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A I D S
O mal muda de cara
Falta de informação e preconceito contra camisinha deixam mulheres pobres e grávidas em situação de risco
CELINA CORTÊS
R. tem 19 anos e só conseguiu completar o primeiro grau. Apesar de não ter muita instrução, sempre soube que uma das formas mais fáceis de contaminação do vírus HIV se dá através do ato sexual. Ainda assim, jamais usou um preservativo. Alega que seus parceiros nunca quiseram. Há um ano e quatro meses conheceu um homem de meia-idade e passou a viver com ele. Engravidou e ao fazer o exame pré-natal descobriu que era soropositiva. “Fiquei desesperada, pensando que ia ficar pele e osso e sem cabelo”, diz, hoje no oitavo mês de gestação e sem apresentar sinais de doença. R. frequenta o Programa de Assistência Integral à Gestante HIV Positiva, no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, no Fundão, zona norte do Rio. Mais calma, ela agora entende que o diagnóstico não era um atestado de morte. O teste de seu companheiro deu negativo, mas ele continua se recusando a usar camisinha. R. nem desconfia quem a contagiou. Espera, ansiosa, o resultado do exame feito em sua primeira filha, de três anos. Quanto ao bebê, o teste será aplicado após o nascimento. A dramática situação de R. é mais comum do que se imagina. Reflete uma tendência que os especialistas já não chamam de grupo ou comportamento de risco e sim situação de risco. Este é o perfil que se pode traçar da evolução da epidemia neste fim de milênio e que reúne alguns fatores reincidentes: a doença se multiplica entre mulheres de baixa renda, com parceiros fixos ou não, em idade reprodutiva e sem sintomas. Essa é uma das principais discussões em pauta nesta quarta-feira 1º, no Dia Mundial de Luta Contra a Aids. Não há números precisos, mas a médica Susie Andries Nogueira, 48 anos, especialista em doenças infecciosas e que trabalha no Fundão, calcula que 1% das 100 mil gestantes atendidas por ano pela rede pública do Rio está contaminado. “Deste porcentual, só um terço está identificado”, esclarece. Mesmo orientadas, antes de se consultarem, 5% das mulheres se recusam a fazer o teste. Se o resultado é positivo, ainda é possível evitar que o vírus passe para o bebê. Elas passam a ser tratadas com AZT a partir do quarto mês de gestação. Não poderão amamentar a criança, que começa a tomar o xarope de AZT a cada seis horas. O índice de contaminação nos países em desenvolvimento é de 23%. A média, no Brasil, é de 8%, e no Fundão esse número cai a níveis de Primeiro Mundo, 4,3%. Sem proteção - A explicação para esse fenômeno é simples. Como a epidemia começou atingindo homossexuais e usuários de drogas injetáveis, esse universo de mulheres se julgava seguro e não se protegeu. Não é novidade que a contaminação entre as mulheres vem crescendo em progressão geométrica. Já em 1989, pesquisadores que participaram do Congresso Internacional sobre Aids, em Montreal, apontavam que a doen-ça caminhava rapidamente nesta direção. No Brasil, a proporção da incidência entre homens e mulheres era de 17 por 1 em 1983. Hoje, está em 2 por 1. A novidade é que as infectadas sejam sobretudo mulheres de baixa renda. Isso se dá por uma série de fatores, entre eles a falta de informação e a dificuldade de pagar pelo preservativo. Em geral, a responsabilidade da prevenção acaba recaindo sobre a mulher. A maioria vive numa cultura machista, onde não tem o poder de convencer seus maridos a usar camisinha. B., nasceu no Rio Grande do Norte e tem 24 anos. Veio para o Rio há quatro anos trabalhar como empregada doméstica. Arranjou um namorado e estranhou quando viu um monte de remédios na casa dele. “Desconfiei, mas ele me disse que a mãe tinha um tumor na cabeça.” No início da relação, B. propôs o uso da camisinha. Ele não quis. O namoro durou três meses. Mas sua inquietação começou quando sua farta cabeleira crespa começou a cair. B. tomou coragem e fez o teste. “Quando recebi o resultado, me senti como se não tivesse chão para pisar”, recorda-se. Contou a seus patrões e logo começou a sofrer toda a sorte de discriminações. Trocou de emprego e encontrou apoio em sua nova casa. B. está grávida de sete meses e o atual companheiro, pai da criança, ainda não fez o exame. Camisinha - O diagnóstico dessas mulheres tem sido facilitado pelo teste pré-natal. Nesse caso, o teste para HIV não é obrigatório, mas é recomendado. Ser mulher, grávida, e de baixa renda, constitui hoje a principal situação de risco, porque, para começar, significa que ela não usou preservativo. Para a dra. Susie Nogueira, a pauperização da doença é cada vez mais nítida. “Hoje, 70% das gestantes que chegam aqui só têm o primeiro grau”, informa. Entre suas pacientes infectadas, 94% adquiriram o vírus em relações heterossexuais. “A situação de risco é transar sem camisinha”, resume. O coordenador do programa Pela Vidda, o psicólogo Alexandre do Vale, observa que a pauperização da doença não é uma exclusividade brasileira. Ocorre em locais onde há populações periféricas, como no Sudeste da Ásia e a região abaixo do deserto do Saara, na África. “Além de não ter acesso aos serviços, essas mulheres não têm dinheiro para comprar o preservativo e estão sujeitas a uma cultura onde há muito pouco a negociar”, avalia. A negociação do uso da camisinha, portanto, é uma questão crucial. O que vem gerando muita controvérsia entre os profissionais de saúde são as campanhas oficiais em defesa do preservativo. A grande questão que se levanta é: de que adiantam campanhas que não levam em consideração tantos meandros psicológicos, deixando toda a responsabilidade nas costas de uma mulher que não tem nenhum poder de convencimento sobre seus parceiros? Esse é um dos aspectos abordados pela assistente social Janete Luzia Leite, 36 anos, com mestrado e doutorado sobre Aids e voluntária do Hospital Gafrée e Guinle, no Rio. M., vendedora paraense de 33 anos, é mãe de um filho de dois anos, soropositivo como ela. O destino dessa crian-ça é uma incógnita, apesar de toda a sua dedicação. Ela veio para o Rio há 14 anos, acompanhando a irmã mais velha. Teve alguns namorados, um deles durante um ano, até que se casou, há quatro anos. Engravidou em janeiro de 1997. Antes disso, soube que aquele antigo namorado tinha adoecido e seu exame dera positivo. Ela soube que estava contaminada já no sétimo mês de gravidez. “A primeira sensação é de que a gente vai morrer no dia seguinte. Depois, vem a certeza de que vai sofrer muito”, conta com os olhos cheios d’água. O mais duro, porém, foi quando o bebê nasceu. “Tenho um filho soropositivo por negligência médica. Fiquei oito horas esperando pelo anestesista na Maternidade Escola, em Laranjeiras”, esconde o rosto, aos prantos. Uma das recomendações médicas para grávidas portadoras de HIV é evitar que o trabalho de parto, depois de a bolsa se romper espontaneamente, ultrapasse quatro horas. Esse é o tempo máximo para que a criança fique exposta às secreções da mãe. A partir disso, corre mais risco de ser contaminada. “Já vivi o suficiente, mas ele não tem culpa de nada”, desespera-se. A índia pataxó N., 30 anos, chegou ao Rio em 1986. “Fui casada durante quase cinco anos. Me separei grávida em 1996, depois de ele passar 15 dias fora de casa.” N. fez o teste por exigência de seu emprego numa casa lotérica. “Como eu ainda estava fragilizada com a separação e com a gravidez nem deu para sentir o impacto do resultado positivo. Tomei medicamentos e o bebê nasceu soropositivo, mas depois negativou. Eu sempre pensava em Deus, no quanto ele seria generoso se salvasse meu filho. Quando o resultado dele deu negativo, nasci de novo.” Enquanto uma vacina não chega, o único caminho realmente seguro para evitar a contaminação pelo HIVcontinua sendo a prevenção via preservativo. Com o slogan “Pare (em vermelho), pense (em amarelo), só se for de camisinha (verde)”, os agentes comunitários da ONG Centro de Desenvolvimento e Apoio a Programas de Saúde (Cedaps), criada em 1993, tentam cumprir a hercúlea tarefa de convencer os casais de comunidades carentes a praticar sexo seguro. A abordagem não se limita ao discurso de porta em porta ou nos festejos locais. Normalmente vem regada a cerveja, futebol e samba, que são alguns dos elementos mais marcantes dos cinco núcleos onde atuam, entre eles a favela da Mangueira. Para começar, é preciso falar a mesma língua daquelas pessoas. Por isso, o Cedaps seleciona e acompanha agentes de prevenção dentro das próprias comunidades. As equipes usam material educativo acessível, alegre, distribuem camisinhas e conversam muito. Mesmo assim a resistência é permanente. Depois de seis anos de atuação, a ONG comemora alguns resultados. Pesquisas mostram que o conhecimento do sexo seguro é 40% maior nos locais onde os núcleos estão implantados. Essas e outras informações estão sendo organizadas para a criação de um modelo nacio-nal de prevenção à Aids. O presidente da ONG, Daniel Becker, festeja: “É um novo olhar para resolver problemas que parecem insolúveis.” Leia também: Vírus residente
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