersônico. Na Califórnia, Craig Breedlove, o lendário piloto americano que nos anos 60 quebrou cinco vezes esse recorde, não deixou por menos e foi atrás de dinheiro para construir o Espírito da América 3 e trazer de volta o recorde para os Estados Unidos. Enquanto Noble usou computadores para projetar um novo Empuxo movido por duas turbinas de caça somando 112 mil cavalos, Breedlove colocou rodas numa turbina de 50 mil cavalos e foi pisando cada vez mais fundo. Há um ano, quando estava pronto para desafiar a barreira, derrapou na pista de 21 quilômetros do deserto Black Rock e foi parar dois quilômetros além dela, destruindo o veículo. Isso deu uma vantagem decisiva a Green, que em 23 de setembro martelou 1.150,56 km/h e pulverizou o recorde de Noble. Mas o novo recorde parece ser apenas mais um passo. Depois dessa conquista, como o próprio Richard Noble, 51 anos, disse a ISTOÉ, a próxima meta será "acelerar a mil milhas horárias (1.609 km/h)". Breedlove não desanima e diz que seu objetivo, agora, é superar a marca de Green.




O X1 em 1947 e Yeager no F-15: homem maravilhoso e suas máquinas voadoras

A façanha se deu um dia antes da comemoração dos 50 anos da primeira quebra da barreira do som, em 14 de outubro de 1947. Foi obra do às americano Charles "Chuck" Yeager, que rompeu a barreira a 1.062 km/h, a mais de sete quilômetros de altitude, no jato X1 Bell, sobre o deserto de Mojave, na Califórnia. Ao saber das notícias de Nevada, Yeager, um general reformado da Força Aérea de 74 anos, não vacilou e afirmou que romperia Mach 1 uma última vez. Não deu outra. Na terça-feira 14, embarcou num moderníssimo caça F-15 Eagle, subiu aos céus e um trovão vibrou nas alturas. Só que não chovia. Êta velhinho porreta!






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