157401 de dezembro de 1999  

  T R Á F I C O
Santo do pó oco
Padre é preso com 11,5kg de cocaína debaixo da batina

Daniel Rittner

O padre Georges Youssef Saliba tinha um vasto repertório de desculpas para aplicar o conto do vigário. Aos fiéis da capela São Miguel Arcanjo, em São Paulo onde atuou durante seis meses no ano passado –, costumava dizer que sua mãe estava doente. Tomou dinheiro emprestado dos devotos e embolsou uns trocados até do bispo da região. Não pagou ninguém. “Todo mês ele organizava bingos na comunidade, mas a arrecadação desaparecia”, conta o sacristão José Machado. Na semana passada, os fiéis descobriram que o sacerdote fazia bem mais do que simplesmente se esquecer de pagar seus credores. Ao tentar embarcar para a Holanda no domingo 21, Saliba foi preso com 11,5 quilos de cocaína debaixo da batina. Quando os agentes da Polícia Federal o abordaram no Aeroporto Internacional de São Paulo, ele sussurrou: “Sem escândalos, por favor.”

Saliba garante já ter feito quatro viagens à Europa, ganhando US$ 30 mil em cada. Alegou que usava o dinheiro para ajudar as crianças de uma creche, mas a instituição só existe no papel. A PF desconfia que ele faça parte de uma quadrilha internacional. Tem fortes razões para crer nisso, já que o padre foi detido em 1990, na Austrália, transportando 1,5 quilo de heroína. A suspeita se reforçou com a apreensão de disquetes, agendas e passagens aéreas que estavam com Marília Cássia Teixeira, sua suposta namorada. Ela está grávida de sete meses e nega que o filho seja do sacerdote. No entanto, fotos do casal em viagem a Foz do Iguaçu evidenciam um romance. Nascido no Líbano, Saliba tem 47 anos e chegou ao Brasil em 1980. Pertence à Eparquia Greco-Melquita, ramificação da Igreja Católica que obedece ao papa, mas mantém ritos orientais e celebra missas em grego. Afastado da Igreja por quebrar algumas normas, o padre só voltou a aparecer em 1994, depois de cumprir quatro anos de prisão na Austrália, e recebeu uma segunda chance da Igreja. Estava proibido de celebrar missas, mas descumpriu a regra. A Eparquia Greco-Melquita quer retirar seus direitos de exercer funções sacerdotais e avisa: novo perdão só se for o de Deus.

 

 
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