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Os
males da nossa alma
Jornada tripla de trabalho, padrões de beleza
inatingíveis e outras cobranças tornam as mulheres
mais vulneráveis a doenças como depressão,
ansiedade e stress
Os poetas costumam afirmar que
não há nada mais misterioso do que a alma feminina.
Um pouco de exagero talvez. Mas é verdade que a alma da mulher
tem meandros às vezes incompreensíveis aos olhos do
mundo e aos seus próprios. É a tristeza que surge
aparentemente sem motivo, é a impaciência que beira
o insuportável às vésperas da menstruação,
é o choro que vem fácil diante de mais uma tarefa
que parece impossível no trabalho. Ainda há quem chame
isso de fragilidade. Pura bobagem. Motivos não faltam para
que a mulher viva nessa montanha-russa emocional. A começar
pelo sobe-e-desce dos hormônios, que a acompanha todo mês,
interferindo nos seus humores. Somadas a essa característica
inexorável, há a pressão pelo desempenho impecável
na empresa, a cobrança pelo corpo perfeito, pela mãe
presente, pela mulher imbatível na cama. Esse redemoinho
de alterações e cobranças torna a mulher mais
vulnerável às chamadas doenças da alma - depressão,
ansiedade, stress, anorexia e bulimia. Estima-se que a incidência
da depressão seja duas vezes maior em mulheres do que em
homens. Um estudo feito pelo instituto de pesquisa americano Roper
Starch Worldwide mostrou que há 20% mais mulheres estressadas
do que homens. E anorexia e bulimia, distúrbios de alimentação
causados pela obsessiva meta de perder peso, predominam entre as
mulheres. Apesar de sombrio, é importante saber que esse
quadro pode mudar. Conhecer melhor esses males é o primeiro
passo.
Stress
Lembrar-se de que até Deus precisou
descansar no sétimo dia é uma dica para quem quer
evitar ou sair do stress, problema caracterizado pelo excesso de
adrenalina, hormônio cuja função é preparar
o organismo para se defender. Quando a quantidade é moderada,
os especialistas chamam de fase de alerta. "Ela acontece quando,
por exemplo, acaba o combustível do carro e você está
sozinha procurando um posto de gasolina. De repente, você
encontra uma pessoa estranha. Automaticamente seus músculos
se preparam para correr", explica a psicóloga Marilda
Lipp, diretora do Centro Psicológico de Controle do Stress.
"O que é prejudicial à saúde é
se esse estado de alerta se prolonga. A pessoa entra na segunda
fase, a de resistência", diz.
Acordar cansado e ter lapsos de memória
imediata são pontos de identificação desse
estágio. Nas mulheres, ocorrem também hipersensibilidade
emotiva, corrimentos e interrupção do fluxo menstrual.
Como tratamento, há a terapia, que ensina a lidar e se adaptar
às situações. Remédios para as doenças
causadas pelo stress também são receitados - antidepressivos,
no caso de depressão, por exemplo. Mas nada disso fará
efeito se não houver mudanças de hábito: deitar
cedo, dançar, praticar esportes, ir ao cinema. Aprender técnicas
de relaxamento e fazer massagens, ioga e tai chi chuan também
são aconselhados.
O QUE É: Estado caracterizado
por excesso de adrenalina (hormônio que prepara o corpo para
se defender). Quando prolongado, pode levar a outras patologias,
como úlceras ou depressão.
CAUSAS: Problemas financeiros,
profissionais, doen-ças, uso de álcool, agitação,
insegurança.
SINTOMAS: Músculos enrijecidos
(normalmente os ombros se elevam), aceleração dos
batimentos cardíacos, insônia, falta de apetite, irritabilidade.
GRUPOS DE RISCO: Pessoas muito
competitivas, perfeccionistas, viciadas em trabalho, com tendência
ao isolamento, quem não sabe dizer não, quem tem contato
direto com o público ou grande responsabilidade e pouca autonomia
para decidir.
TRATAMENTOS: Psicoterapia,
massagens, técnicas de relaxamento e remédios quando
necessário.
Anorexia e bulimia
Controlar
a alimentação para não ganhar peso é
saudável, mas ficar abaixo do peso recomendado para altura
e idade e ainda por cima preocupada em não ganhar um grama
é doença. Esse é o problema de muitas jovens
e adolescentes que sofrem dos transtornos alimentares (bulimia e
anorexia). As vítimas da bulimia normalmente têm de
20 a 30 anos. Primeiro, elas comem muito de uma vez só e
depois provocam vômitos ou se exercitam até a exaustão
para emagrecer. O problema atinge nove mulheres para cada homem
e cerca de 4% da população feminina. Já a anorexia
pode começar como uma inocente dieta e terminar em completa
ausência de apetite. A doença afeta de 0,5% a 1% da
população e 95% dos pacientes são adolescentes.
"Um dos fatores que levam a mulher a ser a principal vítima
desses transtornos está relacionado à criminosa cultura
das dietas e o conceito de que apenas as magras são belas
e bem-sucedidas", afirma Táki Cordás, coordenador
geral do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São
Paulo (Ambulim). Não existe prevenção para
esses transtornos e o ideal é que as famílias prestem
atenção ao comportamento das jovens. Segundo Cordás,
cerca de 60% das pacientes de bulimia se curam. No caso da anorexia,
os índices de recuperação são menos
otimistas: cerca de um terço se cura, um terço melhora
e um terço torna-se doente crônico.
BULIMIA:
O QUE É: Depois de ingerir muita comida, a mulher
provoca vômitos.
SINTOMAS: Dor de estômago, cansaço, desmaios,
náuseas, diarréia, irregularidade menstrual, depressão
(é importante lembrar que os episódios devem acontecer
duas vezes por semana durante três meses seguidos).
ANOREXIA:
O QUE É: A jovem se nega a manter o peso ideal para
sua idade e altura e usa recursos para emagrecer cada vez mais.
SINTOMAS: Pele seca, queda de cabelo, olhos fundos, pressão
baixa, depressão, irritabilidade, obsessão por exercícios
físicos, perda excessiva de peso em períodos curtos.
CAUSAS DOS DOIS DISTÚRBIOS: Obsessão em se
enquadrar dentro do padrão de beleza, predisposição
genética e psicológica e influência familiar.
GRUPOS DE RISCO: Adolescentes de 12 a 20 anos (anorexia),
jovens de 20 a 30 anos (bulimia), jóqueis, estudantes de
Nutrição e de Educação Física,
atletas, bailarinas, modelos, quem já sofreu transtornos
alimentares.
TRATAMENTO PARA OS DOIS DISTÚRBIOS: Deve ser feito
por equipe multidisciplinar (psicólogo, nutricionista, terapeuta
ocupacional, clínico geral). Não há medicação
específica para anorexia. No caso da bulimia, antidepressivos
ajudam. Paciente e família devem fazer terapia.
Depressão
É
natural ficar triste com a morte de um parente querido. Mas isso
não deve impedir que a vida continue, certo? Nem sempre.
Em alguns casos, a pessoa não consegue sair do estado de
tristeza. "A vida perde a graça e o deprimido se isola",
resume o neuropsiquiatra Rubens Pitliuk, de São Paulo. O
tratamento muitas vezes requer medicação, que dependerá
do tipo de depressão, da personalidade e do histórico
familiar. Segundo Pitliuk, o importante é levar o tratamento
até o fim para evitar recaída. Quando ela acontece,
a chance de apresentar nova crise é de 70%.
O QUE É: Estado melancólico
que dura, no mínimo, duas semanas e pode se estender por
muitos anos.
CAUSAS: Desequilíbrio na quantidade de substâncias
que fazem a comunicação entre os neurônios,
em especial a serotonina e a noradrenalina, predisposição
genética ou de personalidade, incapacidade de lidar com situações
difíceis, traumáticas ou frustrantes e parto.
SINTOMAS: Incapacidade de sentir alegria, desânimo,
apatia, dificuldade de concentração, perda do apetite
sexual, movimentos lentos ao falar e andar, dificuldade de tomar
decisões, pensamento recorrente sobre morte e tentativas
de suicídio, distúrbios do so-no, interpretação
negativa da realidade.
GRUPOS DE RISCO: Mulheres de 30 a 50 anos, filhos de mães
(10% de chance) e pais depressivos (30% de risco), perfeccionistas,
usuários de drogas para emagrecer, anoréxicas, portadores
de transtorno obsessivo compulsivo, síndrome do pânico
ou timidez.
TRATAMENTO: Antidepressivos e terapia
DEPRESSÃO PÓS-PARTO:
Depois do nascimento do bebê, muitas mulheres sofrem do blues
puerperal, uma tristeza profunda que afeta entre 50% e 80% das mulheres
entre o terceiro e o décimo dia pós-parto. Os principais
sintomas são: tristeza, explosões de choro sem motivo,
sensação de incapacidade de cuidar do bebê,
sentimento de culpa. Em geral, desaparece naturalmente. Cerca de
15% das mulheres, no entanto, sofrem de depressão pós-parto.
Elas perdem o interesse e o prazer de viver, têm alteração
do sono e de apetite e muitas vezes rejeitam o bebê. Se os
sintomas durarem mais de duas semanas, é importante procurar
ajuda, segundo a psiquiatra Márcia Britto, do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
O tratamento é feito com terapia e medicamentos.
Ansiedade
A
ansiedade pode ser doença quando a preocupação
é desproporcional aos fatos, incontrolável e vem acompanhada
de sintomas físicos como taquicardia, insônia, sudorese,
boca seca e náusea. Entre os distúrbios graves de
ansiedade, estão: transtorno de pânico e o transtorno
obsessivo compulsivo (TOC). De acordo com Márcio Bernik,
coordenador do Ambulatório de Ansie-dade do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo,
as pessoas cujo perfil se enquadra nos grupos de risco devem ficar
bastante atentas aos principais sinais do problema. As formas de
tratamento variam. Geralmente são usados antidepressivos,
tranquilizantes e psicoterapia. "A medicação
é indicada até o de-saparecimento dos sintomas, com
manutenção por mais de um ano", explica. Após
a suspensão dos remédios, 80% dos pacientes que sofrem
de transtorno de pânico podem voltar a apresentar os sintomas.
TRANSTORNO DE PÂNICO:
O QUE É: Caracterizado por crises de pânico
que se repetem de maneira inesperada, com sensação
de mal-estar e perigo ou de morte iminente.
SINTOMAS: Falta de ar, tontura, mãos geladas, taquicardia,
formigamento. Os sintomas duram alguns minutos e a crise passa em
até 40 minutos. A maior parte das vítimas são
mulheres dos 22 aos 44 anos.
CAUSAS: As crises podem ser desencadeadas pelo uso de estimulantes
(cocaína, remédios para emagrecer), variações
hormonais da fase pré-menstrual e stress.
GRUPOS DE RISCO: Estressadas, mulheres a partir da adolescência
até os 35 anos (principalmente no pré-menstrual e
pós-parto), hereditariedade e dependentes de álcool.
TRATAMENTO: Antidepressivos e terapia comportamental.
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