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4 de setembro de 1996
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O fim do mito
Pesquisa exclusiva ISTOÉ/Brasmarket mostra que os brasileiros assumem o preconceito racial e derrubam a tese da convivência pacífica entre negros e brancos, apesar da liderança de Celso Pitta na disputa da prefeitura paulistana

FOTO: JUCA RODRIGUES

Pitta: "A população não tem na raça um elemento para a decisão do voto"

CARLA GULLO E RITA MORAES

A maior cidade do País pode ter seu primeiro prefeito negro eleito pelo voto. Celso Pitta, ex-secretário de Finanças de Paulo Maluf, não pára de subir nas pesquisas e causa surpresa aos analistas de plantão. Não pelo seu currículo ilustrado nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas pelo comportamento do eleitorado tradicionalmente conservador. O poder, em princípio, sempre pertenceu aos brancos. O fato de em 442 anos de existência São Paulo nunca ter feito um prefeito negro é um sintoma de uma doença muito mais profunda que se espalha por todo o território nacional. O Brasil sofre de um intenso e silencioso racismo, especialmente contra o negro. O mito da democracia racial começa a cair por terra. No entanto, este é o segundo maior país de descendentes afros do mundo, com mais de 65 milhões de negros e mestiços. Só perde para a Nigéria, com uma população de 112 milhões de habitantes. A ascensão de Pitta não significa a derrubada da barreira do preconceito. Para muitos especialistas se o candidato fosse de uma classe mais baixa, não tivesse estudo e o apadrinhamento de Paulo Maluf, jamais alcançaria índices tão elevados nas pesquisas. "Esses itens superam a rejeição", diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo, autora do livro O racismo na história do Brasil, da editora Ática. Embora o preconceito de cor e classe seja mudo, a população sabe que este País discrimina. "O brasileiro tende a ser politicamente correto e tem dificuldade de assumir o racismo. Mas reconhece o problema, nem que seja no outro", afirma o sociólogo Carlos Hasenbalg, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro.

FOTO: MAX PINTO

A modelo Nuala, discriminada durante um desfile: "Pensei em entrar na Justiça"


Pesquisa exclusiva ISTOÉ/Brasmarket confirma a tese dos analistas. Um levantamento realizado em 11 capitais mostrou que 83% dos entrevistados acreditam que existe segregação em relação aos negros. A discriminação aos pobres também foi citada: 90,3% acham que há preconceito contra as classes mais baixas. Em São Paulo, esses índices são de 84% e 74,8%. Do total de entrevistados, 36% dizem que a discriminação acontece mais no convívio social que no trabalho (18,2%) ou na escola (3,5%). Quase 20% dos brasileiros, contudo, acham que a discriminação contra o negro se dá em todas as áreas. Na capital paulista, os nordestinos são rejeitados. Para 58,9% dos paulistanos é importante tomar medidas que desestimulem a vinda deles para o Sul e o Sudeste e 37,7% acham que essa migração agrava os problemas da cidade. "O nordestino representa o mestiço. Por isso a discriminação se estende a eles", afirma a historiadora Maria Luiza. O preconceito, mesmo que indiretamente, acaba respingando em Luiza Erundina, apesar de ela ser a segunda colocada na disputa em São Paulo. Ela não é negra, mas vem de uma classe mais baixa, é mulher e, não bastasse, nordestina. "Esse último atributo é o pior a ser vencido", acredita a candidata. Erundina furou o cerco em 1988, quando foi eleita prefeita da cidade. Ironicamente, na época, sua vitória foi atribuída a uma reação antimalufista. Hoje, Paulo Maluf refez sua imagem e reconquistou seu eleitorado. "Na rasteira, ele leva milhares de nordestinos mais pobres que tentam imitar a classe média", explica a antropóloga Terezinha Bernardo, da PUC de São Paulo. "A classe média, por sua vez, não tem idéias próprias. Ela se espelha na elite e muitas vezes é ainda mais conservadora", acredita. A senadora negra Benedita da Silva, que disputou a Prefeitura do Rio em 1992 com o prefeito César Maia, não teve a mesma sorte de Pitta. "Faziam gestos de macaco para mim e diziam que eu ia plantar bananeira no Palácio", lembra ela. "Eu era discriminada por ser negra, favelada e mulher".

FOTO: CAROL QUINTANILHA

Erundina: preconceito contra o nordestino é pior que contra a mulher


No Brasil, não há votos racial nem de classe instituídos. Assim, na avaliação do antropólogo africano Kabengele Munanga, do Centro de Estudos Africanos da USP, a ascensão de Pitta não está diretamente ligada ao voto negro. "Só uma pequena parcela vota nele", acredita. Celso Pitta concorda. "Quando botei minha cara como candidato, não a pintei. A população não tem na raça um elemento para a decisão do voto." Kabengele vai mais longe. Afirma que o preconceito está no inconsciente coletivo do brasileiro tanto quanto o ideal da democracia racial. "Para manter o racismo, qualquer sociedade preconceituosa tem de introjetar a imagem negativa na cabeça da vítima", explica. "Ao se sentir inferiorizada, ela não se mobiliza nem reage." O preconceito implícito impede o processo de conscientização coletiva. "No Brasil, apesar de ser crime inafiançável, o racismo é difícil de se detectar por que passa pelo lúdico", conclui Kabengele. De fato, piadas de negros, judeus, japoneses e portugueses é o que não falta. O cantor Tiririca, que teve sua música Veja os cabelos dela censurada sob acusação de racismo, é um exemplo dessas brincadeiras. Ao tentar fazer rir o seu público, criou uma polêmica e vai ter de se explicar na Justiça. "No fundo, ele retratou o que se diz nas ruas. Mas a piada reforça o racismo", diz a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro.

FOTO: OLAVO RUFINO

"O poder econômico e os poderes em geral amenizam o racismo, porque significam a redenção da condição subalterna, historicamente indigna imposta pela escravidão. O poder é branco, e a fatia obtida pelo negro é branqueadora. Já sofri muitas situações de racismo. Me marcou muito uma vez, aos 11 anos, no Colégio Marista, em Salvador, quando um religioso, no meio de uma aula, se referiu a mim: 'Cale a boca, negro boçal!' É a primeira coisa que me vem à cabeça sobre racismo."

Gilberto Gil, 54 anos cantor e compositor



Dissimulações, brincadeiras de mau gosto, anedotas e bombardeamentos de valores brancos encobrem um racismo latente. Exatamente por isso, os próprios negros muitas vezes custam a perceber a discriminação. A modelo paulista Nuala, 27 anos, só se deu conta de que estava sendo discriminada quando ouviu a empresária Érica Sestari dizer com todas as letras: "Minhas roupas, essas negras não vestem." Há um mês Nuala e a colega Magáli, também negra, foram desfilar em Americana, a 133 quilômetros de São Paulo, mas Érica quase as impediu de desfilar. "Fiquei acabada. Uma semana depois, estava com herpes no corpo todo", conta Nuala. "Pensei em entrar na Justiça, mas achei que iria me aborrecer ainda mais. Essa mulher foi horrível, mas verbalizou o que muita gente pensa."

Se o preconceito é forte num mundo glamouroso como o das passarelas, no dia-a-dia ele se torna ainda mais cruel. O consultor de empresas Milton Salles, 53 anos, aposentado desde 1992, sabe bem o que é isso. Toda vez que ia ao banco receber sua aposentadoria, era parado pelo segurança que lhe pedia os documentos. Curiosamente, entre todos os outros, era o único a sofrer o constrangimento. "Achava que ele fazia isso por que eu era jovem demais para estar na fila dos aposentados", conta Salles. Mas a situação piorou. "Começaram a examinar minha valise e me paravam de maneira ostensiva." Um dia, Salles resolveu esclarecer a situação. Perguntou ao guarda se ele sabia que aquilo era discriminação. A resposta afirmativa foi a gota d'água. "Entrei com processo na delegacia de crimes raciais e foi instaurado inquérito."

FOTO: STEIN/PAPA LUZ

Cleni e Ronaldo, pais de Luciano: tido como ladrão de bicicleta, o rapaz morreu com a nota fiscal no bolso


O comportamento do vigilante parte de um princípio não admitido mas bastante comum no meio policial. O negro é mais suspeito do que o branco. O professor Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, analisou 500 processos criminais julgados em 1990 em São Paulo e concluiu que na Justiça a cor tende a ser um poderoso instrumento de discriminação. Segundo o estudo, os réus negros são mais perseguidos pela polícia. Entre eles, os presos em flagrante são 58%. Para os brancos, esse índice cai para 46%. Os negros têm ainda mais obstáculos de acesso à Justiça criminal e maior dificuldade de usufruir do direito de defesa. Dos brancos que contratam advogado, 60% são absolvidos. Entre os negros, só 27% conseguem sucesso. "Os brancos exploram mais os benefícios oferecidos pela Justiça", diz Adorno.

A violência urbana é outro débito que cai na conta dos negros. No entanto, nem sempre é ele o principal personagem desta cena. O censo do sistema carcerário do Estado de São Paulo de 1995, por exemplo, mostra que do total de presos, 55% são brancos e 40% são negros ou mulatos. Mas em todo o País eles são vítimas de acusações ou perseguições, mesmo sem motivos. Foi o que aconteceu com o digitador gaúcho Luciano Soares Ribeiro, de 19 anos. No dia 17 de junho, ele passeava de bicicleta no município de Canoas, próximo a Porto Alegre, quando foi atropelado por Rogério Ferreira Pansera, que dirigia um BMW. Pansera não só deixou de socorrer o rapaz como justificou o ato alegando ter atropelado um negro que conduzia uma bicicleta roubada. Socorrido por duas pessoas que passavam no local, Ribeiro foi levado para o Hospital Nossa Senhora das Graças, em Canoas. Ao chegar ao hospital quatro horas depois do acidente, a mãe do rapaz, Cleni Soares Ribeiro, soube pelo neurologista Antônio Carlos Marrone que nada tinha sido feito porque havia suspeita de se tratar de um marginal. Não se sabia quem iria pagar a conta. Dois dias depois, Ribeiro morreu vítima de traumatismo craniano. "Perdi um filho atropelado por um delinquente de trânsito racista", diz o pai do rapaz, o químico Ronaldo Ribeiro. Outro absurdo da história é que, acostumados a discriminações, os pais sempre aconselharam o rapaz a andar com a nota fiscal da bicicleta no bolso. Quando foi atropelado, ele tinha os documentos e a nota fiscal. Se fosse examinado, poderia estar vivo. Tanto o hospital quanto o motorista que matou Ribeiro continuam a exercer suas atividades.

FOTO: JUCA RODRIGUES

O aposentado Milton Salles: revistado na entrada do banco por causa da cor


O motorista pode ser processado, mas dificilmente irá para a cadeia por ser racista. Apesar de existir uma lei de 1951, a chamada Lei Afonso Arinos, que considera a prática racista uma contravenção e a Constituição de 1988 ter transformado racismo num crime inafiançável, nunca houve um caso dessa natureza julgado que levasse seu réu para a cadeia. Nem mesmo a criação em 1993 da Delegacia Especializada de Crimes Raciais, pelo ex-governador de São Paulo, Luiz Antonio Fleury Filho, incentivou a punição do racismo. A delegacia contabiliza muitas queixas que viram apenas crimes de injúria e poucos de racismo. Isso porque, em geral, não há testemunhas e provas reais de discriminação. Este ano, foi criada no município de São Paulo uma legislação ainda mais específica que tenta inibir o preconceito nos elevadores. Pela lei, o elevador de serviço só se diferencia do social porque nele se transportam cargas. Logo, os empregados domésticos não podem ser forçados a andar no elevador de serviço.

Na prática, isso não ocorre. Nos luxuosos edifícios de São Paulo a lei coloca em polvorosa os condôminos que não vêem com bons olhos a divisão de espaço tão reduzido entre patrões e empregados. Pior. Há ainda brancos que usam o elevador de serviço e discriminam os negros que transitam por ele. A empregada doméstica negra Alzeni Teodoro dos Anjos, 35 anos, sentiu isso na pele. "Eu estava descendo pelo elevador de serviço, com mais duas amigas, ambas mulatas", conta. "Uma senhora abriu a porta, nos olhou como se fôssemos bichos e não entrou. Esperamos embaixo para ver se ela desceria em outro elevador e foi o que aconteceu." Risonha e alegre, Alzeni tenta não se deprimir com fatos como este, mas diz que vencer a barreira da cor não é uma tarefa fácil. "Abrir crediário é difícil e já fui barrada em empregos por ser negra."

FOTO: LUCIANA DE FRANCESCO

"No Brasil existe racismo não só em relação aos negros, mas aos japoneses e índios. O que considero mais urgente é a questão social, para que todos os pobres possam ter acesso ao bolo, do qual falava Delfim Netto, e até hoje ninguém viu, nem mesmo os louros que migraram do Sul para a Amazônia. Muitos descendentes de escravos, entre os quais eu me incluo, só ascendem para confirmar a exceção da raça."
Chico César, 32 anos, cantor e compositor



Alzeni não é a única. O negro tem dificuldade de ascender socialmente. Quando isso acontece, em geral é por meio dos esportes ou da música. As barreiras começam na escola. Como historicamente ele vem de uma classe pobre, estuda em colégios de qualidade duvidosa. Sem contar os altos índices de repetência e evasão escolar. Com isso, fica difícil entrar numa faculdade de melhor nível. Quando conseguem estudar, encontram dificuldades no mercado de trabalho. Resta ocupar espaços desprezados pelo branco. A historiadora Selma dos Santos Rofino, de São Paulo, mostrou em sua tese de mestrado que os negros passaram a ocupar o magistério depois que a classe média branca abandonou esse segmento em busca de melhores salários. Selma estudou a vida de professores em cinco décadas diferentes - de 1950 a 1990 - e concluiu que essa profissão significa uma ascensão social importante entre os negros. "A família se orgulha de ter um professor. Não importa que ele ganhe um salário miserável em escolas públicas", conta ela. "Com esse título, ele deixa de ser tachado de ignorante." A historiadora resolveu estudar esse tema baseada em sua própria história. Mulata, vinda de família humilde, esforçou-se ao máximo para cursar história na USP. "É uma vitória que poucos alcançam."

Por conta disso, os movimentos negros hoje lutam por transformar o discurso em medidas práticas para tornar realidade a cidadania do negro, renegada desde a escravidão. Desde o início do século, os grupos tentam se organizar. Em 1931 foi fundada a Frente Negra Brasileira, que chegou até a se transformar em partido político em 1936. Teve vida curta: acabou, com o golpe do Estado Novo, em 1938. Depois disso, houve outras tentativas de organização. Mas só em 1978, com a criação do Movimento Negro Unificado, a mobilização tornou-se mais expressiva. No ano passado, com a comemoração dos 300 anos da morte do líder negro Zumbi, o governo do sociólogo Fernando Henrique, que tem o negro Pelé na pasta dos Esportes, resolveu tomar uma atitude mais ampla. Criou o Grupo de Trabalho Interministerial para a Valorização da População Negra. Subordinada ao Ministério da Justiça, a equipe está sob a coordenação do negro Hélio Santos, professor titular da cadeira de Economia da PUC de Campinas. "O grupo tem como objetivo formular políticas para quebrar o círculo vicioso que impede a mobilidade social do negro", diz o professor. Entre as metas, está a criação do chamado sistema de cotas para facilitar a entrada do negro nas universidades públicas. Isso não significa que qualquer um poderá frequentar as aulas. A idéia é inclusive oferecer cursos preparatórios gratuitos para a entrada na Universidade. Outro objetivo é procurar convencer autores e professores a evitar a desvalorização do negro nos livros didáticos.

Talvez a meta mais sutil e mais difícil seja reverter a baixa estima que o negro carrega desde a abolição. Em 1888, a Lei Áurea jogou nas ruas um contingente pobre e sem nenhuma instrução - um incapaz na visão da sociedade e na sua própria. "Imagine o day after de um escravo. Isto é, como ele se sentiu um dia depois da lei que o tornava livre", sugere o professor. Essa incapacidade foi e continua sendo reforçada pela imposição dos valores brancos. "Na televisão, por exemplo, existem poucas propagandas ou programas com negros", diz Santos. O padrão de beleza imposto é o do branco. O negro não vê referências positivas em relação à sua raça. Tudo isso contribui para aumentar o sentimento de inferioridade, que começa ainda na infância. "A criança negra chega à pré-escola com sua auto-estima deturpada. Na falta de um ego negro, ela adota um branco."

Por isso, jovens negros e mestiços tendem a buscar o chamado "branqueamento". Uma das maneiras é se casar com brancos. Outro modo é negar sua ascendência e sua cultura. "Se este é um país onde quase a metade da população é negra, por que não há uma reação em massa, a tomada do poder e uma radicalização para mudar todo esse quadro?", pergunta Santos. Ele mesmo responde. "O negro não se sente capaz de governar o País." Talvez candidaturas como a de Pitta e a de Benedita da Silva marquem o início não de uma revolução, mas de um processo de amadurecimento. O dia em que a presença desses negros na sociedade deixar de ser citada como exemplo, aí sim o racismo no Brasil estará erradicado.

Colaboraram: André Jockyman, de Porto Alegre, Celina Côrtes e Valéria Propato, do Rio, Sérgio Limolli, de São Paulo


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