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1) Juscelino Kubitschek
21,1%
dos votos
Símbolo
de uma era de democracia e prosperidade, JK foi o presidente que
desenvolveu a indústria automobilística, multiplicou por 15 a produção
nacional de petróleo, implantou as hidrelétricas de Furnas e de
Três Marias e construiu Brasília"
Três
homens afoitos abriram espaço entre a multidão que cercava a comitiva
do candidato a presidente: "Há um médico entre os senhores? Fomos
informados de que um dos políticos que passariam aqui hoje é doutor."
Mal sabiam que ele era o ex-governador de Minas Gerais, Juscelino
Kubitschek, em campanha pelo sertão nordestino. Uma mulher grávida
de nove meses ia dar à luz em instantes. Os assessores alertaram
para o risco de um sequestro. "Isso é bobagem", protestou JK, montando
no cavalo e partindo mata adentro, acompanhado dos três desconhecidos.
Ao final do caminho de terra, rapidamente ele tirou o paletó, arregaçou
as mangas e colocou água para ferver. Pegou alguns panos e deu início
ao trabalho de parto. Os gritos de dor da moça logo deram lugar
ao choro do recém-nascido. O cordão umbilical foi rompido com uma
tesoura velha desinfetada com cachaça. O pai não se continha em
lágrimas. Aproximou-se do médico e quis saber quanto lhe devia.
JK espiou os cantos da casa, encontrou um pedaço de papel e escreveu
seu nome. "Você não me deve absolutamente nada. Mas, na eleição,
não se esqueça de mim", despediu-se, sorridente. Três milhões de
votos conduziram JK à Presidência da República. O País nunca viveu
momento de tanta euforia quanto o período em que ele governou, entre
fevereiro de 1956 e janeiro de 1961. No futebol, conquistaríamos
o primeiro título mundial em 1958. A bossa nova daria status internacional
à nossa música popular. Éder Jofre nocauteava os gigantes dos ringues
e a tenista Maria Esther Bueno fazia bonito nas quadras de Wimbledon.
O otimismo de JK jogava o País na trilha do desenvolvimento. A meta-síntese
de um audacioso plano que prometia fazer o Brasil crescer 50 anos
em cinco era a construção de uma nova capital federal.
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Uma
primeira-dama atuante
Ao chegar em casa após mais um dia clinicando, o médico
Juscelino Kubitschek contou à esposa que recebera um
convite para entrar na política. Dona Sarah passou a
noite inteira chorando. Quando amanheceu, porém, ela
enxugou as lágrimas e incentivou o marido a aceitar
a chefia de gabinete do governo de Minas Gerais. Pensando
bem, a política não era novidade para aquela moça de
tradicional família mineira (era filha de deputado federal
e prima de Francisco Negrão de Lima, que depois viria
a ser governador da Guanabara). Sarah Gomes de Lemos
foi seduzida por JK num baile e casou-se com ele em
1931. Com personalidade própria, fundou a Organização
das Pioneiras Sociais, entidade que abriu escolas e
creches em Minas Gerais.
Quando JK se tornou presidente, o projeto ganhou dimensão
nacional e dona Sarah idealizou hospitais especia-lizados
no Rio de Janeiro e em Brasília. Com a morte de Juscelino,
ela lançou uma campanha para a construção do Memorial
JK, em 1981. O projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer
incluía um monumento que causou rebuliço. Os militares
queriam vetá-lo por achar que lembrava uma foice, "símbolo
do comunismo". Dona Sarah não deu o braço a torcer.
Inaugurou o Memorial - onde repousam os restos mortais
de JK - da forma como fora projetado e lá trabalhou
diariamente até morrer em 1996, aos 87 anos. "Ela nunca
se contentou com o papel de primeira-dama. Imagine uma
mulher que, nos anos 50, se preocupava em construir
um hospital para combater o câncer no útero", orgulha-se
a filha Maria Estela.
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Pedra
fundamental Durante quase quatro anos, caminhões rasgaram o
cerrado transportando madeira e equipamentos para a cidade que se
erguia. Pelo menos uma vez por semana, o próprio JK deixava o Palácio
do Catete, no Rio de Janeiro, para inspecionar os trabalhos. "Era
um mestre-de-obras incansável percorrendo os canteiros, nos cumprimentando
e perguntando sobre nossas famílias", disse a ISTOÉ o presidente
da Vasp, Wagner Canhedo, que na época comandava frotas com mais
de 300 caminhões com destino a Brasília. "Lembro-me do lançamento
da pedra fundamental do Hotel Nacional. JK estava lá, de botas,
comendo churrasco e tomando cerveja, abrindo plantas e croquis em
cima dos capôs. Tratava os peões pelo nome." O andamento das obras
não poupou JK de imprevistos. Um dos mais extravagantes, seguramente,
ocorreu quando o presidente de Portugal, Craveiro Lopes, visitou
a nova capital. Hospedado no Catetinho, alojamento que abrigava
a família de JK, Craveiro Lopes confessou, antes de se deitar, ao
colega brasileiro: "Só durmo com um penico perto da cama." Altas
horas da noite, saíram os assessores de JK no meio do nada à procura
do acessório. A marcha para o oeste do País encontrou forte resistência
da UDN, principal partido de oposição, o que aumentou o alívio no
dia 21 de abril de 1960, quando, enfim, JK inaugurou a nova capital.
"Só vi meu pai chorar em duas ocasiões: a morte de familiares e
a inauguração de Brasília", conta Maria Estela, filha adotiva de
JK.
O
pressentimento de que chegava ao mundo o executor de uma grande
obra contagiou os moradores das margens do rio Piruruca. Era o dia
12 de setembro de 1902 em Diamantina, no norte de Minas Gerais,
e o nascimento do filho do espalhafatoso João César foi motivo de
festa entre os vizinhos. Ex-delegado de polícia e caixeiro-viajante,
seu João redigiu uma carta para um primo de outra localidade mineira:
"Zino, nasceu ontem o futuro presidente do Brasil. O nome dele é
Juscelino Kubitschek de Oliveira." Bisneto de um imigrante tcheco,
aos dois anos o menino Nonô perdeu o pai, vítima de tuberculose.
As primeiras letras ele tomou com a mãe, dona Júlia, heroína que
caminhava sete quilômetros todas as manhãs para dar aulas na escola
primária do município vizinho. "Mestra Júlia tinha a majestade de
uma rainha e a integridade de um juiz: firme, segura, mas muito
brava", afirma o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, 83 anos,
um de seus alunos - mais tarde, ele seria chefe da Casa Militar
de Minas Gerais e subchefe do Gabinete Civil da Presidência de JK.
Trem-hospital
A educação rígida veio dos tempos de seminário em Diamantina. A
dura rotina de levantar às cinco horas da manhã, vestir a batina
e estudar o dia inteiro acabou aos 15 anos. Ficou a fé inabalável,
mas também a certeza da falta de vocação para o sacerdócio. Preferiu
seguir para a capital mineira, onde os Correios haviam aberto concurso
para telegrafista. Trabalhou durante oito anos numa agência de Belo
Horizonte, até terminar a Faculdade de Medicina, em 1927. Ao abrir
um consultório e casar-se com Sarah, mulher de família tradicional,
já poderia se considerar um vitorioso. Mas aí estourou a Revolução
Constitucionalista de 1932. Para conter o avanço dos paulistas,
o governo mineiro deslocou tropas estaduais para a região divisória.
Capitão-médico da Polícia Militar, o doutor Juscelino usou um vagão
de trem como pronto-socorro no front de batalha. No meio do tiroteio,
conheceu um delegado de polícia local, Benedito Valadares, que no
ano seguinte se tornaria interventor federal no Estado. Impressionado
com a dedicação do amigo, Valadares o chamou para trabalhar como
chefe de gabinete.
A
carreira política teve uma ascensão meteórica. Em 1934, JK se elegeu
deputado federal com o apoio maciço dos antigos pacientes. Em 1940,
foi nomeado prefeito de Belo Horizonte. Bastaria ter asfaltado as
ruas da periferia e ampliado a rede de esgoto para ganhar a fama
de modernizador, mas ele fez questão de construir o complexo da
Pampulha. É verdade que suscitou indignação na Igreja Católica ao
convidar o comunista Oscar Niemeyer para elaborar o projeto arquitetônico.
Para piorar, ainda comprou do marxista Candido Portinari os afrescos
que decoram a igreja São Francisco.
Mas, com
a popularidade em alta, depois de eleger-se deputado federal, em 1945,
tornou-se cinco anos depois governador de Minas Gerais pelo PSD (Partido
Social Democrata), que ajudara a fundar. O estilo conciliador já se
fazia notar nas pequenas discussões. Apesar de gostar de futebol,
mantinha-se afastado das brigas apaixonadas entre torcedores. A bem
da verdade, guardava imenso carinho pelo Cruzeiro, clube que batizou
seu estádio com o nome de JK. Em contrapartida, era conselheiro do
arquiinimigo Atlético Mineiro.
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Juscelinista
de corpo e alma
Uma legião de fãs cultua até hoje a memória de JK.
O admirador mais devotado, com certeza, é o paulista
Antoninho Rapassi, 58 anos. Dono de um hotel em Americana
(município a 127 quilômetros de São Paulo), Rapassi
não oferece apenas comida caseira e um ambiente aconchegante
a seus hóspedes. Ex-professor de História, ele se entusiasma
ao falar sobre JK e dá verdadeiras aulas aos turistas,
relembrando o período em que o País vivia de bem com
a vida. Os sinais de admiração são evidentes. Pelos
corredores do hotel, fotos contam a trajetória política
do ex-presidente. No restaurante, até as xícaras de
café e os rótulos das garrafas de vinho reproduzem frases
de JK. O primeiro contato de Rapassi com o ídolo ocorreu
em 1955, quando o então candidato a presidente discursou
numa cidade próxima a Americana. "O comício não me despertou
muito", desconversa Antoninho, na época estudante. Mas
o programa desenvolvimentista do governo JK ganhou a
admiração do rapaz. Serviu até para inspirar as promessas
de Antoninho em sua campanha para comandar o grêmio
estudantil da escola. "Eu ganhava votos defendendo idéias
juscelinistas", orgulha-se.
Em 1960, ele viu JK pela segunda vez. "Depois de um
comício, Juscelino saiu percorrendo a cidade de carro.
Como não havia segurança, pulei no Cadillac presidencial.
Enquanto Juscelino saudava o povo, eu fiquei abraçado
à barriga dele. Foi a glória." A partir daí, Antoninho
passou a colecionar filmes, livros, jornais e revistas
sobre JK. O acervo não parou de crescer. Comemora todo
o ano o aniversário de nascimento de JK no dia 12 de
setembro. Aproveita para incrementar uma Semana JK em
Americana, expondo seu acervo e dando palestras. A paixão
é tão avassaladora que, quando estava para nascer seu
primeiro filho, Antoninho trocou de emprego e levou
a esposa às pressas para Brasília. Ela deu à luz três
dias depois. "Tenho orgulho de dizer que o menino é
brasiliense, mas não quis batizá-lo como Juscelino.
Porque isso seria fanatismo demais", diz Antoninho.
Ah, bom.
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Pé-de-valsa
"Ele nunca se definiu, mas sempre achei que seu coração pendia mais
para o Cruzeiro", entrega o ex-secretário particular Serafim Jardim,
atual presidente da Casa de Juscelino em Diamantina. Certo mesmo
é que, sem pendores para muitos exercícios físicos, cansava-se só
em olhar um grupo de marmanjos correndo atrás da bola. "Seu esporte
era a dança. Se estivéssemos num restaurante com música, pedia para
o garçom afastar a mesa e exercia o talento de pé-de-valsa", lembra
Jardim.
No governo de Minas Gerais, o desenvolvimento do binômio energia
e transportes não se resumiu a mera promessa de campanha. JK intensificou
a industrialização no Estado, criou a Cemig - empresa de produção
e distribuição de energia elétrica - e rasgou as montanhas com três
mil quilômetros de novas rodovias. "Feliz é o JK que avoa (sic)",
era o slogan nos pára-choques dos caminhões mineiros, em referência
à abertura de aeroportos capazes de receber -aviões de pequeno porte.
Os caciques pessedistas logo perceberam sua capacidade de transformar
eficiência administrativa em votos. JK surgiu como candidato natural
à Presidência da República, em outubro de 1955.
Ninguém duvidava, entretanto, que o cargo seria disputado voto a
voto. A preocupação com o resultado levou a sogra de JK, dona Luísa,
a levantar-se do leito pela última vez. Muito -doente, ela fez questão
de depositar seu voto nas urnas. Por isso, recebeu um puxão de orelha
de JK, mas respondeu: "Sou sua sogra, não sou? Portanto, não fiz
mais do que o meu dever." A vitória foi apertada. JK recebeu 36%
dos votos, contra 30% do udenista Juarez Távora e 26% de Adhemar
de Barros. A pouca diferença era o argumento perfeito para a UDN
tentar impedir a posse. Liderado pelo jornalista Carlos Lacerda,
o partido afirmava que JK precisaria ter maioria absoluta para assumir.
Foi preciso a intervenção do marechal Henrique Teixeira Lott, ministro
da Guerra, para derrubar o presidente interino Carlos Luz, aliado
dos golpistas, no dia 11 de novembro - o episódio ficou conhecido
como "novembrada".
Índios
armados
Quando, enfim, conseguiu tomar posse, em fevereiro de 1956, JK enfrentou
um novo foco de resistência. Eram setores reacionários da Aeronáutica
que sequestraram aviões e partiram em direção a Jacareacanga, no
sul do Pará. Lá, aproximadamente 20 oficiais arregimentaram alguns
civis descontentes e um punhado de índios armados com arcos e flechas.
A maioria dos militares reprovava a ação, mas se recusava a lutar
contra os colegas. A solução para o impasse se deu após 18 dias,
com a rendição dos rebeldes. Para mostrar que o País realmente viveria
ares de democracia em seu governo, um dos primeiros gestos de JK
no Palácio do Catete foi conceder anistia ampla e irrestrita a todos
os golpistas.
O fim das intrigas estava longe de significar sossego. Pelo contrário,
havia muito a fazer. O presidente frequentemente passava mais de
15 horas por dia trabalhando. O Plano de Metas - dividido em energia,
transportes, alimentação, indústrias de base e educação - transformou
o País num canteiro de obras. JK ergueu as hidrelétricas de Furnas
e Três Marias, implantou a indústria automobilística, construiu
20 mil quilômetros de rodovias e três mil de ferrovias. Também aumentou
em 15 vezes a produção de petróleo e desenvolveu a siderurgia, com
a cria-ção da Cosipa e da Usiminas. Isso sem falar em Brasília.
"Antes de Juscelino importávamos caneta esferográfica; depois, exportávamos
automóveis", exalta o coronel Affonso Heliodoro dos Santos, assessor
mais próximo do presidente. Nos anos JK, o País cresceu 7% em média.
O preço a pagar foram o aumento no custo de vida - a inflação chegou
a 30% ao ano - e o endividamento externo, que os correligionários
negam até hoje. "Quando Juscelino assumiu, a dívida externa era
de US$ 1,9 bilhão. Ao final do governo, estava em US$ 3,1 bilhões.
Não houve crescimento tão grande como se alardeou", afirma Affonso.
Em atitudes aparentemente contraditórias, JK ampliou a intervenção
estatal na economia, ao mesmo tempo que estimulou como nunca o investimento
privado. Abriu as portas ao capital estrangeiro, mas rompeu com
o Fundo Monetário Internacional - que pedia contenção de gastos
com o programa de desenvolvimento.
No exercício do poder, não perdeu a simplicidade de bom mineiro.
A primeira tarefa do dia, por exemplo, era um telefonema à mãe.
Fazia uma sesta de 15 a 20 minutos depois do almoço. Fechava as
cortinas do Palácio das Laranjeiras, residência oficial na antiga
capital, Rio de Janeiro, e vestia o pijama. Acordava revigorado
e pronto para encarar o resto do expediente.
| Sedução
e poder
JK era mulherengo incorrigível. A paixão mais arrebatadora
foi a da cario-ca Maria Lúcia Pedroso - um romance clandestino
de 18 anos, que durou até a morte do presidente. "Maria
Lúcia era linda, apesar da baixa estatura. Loiríssima,
era parecida com a atriz Kim Novak", afirma João Pinheiro
Neto, autor do livro Juscelino, uma história de amor.
Casada com o médico e ex-deputado José Pedroso, Maria
Lúcia conheceu JK em 1958, numa festa no Palácio das
Laranjeiras. "Posso lhe oferecer um chá amanhã?", perguntou
o presidente. Ciumenta, a amante não escondia o desgosto
com outros romances paralelos de JK. "Ou você dissolve
seu comitê feminino, ou nunca mais vai me ver", ameaçava.
Pinheiro Neto diz que JK estava disposto a se casar
com Maria Lúcia - que ainda mora no Rio - quando morreu
em acidente na Via Dutra.
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Hábitos
caseiros
Apreciava música caipira. Certa vez, dispensou os secretários e
telefonou para a cantora Inezita Barroso. Pensando se tratar de
um trote, Inezita bateu o telefone estupidamente. JK teve de queimar
saliva para convencê-la de que era ele mesmo. Queria simplesmente
uma visita ao Catete para ouvir suas canções ao vivo. Era um estadista
que preservava hábitos caseiros e o convívio familiar. "A primeira
coisa que fazia quando chegava em casa era perguntar como estavam
minhas notas na escola", conta Maria Estela Kubitschek.
Ao deixar o poder, em janeiro de 1961 - sem conseguir eleger seu
sucessor, o marechal Lott -, JK elegeu-se senador por Goiás e era
apontado como candidato natural a presidente em 1965. As pesquisas
chegaram a apontar seu nome com quase 60% de preferência do eleitorado
brasileiro. Já havia até material de campanha, com o lema "cinco
anos de agricultura para 50 de fartura" quando veio o golpe militar
em 31 de março de 1964. Cassado dois meses depois, JK tomaria um
avião com destino a Madri. No Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro,
ovacionado pela multidão, que cantava o Hino Nacional, Juscelino
embarcou com dona Sarah e a população se dispersou. A aeronave já
tomava velocidade para a decolagem, mas repentinamente parou. Havia
um temor generalizado de que fossem prendê-lo. Com os nervos à flor
da pele, Sarah passou às mãos do marido uma pequena pistola: "Juscelino,
toma isto. Se eles tocarem em você, faça uso da arma." Felizmente,
o avião retornou apenas para pegar um passageiro que, por causa
do tumulto, não havia conseguido embarcar.
Foram três longos anos de exílio em Lisboa, Nova York e Paris. "É
o castigo mais cruel imposto a um homem que só pensava no Brasil,
só estudava o Brasil, só viajava pelo Brasil e em torno de si reunia
uma equipe só para adorar o Brasil", diria ele mais tarde. Em Portugal,
JK recebeu o convite para participar de um movimento de resistência
ao regime autoritário. Era organizado por seu antigo desafeto, Carlos
Lacerda, e chamava-se Frente Ampla. JK duvidou de que se tratasse
de algo sério, mas aceitou almoçar com Lacerda. Para evitar maledicências
do udenista, dona Sarah sutilmente colocou uma imagem de Nossa Senhora
de Fátima embaixo da poltrona onde sentaria Lacerda. Os ânimos de
fato se arrefeceram, mas a Frente Ampla - da qual também fazia parte
o ex-presidente João Goulart - não vingou.
| Modelo
a ser imitado
O charme da bandeira desenvolvimentista ainda seduz
os políticos brasileiros. "JK personificou a prosperidade
e o sentimento de conciliação nacional. Acima de tudo,
era um político que mantinha um astral elevado. Nenhum
outro presidente encarnou estas qualidades no mesmo
grau", afirma o cientista político Bolivar Lamonier.
Entre os que poderiam ser apontados como sucessores
de JK, Lamonier cita o presidente Fernando Henrique
Cardoso. "FHC é de longe o que mais se assemelha a JK.
É naturalmente uma pessoa de bom humor e faz tudo para
relaxar a tensão", compara Lamonier, com a ressalva
de que hoje o País não está emergindo para uma época
de desenvolvimento, como na era JK. "Não é fácil repetir
o script."
FHC não é o único a querer tirar uma lasquinha do charme
de JK. Em outros tempos, Orestes Quércia e Fernando
Collor de Mello também se apresentaram ao eleitorado
como herdeiros de JK. Quércia abraçou a imagem de tocador
de obra, enquanto Collor quis ser um ícone da modernidade.
"Collor não tem o bom humor de JK. Pelo contrário, ele
tem um fígado shakespeariano", diz Lamonier. Quem não
disfarça a vontade de se assemelhar a Juscelino é o
presidente da Câmara Federal, Michel Temer (PMDB-SP).
"Como ele, sou conciliador, não guardo rancor. Sou capaz
de fazer sete ou oito reuniões até garantir o consenso",
afirma Temer, que conheceu JK no tempo em que era estudante
da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em
São Paulo.
Em 1960, tinha 18 anos quando sua turma escolheu JK
como paraninfo. O presidente não pôde comparecer à formatura,
mas, ao fazer uma escala em São Paulo, indo para o Sul,
mandou o pessoal se deslocar até o aeroporto de Congonhas.
"Aí, entramos no avião e ele fez questão de assinar
nossos diplomas. Nunca esqueci seu rosto sorridente",
lembra Temer.
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Chapéu
de palha
Em 1967, JK voltou ao Brasil. Por ocasião do AI-5, passou um mês
em prisão domiciliar. Afastado da vida pública e dando palestras
para executivos de bancos, comprou uma fazenda em Luziânia (GO)
com o único pretexto de poder passar os fins de semana perto de
Brasília, onde havia uma "pressão branca" dos militares para que
não botasse os pés. Depois de muitos anos, JK não resistiu e se
disfarçou com um chapéu de palha. Certa noite, chamou um caminhoneiro
e subiu na boléia. Chorou ao ver de longe a capital com as luzes
acesas.
"Papai gostava de ensinar os netos a tirar leite de vaca na fazenda",
recorda Maria Estela. E estava justamente em Luziânia quando, a
7 de agosto de 1976, os repórteres o procuraram para saber se era
mesmo boato a notícia de que ele morrera na Via Dutra. "Estão querendo
me matar, mas ainda não conseguiram", comentou com amigos. No dia
22 de agosto de 1976, JK morreu num acidente de carro, exatamente
na Via Dutra. O Opala do presidente, guiado pelo motorista Geraldo
Ribeiro, seguia de São Paulo para o Rio de Janeiro quando foi atingido
por um ônibus, passou para a outra pista e bateu de frente num caminhão
carregado de gesso.
Não faltam teses conspiratórias para explicar o que o inquérito
policial apontou como simples desastre. Há quem diga que havia explosivos
no automóvel. Outros apostam que um tiro disparado por ocupantes
de um veículo não-identificado acertou o motorista Geraldo, que
perdeu o controle do Opala. "A versão oficial é uma grande montagem",
acusa o perito criminal Alberto Carlos de Minas. Em 1996, ele foi
um dos responsáveis pela reabertura do caso. As investigações não
avançaram e o inquérito, após 20 anos, acabou prescrevendo. No entanto,
Alberto Carlos e Serafim Jardim - presidente da Casa de Juscelino
em Diamantina - ainda hoje se dizem convictos de que JK foi morto
por ordem dos militares no poder.
Os indícios são muitos, de acordo com a tese conspiratória. Em agosto
de 1976, o diretor do serviço secreto chileno, Manuel Contreras
Sepúlveda, enviou carta ao general João Baptista Figueiredo, então
chefe do Serviço Nacional de Informações, dizendo-se preocupado
com o possível triunfo do Partido Democrata nas eleições americanas.
"Temos conhecimento do reiterado apoio dos democratas a Kubitschek
e Letelier." Orlando Letelier, ministro do presidente chileno deposto,
Salvador Allende, morreria num atentado em Washington, pouco antes
da morte de JK. As fotos dos cadáveres de JK e do motorista simplesmente
não foram anexadas ao inquérito. O caixão com o corpo do motorista
foi lacrado, sem que se pudesse checar se ele levou um tiro na cabeça,
como especulam os juscelinistas. Em 1996, o corpo foi exumado. "Pode
ter sido imaginação minha, já que estava eufórico demais. Mas vi
um orifício no crânio de Geraldo. Dias depois, os legistas responsáveis
pelo laudo avisaram que o crânio se fragmentara, algo incomum com
o manuseio de profissionais", afirma o perito Alberto Carlos de
Minas. O mistério contribui ainda mais para perpetuar o mito Juscelino
Kubitschek.
VOCÊ SABIA?
Quiseram saber o segredo da assombrosa capacidade de JK para se
lembrar de nomes. "É simples: você dá um abraço no sujeito e pergunta
baixinho como se chama. Aí repete alto: olá, fulano, como vai?"
VOCÊ
SABIA?
Quebrou o dedinho do pé ao bater na porta do armário. Usava só sapato
sem cadarço - mais fácil de tirar nas reuniões e se livrar da dor
crônica.
VOCÊ
SABIA?
O avião que o levava sofreu uma pane e o piloto quis pousar em Brasília.
Os militares avisaram: "Se JK estiver no bimotor, negamos."
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Juscelino na intimidade
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