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O Brasileiro do Século

Juscelino na intimidade

A filha Márcia conta que JK adorava voar, dormia quase nada e não abria mão de almoçar com a família.

Para falar do pai, Márcia Kubitschek adia compromissos e não mira o relógio. Vai remexendo o baú de memórias e sacando histórias comoventes, que a deixam com a voz trêmula. Ora enaltece as qualidades do "presidente JK", ora revela os bastidores da vida de "papai e mamãe", como ainda gosta de chamar Juscelino e dona Sarah. Aos 56 anos, ex-deputada federal e ex-vice-governadora do Distrito Federal, ela não se considera sucessora do pai. Mora em Brasília e é vice-presidente da Embratur, mas avisa que não desistiu dos projetos políticos. "Política não se abandona jamais." Em entrevista a ISTOÉ, com uma eloquência invejável, Márcia ressalta: "Dentro de casa, papai era o mesmo que os brasileiros conheceram: otimista, com um entusiasmo inesgotável pela vida."

ISTOÉ - Qual era a rotina do presidente JK?
Márcia Kubitschek - Acordava muito cedo. Às seis da manhã estava ligando para os assessores. O desjejum era um pequeno bife, pão com manteiga e queijo branco, café e uma fruta. Enquanto a capital era no Rio de Janeiro, ele ia despachar no Palácio do Catete, mas voltava para a casa (o Palácio das Laranjeiras, residência oficial) no horário do almoço. Mamãe telefonava avisando que a comida estava pronta. Como dormia tarde, papai se treinou para descansar em qualquer intervalo do dia. No carro, durante o trajeto para algum compromisso, dormia dez minutos. Viajava muito pelo Brasil. Acreditava que assim as coisas andariam mais rápido. Ia a lugares onde naquela época nenhum homem de proeminência havia botado os pés. Na construção da rodovia Belém-Brasília, ele foi diversas vezes fiscalizar as obras. As viagens não contavam com aparato de segurança. Era chamar o piloto do avião e se mandar. Às vezes ele queria decolar mesmo com tempestade, não pensava em mau tempo, tinha pressa. Acredito que nunca um governante viajou tanto pelo País.
ISTOÉ - Alguns historiadores afirmam que JK continuou em campanha mesmo após tomar posse. Afinal, a UDN fazia uma oposição permanente e setores da Aeronáutica mais de uma vez tentaram destituí-lo do poder. Precisava de apoio popular para governar.
Márcia - Não concordo. Uma coisa é fazer campanha, outra é administrar. Quando ele tomou posse, tinha perfeita noção de que não poderia perder tempo. Juscelino estava preocupado em cumprir suas metas, não em fazer comício ou politicagem. O que ele fazia era viajar para fiscalizar o andamento das obras.
ISTOÉ - Virou uma credencial para os políticos atuais se apresentarem como seguidores dos ideais juscelinistas. A sra. se irrita quando vê alguém se apresentar como sucessor de seu pai?
Márcia - Alguns podem até ser parecidos com ele, mas ninguém nunca foi nem será igual. Acho que o fato de imitarem JK é um elogio. Quem se coloca na posição de ter a mesma filosofia de vida e de governo de Juscelino faz um elogio a ele.
ISTOÉ - A sra. se considera sucessora política de JK?
Márcia - Acho que não existem sucessores na política. Nem os filhos são iguais aos pais. No entanto, houve uma reação extremamente favorável por parte dos juscelinistas quando me candidatei a deputada federal, em 1986. Quem também me incentivou muito a entrar na política foi Tancredo Neves. Ele me disse: "Você tem uma obrigação com a cidade que o seu pai construiu e deve se candidatar por Brasília."
ISTOÉ - Qual é o maior legado de JK?
Márcia - É a confiança no Brasil. Ele cumpriu o preceito de respeitar a Constituição, nunca distorceu as leis em benefício próprio. O maior legado de JK foi ter feito o brasileiro acreditar no Brasil. Além disso, levou a civilização para o Planalto Central ao construir Brasília.
ISTOÉ - Não falta quem diga que JK foi o responsável pelo endividamento externo do País e pela alta da inflação, que chegou a 30% ao ano, na época um descalabro.
Márcia - Brasília não foi responsável por inflação coisa nenhuma. Os índices eram ínfimos perto do que veio depois. Também não fez endividamento colossal. Nos anos JK, o Brasil cresceu 7,8% ao ano. O dinheiro que se gastava era aplicado na geração de empregos, desenvolvia o País.
ISTOÉ - Qual foi o momento mais difícil da vida de JK?
Márcia - O exílio, sem dúvida. Lembro como se fosse hoje uma história que me comoveu muito. Morávamos em Nova York, num apartamento alugado, de dois dormitórios. Certo dia, acordei de madrugada e fui pegar um copo de água na cozinha. Levei um susto ao ver papai na sala, às três da manhã. Ele abria a veneziana da janela e espiava o céu de Nova York. Eu perguntei: "O que o senhor está fazendo de pé numa hora dessas?" Abatido, ele disse: "Minha filha, estou procurando o Cruzeiro do Sul (constelação que só pode ser vista no Hemisfério Sul)." Quando ele voltou ao Brasil, sabia de todos os riscos que corria, mas não aguentava mais aquela situação.
ISTOÉ - Como JK passou os últimos anos de vida?
Márcia - O grande hobby dele era conversar com os amigos. Como bom mineiro, não comia sozinho e passava horas à mesa. E se vangloriava de fazer um excelente omelete. Não fosse o acidente, teria vivido muito tempo mais. Minha avó Júlia morreu aos 99 anos. Na fazendinha em Goiás, adorava montar a cavalo e plantar café. Acima de tudo, queria provar que o Centro-Oeste era fértil e poderia produzir qualquer coisa.
ISTOÉ - Como a sra. se posiciona em relação à morte de JK? Muita gente duvida da versão de que houve um acidente na via Dutra.
Márcia - Numa morte inesperada, sempre surgem dúvidas. Nada ficou provado, mas existem perguntas que até hoje não foram respondidas. O que se pode dizer é que as mortes de três grandes líderes políticos brasileiros, num período de menos de um ano, foram convenientes para um movimento de abertura política concebido no governo de Ernesto Geisel. Carlos Lacerda pegou uma gripe, foi internado e não se levantou mais. Jango morreu de infarto com um travesseiro na boca, segurando a respiração. E com papai aconteceu um acidente suspeito. Se tudo isso foi mera coincidência, não se sabe. Infelizmente, ninguém conseguiu provar nada.
ISTOÉ - JK deixou heranças financeiras?
Márcia - Papai nunca foi rico nem deixou grandes fortunas. Para financiar meus estudos, mamãe teve que vender quadros de pintores que tínhamos em casa, como Guignard, Portinari e Di Cavalcanti. Dona Sarah morreu num apartamento alugado, em Brasília.
ISTOÉ - Se houvesse abertura com Juscelino vivo, ele voltaria para a política?
Márcia - Meu caro, ele nunca saiu dela.