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O Brasileiro do Século

1) Juscelino Kubitschek
21,1% dos votos

Símbolo de uma era de democracia e prosperidade, JK foi o presidente que desenvolveu a indústria automobilística, multiplicou por 15 a produção nacional de petróleo, implantou as hidrelétricas de Furnas e de Três Marias e construiu Brasília"

Três homens afoitos abriram espaço entre a multidão que cercava a comitiva do candidato a presidente: "Há um médico entre os senhores? Fomos informados de que um dos políticos que passariam aqui hoje é doutor." Mal sabiam que ele era o ex-governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, em campanha pelo sertão nordestino. Uma mulher grávida de nove meses ia dar à luz em instantes. Os assessores alertaram para o risco de um sequestro. "Isso é bobagem", protestou JK, montando no cavalo e partindo mata adentro, acompanhado dos três desconhecidos. Ao final do caminho de terra, rapidamente ele tirou o paletó, arregaçou as mangas e colocou água para ferver. Pegou alguns panos e deu início ao trabalho de parto. Os gritos de dor da moça logo deram lugar ao choro do recém-nascido. O cordão umbilical foi rompido com uma tesoura velha desinfetada com cachaça. O pai não se continha em lágrimas. Aproximou-se do médico e quis saber quanto lhe devia. JK espiou os cantos da casa, encontrou um pedaço de papel e escreveu seu nome. "Você não me deve absolutamente nada. Mas, na eleição, não se esqueça de mim", despediu-se, sorridente. Três milhões de votos conduziram JK à Presidência da República. O País nunca viveu momento de tanta euforia quanto o período em que ele governou, entre fevereiro de 1956 e janeiro de 1961. No futebol, conquistaríamos o primeiro título mundial em 1958. A bossa nova daria status internacional à nossa música popular. Éder Jofre nocauteava os gigantes dos ringues e a tenista Maria Esther Bueno fazia bonito nas quadras de Wimbledon. O otimismo de JK jogava o País na trilha do desenvolvimento. A meta-síntese de um audacioso plano que prometia fazer o Brasil crescer 50 anos em cinco era a construção de uma nova capital federal.

Uma primeira-dama atuante

Ao chegar em casa após mais um dia clinicando, o médico Juscelino Kubitschek contou à esposa que recebera um convite para entrar na política. Dona Sarah passou a noite inteira chorando. Quando amanheceu, porém, ela enxugou as lágrimas e incentivou o marido a aceitar a chefia de gabinete do governo de Minas Gerais. Pensando bem, a política não era novidade para aquela moça de tradicional família mineira (era filha de deputado federal e prima de Francisco Negrão de Lima, que depois viria a ser governador da Guanabara). Sarah Gomes de Lemos foi seduzida por JK num baile e casou-se com ele em 1931. Com personalidade própria, fundou a Organização das Pioneiras Sociais, entidade que abriu escolas e creches em Minas Gerais.
Quando JK se tornou presidente, o projeto ganhou dimensão nacional e dona Sarah idealizou hospitais especia-lizados no Rio de Janeiro e em Brasília. Com a morte de Juscelino, ela lançou uma campanha para a construção do Memorial JK, em 1981. O projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer incluía um monumento que causou rebuliço. Os militares queriam vetá-lo por achar que lembrava uma foice, "símbolo do comunismo". Dona Sarah não deu o braço a torcer. Inaugurou o Memorial - onde repousam os restos mortais de JK - da forma como fora projetado e lá trabalhou diariamente até morrer em 1996, aos 87 anos. "Ela nunca se contentou com o papel de primeira-dama. Imagine uma mulher que, nos anos 50, se preocupava em construir um hospital para combater o câncer no útero", orgulha-se a filha Maria Estela.

Pedra fundamental Durante quase quatro anos, caminhões rasgaram o cerrado transportando madeira e equipamentos para a cidade que se erguia. Pelo menos uma vez por semana, o próprio JK deixava o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, para inspecionar os trabalhos. "Era um mestre-de-obras incansável percorrendo os canteiros, nos cumprimentando e perguntando sobre nossas famílias", disse a ISTOÉ o presidente da Vasp, Wagner Canhedo, que na época comandava frotas com mais de 300 caminhões com destino a Brasília. "Lembro-me do lançamento da pedra fundamental do Hotel Nacional. JK estava lá, de botas, comendo churrasco e tomando cerveja, abrindo plantas e croquis em cima dos capôs. Tratava os peões pelo nome." O andamento das obras não poupou JK de imprevistos. Um dos mais extravagantes, seguramente, ocorreu quando o presidente de Portugal, Craveiro Lopes, visitou a nova capital. Hospedado no Catetinho, alojamento que abrigava a família de JK, Craveiro Lopes confessou, antes de se deitar, ao colega brasileiro: "Só durmo com um penico perto da cama." Altas horas da noite, saíram os assessores de JK no meio do nada à procura do acessório. A marcha para o oeste do País encontrou forte resistência da UDN, principal partido de oposição, o que aumentou o alívio no dia 21 de abril de 1960, quando, enfim, JK inaugurou a nova capital. "Só vi meu pai chorar em duas ocasiões: a morte de familiares e a inauguração de Brasília", conta Maria Estela, filha adotiva de JK.

O pressentimento de que chegava ao mundo o executor de uma grande obra contagiou os moradores das margens do rio Piruruca. Era o dia 12 de setembro de 1902 em Diamantina, no norte de Minas Gerais, e o nascimento do filho do espalhafatoso João César foi motivo de festa entre os vizinhos. Ex-delegado de polícia e caixeiro-viajante, seu João redigiu uma carta para um primo de outra localidade mineira: "Zino, nasceu ontem o futuro presidente do Brasil. O nome dele é Juscelino Kubitschek de Oliveira." Bisneto de um imigrante tcheco, aos dois anos o menino Nonô perdeu o pai, vítima de tuberculose. As primeiras letras ele tomou com a mãe, dona Júlia, heroína que caminhava sete quilômetros todas as manhãs para dar aulas na escola primária do município vizinho. "Mestra Júlia tinha a majestade de uma rainha e a integridade de um juiz: firme, segura, mas muito brava", afirma o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, 83 anos, um de seus alunos - mais tarde, ele seria chefe da Casa Militar de Minas Gerais e subchefe do Gabinete Civil da Presidência de JK.

Trem-hospital
A educação rígida veio dos tempos de seminário em Diamantina. A dura rotina de levantar às cinco horas da manhã, vestir a batina e estudar o dia inteiro acabou aos 15 anos. Ficou a fé inabalável, mas também a certeza da falta de vocação para o sacerdócio. Preferiu seguir para a capital mineira, onde os Correios haviam aberto concurso para telegrafista. Trabalhou durante oito anos numa agência de Belo Horizonte, até terminar a Faculdade de Medicina, em 1927. Ao abrir um consultório e casar-se com Sarah, mulher de família tradicional, já poderia se considerar um vitorioso. Mas aí estourou a Revolução Constitucionalista de 1932. Para conter o avanço dos paulistas, o governo mineiro deslocou tropas estaduais para a região divisória. Capitão-médico da Polícia Militar, o doutor Juscelino usou um vagão de trem como pronto-socorro no front de batalha. No meio do tiroteio, conheceu um delegado de polícia local, Benedito Valadares, que no ano seguinte se tornaria interventor federal no Estado. Impressionado com a dedicação do amigo, Valadares o chamou para trabalhar como chefe de gabinete.
A carreira política teve uma ascensão meteórica. Em 1934, JK se elegeu deputado federal com o apoio maciço dos antigos pacientes. Em 1940, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte. Bastaria ter asfaltado as ruas da periferia e ampliado a rede de esgoto para ganhar a fama de modernizador, mas ele fez questão de construir o complexo da Pampulha. É verdade que suscitou indignação na Igreja Católica ao convidar o comunista Oscar Niemeyer para elaborar o projeto arquitetônico. Para piorar, ainda comprou do marxista Candido Portinari os afrescos que decoram a igreja São Francisco.
Mas, com a popularidade em alta, depois de eleger-se deputado federal, em 1945, tornou-se cinco anos depois governador de Minas Gerais pelo PSD (Partido Social Democrata), que ajudara a fundar. O estilo conciliador já se fazia notar nas pequenas discussões. Apesar de gostar de futebol, mantinha-se afastado das brigas apaixonadas entre torcedores. A bem da verdade, guardava imenso carinho pelo Cruzeiro, clube que batizou seu estádio com o nome de JK. Em contrapartida, era conselheiro do arquiinimigo Atlético Mineiro.

Juscelinista de corpo e alma

Uma legião de fãs cultua até hoje a memória de JK. O admirador mais devotado, com certeza, é o paulista Antoninho Rapassi, 58 anos. Dono de um hotel em Americana (município a 127 quilômetros de São Paulo), Rapassi não oferece apenas comida caseira e um ambiente aconchegante a seus hóspedes. Ex-professor de História, ele se entusiasma ao falar sobre JK e dá verdadeiras aulas aos turistas, relembrando o período em que o País vivia de bem com a vida. Os sinais de admiração são evidentes. Pelos corredores do hotel, fotos contam a trajetória política do ex-presidente. No restaurante, até as xícaras de café e os rótulos das garrafas de vinho reproduzem frases de JK. O primeiro contato de Rapassi com o ídolo ocorreu em 1955, quando o então candidato a presidente discursou numa cidade próxima a Americana. "O comício não me despertou muito", desconversa Antoninho, na época estudante. Mas o programa desenvolvimentista do governo JK ganhou a admiração do rapaz. Serviu até para inspirar as promessas de Antoninho em sua campanha para comandar o grêmio estudantil da escola. "Eu ganhava votos defendendo idéias juscelinistas", orgulha-se.
Em 1960, ele viu JK pela segunda vez. "Depois de um comício, Juscelino saiu percorrendo a cidade de carro. Como não havia segurança, pulei no Cadillac presidencial. Enquanto Juscelino saudava o povo, eu fiquei abraçado à barriga dele. Foi a glória." A partir daí, Antoninho passou a colecionar filmes, livros, jornais e revistas sobre JK. O acervo não parou de crescer. Comemora todo o ano o aniversário de nascimento de JK no dia 12 de setembro. Aproveita para incrementar uma Semana JK em Americana, expondo seu acervo e dando palestras. A paixão é tão avassaladora que, quando estava para nascer seu primeiro filho, Antoninho trocou de emprego e levou a esposa às pressas para Brasília. Ela deu à luz três dias depois. "Tenho orgulho de dizer que o menino é brasiliense, mas não quis batizá-lo como Juscelino. Porque isso seria fanatismo demais", diz Antoninho. Ah, bom.

Pé-de-valsa
"Ele nunca se definiu, mas sempre achei que seu coração pendia mais para o Cruzeiro", entrega o ex-secretário particular Serafim Jardim, atual presidente da Casa de Juscelino em Diamantina. Certo mesmo é que, sem pendores para muitos exercícios físicos, cansava-se só em olhar um grupo de marmanjos correndo atrás da bola. "Seu esporte era a dança. Se estivéssemos num restaurante com música, pedia para o garçom afastar a mesa e exercia o talento de pé-de-valsa", lembra Jardim.
No governo de Minas Gerais, o desenvolvimento do binômio energia e transportes não se resumiu a mera promessa de campanha. JK intensificou a industrialização no Estado, criou a Cemig - empresa de produção e distribuição de energia elétrica - e rasgou as montanhas com três mil quilômetros de novas rodovias. "Feliz é o JK que avoa (sic)", era o slogan nos pára-choques dos caminhões mineiros, em referência à abertura de aeroportos capazes de receber -aviões de pequeno porte. Os caciques pessedistas logo perceberam sua capacidade de transformar eficiência administrativa em votos. JK surgiu como candidato natural à Presidência da República, em outubro de 1955.
Ninguém duvidava, entretanto, que o cargo seria disputado voto a voto. A preocupação com o resultado levou a sogra de JK, dona Luísa, a levantar-se do leito pela última vez. Muito -doente, ela fez questão de depositar seu voto nas urnas. Por isso, recebeu um puxão de orelha de JK, mas respondeu: "Sou sua sogra, não sou? Portanto, não fiz mais do que o meu dever." A vitória foi apertada. JK recebeu 36% dos votos, contra 30% do udenista Juarez Távora e 26% de Adhemar de Barros. A pouca diferença era o argumento perfeito para a UDN tentar impedir a posse. Liderado pelo jornalista Carlos Lacerda, o partido afirmava que JK precisaria ter maioria absoluta para assumir. Foi preciso a intervenção do marechal Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra, para derrubar o presidente interino Carlos Luz, aliado dos golpistas, no dia 11 de novembro - o episódio ficou conhecido como "novembrada".

Índios armados
Quando, enfim, conseguiu tomar posse, em fevereiro de 1956, JK enfrentou um novo foco de resistência. Eram setores reacionários da Aeronáutica que sequestraram aviões e partiram em direção a Jacareacanga, no sul do Pará. Lá, aproximadamente 20 oficiais arregimentaram alguns civis descontentes e um punhado de índios armados com arcos e flechas. A maioria dos militares reprovava a ação, mas se recusava a lutar contra os colegas. A solução para o impasse se deu após 18 dias, com a rendição dos rebeldes. Para mostrar que o País realmente viveria ares de democracia em seu governo, um dos primeiros gestos de JK no Palácio do Catete foi conceder anistia ampla e irrestrita a todos os golpistas.
O fim das intrigas estava longe de significar sossego. Pelo contrário, havia muito a fazer. O presidente frequentemente passava mais de 15 horas por dia trabalhando. O Plano de Metas - dividido em energia, transportes, alimentação, indústrias de base e educação - transformou o País num canteiro de obras. JK ergueu as hidrelétricas de Furnas e Três Marias, implantou a indústria automobilística, construiu 20 mil quilômetros de rodovias e três mil de ferrovias. Também aumentou em 15 vezes a produção de petróleo e desenvolveu a siderurgia, com a cria-ção da Cosipa e da Usiminas. Isso sem falar em Brasília. "Antes de Juscelino importávamos caneta esferográfica; depois, exportávamos automóveis", exalta o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, assessor mais próximo do presidente. Nos anos JK, o País cresceu 7% em média. O preço a pagar foram o aumento no custo de vida - a inflação chegou a 30% ao ano - e o endividamento externo, que os correligionários negam até hoje. "Quando Juscelino assumiu, a dívida externa era de US$ 1,9 bilhão. Ao final do governo, estava em US$ 3,1 bilhões. Não houve crescimento tão grande como se alardeou", afirma Affonso. Em atitudes aparentemente contraditórias, JK ampliou a intervenção estatal na economia, ao mesmo tempo que estimulou como nunca o investimento privado. Abriu as portas ao capital estrangeiro, mas rompeu com o Fundo Monetário Internacional - que pedia contenção de gastos com o programa de desenvolvimento.
No exercício do poder, não perdeu a simplicidade de bom mineiro. A primeira tarefa do dia, por exemplo, era um telefonema à mãe. Fazia uma sesta de 15 a 20 minutos depois do almoço. Fechava as cortinas do Palácio das Laranjeiras, residência oficial na antiga capital, Rio de Janeiro, e vestia o pijama. Acordava revigorado e pronto para encarar o resto do expediente.

Sedução e poder

JK era mulherengo incorrigível. A paixão mais arrebatadora foi a da cario-ca Maria Lúcia Pedroso - um romance clandestino de 18 anos, que durou até a morte do presidente. "Maria Lúcia era linda, apesar da baixa estatura. Loiríssima, era parecida com a atriz Kim Novak", afirma João Pinheiro Neto, autor do livro Juscelino, uma história de amor. Casada com o médico e ex-deputado José Pedroso, Maria Lúcia conheceu JK em 1958, numa festa no Palácio das Laranjeiras. "Posso lhe oferecer um chá amanhã?", perguntou o presidente. Ciumenta, a amante não escondia o desgosto com outros romances paralelos de JK. "Ou você dissolve seu comitê feminino, ou nunca mais vai me ver", ameaçava. Pinheiro Neto diz que JK estava disposto a se casar com Maria Lúcia - que ainda mora no Rio - quando morreu em acidente na Via Dutra.

Hábitos caseiros
Apreciava música caipira. Certa vez, dispensou os secretários e telefonou para a cantora Inezita Barroso. Pensando se tratar de um trote, Inezita bateu o telefone estupidamente. JK teve de queimar saliva para convencê-la de que era ele mesmo. Queria simplesmente uma visita ao Catete para ouvir suas canções ao vivo. Era um estadista que preservava hábitos caseiros e o convívio familiar. "A primeira coisa que fazia quando chegava em casa era perguntar como estavam minhas notas na escola", conta Maria Estela Kubitschek.
Ao deixar o poder, em janeiro de 1961 - sem conseguir eleger seu sucessor, o marechal Lott -, JK elegeu-se senador por Goiás e era apontado como candidato natural a presidente em 1965. As pesquisas chegaram a apontar seu nome com quase 60% de preferência do eleitorado brasileiro. Já havia até material de campanha, com o lema "cinco anos de agricultura para 50 de fartura" quando veio o golpe militar em 31 de março de 1964. Cassado dois meses depois, JK tomaria um avião com destino a Madri. No Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, ovacionado pela multidão, que cantava o Hino Nacional, Juscelino embarcou com dona Sarah e a população se dispersou. A aeronave já tomava velocidade para a decolagem, mas repentinamente parou. Havia um temor generalizado de que fossem prendê-lo. Com os nervos à flor da pele, Sarah passou às mãos do marido uma pequena pistola: "Juscelino, toma isto. Se eles tocarem em você, faça uso da arma." Felizmente, o avião retornou apenas para pegar um passageiro que, por causa do tumulto, não havia conseguido embarcar.
Foram três longos anos de exílio em Lisboa, Nova York e Paris. "É o castigo mais cruel imposto a um homem que só pensava no Brasil, só estudava o Brasil, só viajava pelo Brasil e em torno de si reunia uma equipe só para adorar o Brasil", diria ele mais tarde. Em Portugal, JK recebeu o convite para participar de um movimento de resistência ao regime autoritário. Era organizado por seu antigo desafeto, Carlos Lacerda, e chamava-se Frente Ampla. JK duvidou de que se tratasse de algo sério, mas aceitou almoçar com Lacerda. Para evitar maledicências do udenista, dona Sarah sutilmente colocou uma imagem de Nossa Senhora de Fátima embaixo da poltrona onde sentaria Lacerda. Os ânimos de fato se arrefeceram, mas a Frente Ampla - da qual também fazia parte o ex-presidente João Goulart - não vingou.

Modelo a ser imitado

O charme da bandeira desenvolvimentista ainda seduz os políticos brasileiros. "JK personificou a prosperidade e o sentimento de conciliação nacional. Acima de tudo, era um político que mantinha um astral elevado. Nenhum outro presidente encarnou estas qualidades no mesmo grau", afirma o cientista político Bolivar Lamonier. Entre os que poderiam ser apontados como sucessores de JK, Lamonier cita o presidente Fernando Henrique Cardoso. "FHC é de longe o que mais se assemelha a JK. É naturalmente uma pessoa de bom humor e faz tudo para relaxar a tensão", compara Lamonier, com a ressalva de que hoje o País não está emergindo para uma época de desenvolvimento, como na era JK. "Não é fácil repetir o script."
FHC não é o único a querer tirar uma lasquinha do charme de JK. Em outros tempos, Orestes Quércia e Fernando Collor de Mello também se apresentaram ao eleitorado como herdeiros de JK. Quércia abraçou a imagem de tocador de obra, enquanto Collor quis ser um ícone da modernidade. "Collor não tem o bom humor de JK. Pelo contrário, ele tem um fígado shakespeariano", diz Lamonier. Quem não disfarça a vontade de se assemelhar a Juscelino é o presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB-SP). "Como ele, sou conciliador, não guardo rancor. Sou capaz de fazer sete ou oito reuniões até garantir o consenso", afirma Temer, que conheceu JK no tempo em que era estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.
Em 1960, tinha 18 anos quando sua turma escolheu JK como paraninfo. O presidente não pôde comparecer à formatura, mas, ao fazer uma escala em São Paulo, indo para o Sul, mandou o pessoal se deslocar até o aeroporto de Congonhas. "Aí, entramos no avião e ele fez questão de assinar nossos diplomas. Nunca esqueci seu rosto sorridente", lembra Temer.

Chapéu de palha
Em 1967, JK voltou ao Brasil. Por ocasião do AI-5, passou um mês em prisão domiciliar. Afastado da vida pública e dando palestras para executivos de bancos, comprou uma fazenda em Luziânia (GO) com o único pretexto de poder passar os fins de semana perto de Brasília, onde havia uma "pressão branca" dos militares para que não botasse os pés. Depois de muitos anos, JK não resistiu e se disfarçou com um chapéu de palha. Certa noite, chamou um caminhoneiro e subiu na boléia. Chorou ao ver de longe a capital com as luzes acesas.
"Papai gostava de ensinar os netos a tirar leite de vaca na fazenda", recorda Maria Estela. E estava justamente em Luziânia quando, a 7 de agosto de 1976, os repórteres o procuraram para saber se era mesmo boato a notícia de que ele morrera na Via Dutra. "Estão querendo me matar, mas ainda não conseguiram", comentou com amigos. No dia 22 de agosto de 1976, JK morreu num acidente de carro, exatamente na Via Dutra. O Opala do presidente, guiado pelo motorista Geraldo Ribeiro, seguia de São Paulo para o Rio de Janeiro quando foi atingido por um ônibus, passou para a outra pista e bateu de frente num caminhão carregado de gesso.
Não faltam teses conspiratórias para explicar o que o inquérito policial apontou como simples desastre. Há quem diga que havia explosivos no automóvel. Outros apostam que um tiro disparado por ocupantes de um veículo não-identificado acertou o motorista Geraldo, que perdeu o controle do Opala. "A versão oficial é uma grande montagem", acusa o perito criminal Alberto Carlos de Minas. Em 1996, ele foi um dos responsáveis pela reabertura do caso. As investigações não avançaram e o inquérito, após 20 anos, acabou prescrevendo. No entanto, Alberto Carlos e Serafim Jardim - presidente da Casa de Juscelino em Diamantina - ainda hoje se dizem convictos de que JK foi morto por ordem dos militares no poder.
Os indícios são muitos, de acordo com a tese conspiratória. Em agosto de 1976, o diretor do serviço secreto chileno, Manuel Contreras Sepúlveda, enviou carta ao general João Baptista Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações, dizendo-se preocupado com o possível triunfo do Partido Democrata nas eleições americanas. "Temos conhecimento do reiterado apoio dos democratas a Kubitschek e Letelier." Orlando Letelier, ministro do presidente chileno deposto, Salvador Allende, morreria num atentado em Washington, pouco antes da morte de JK. As fotos dos cadáveres de JK e do motorista simplesmente não foram anexadas ao inquérito. O caixão com o corpo do motorista foi lacrado, sem que se pudesse checar se ele levou um tiro na cabeça, como especulam os juscelinistas. Em 1996, o corpo foi exumado. "Pode ter sido imaginação minha, já que estava eufórico demais. Mas vi um orifício no crânio de Geraldo. Dias depois, os legistas responsáveis pelo laudo avisaram que o crânio se fragmentara, algo incomum com o manuseio de profissionais", afirma o perito Alberto Carlos de Minas. O mistério contribui ainda mais para perpetuar o mito Juscelino Kubitschek.

VOCÊ SABIA?
Quiseram saber o segredo da assombrosa capacidade de JK para se lembrar de nomes. "É simples: você dá um abraço no sujeito e pergunta baixinho como se chama. Aí repete alto: olá, fulano, como vai?"

VOCÊ SABIA?
Quebrou o dedinho do pé ao bater na porta do armário. Usava só sapato sem cadarço - mais fácil de tirar nas reuniões e se livrar da dor crônica.

VOCÊ SABIA?
O avião que o levava sofreu uma pane e o piloto quis pousar em Brasília. Os militares avisaram: "Se JK estiver no bimotor, negamos."

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