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9) Frei Betto
34,58%
dos votos
A
trajetória de Frei Betto combina de modo equilibrado religião
e política desde a infância. Dois grandes estadistas
deste País atrapalharam meus aniversários, disse
ele a ISTOÉ. O pai, Antonio Carlos Vieira Christo, jurista,
foi um dos assinantes do Manifesto dos Mineiros, documento
que expressava a insatisfação de intelectuais de Minas
Gerais com a ditadura de Getúlio Vargas (chegava a pedir
a renúncia do presidente). O suicídio de Vargas, a
24 de agosto de 1954, um dia antes do aniversário de Frei
Betto (nasceu em Belo Horizonte, em 1944), foi motivo de sobra para
que seu pai sentisse remorso por ter assinado o tal manifesto. A
festa que comemoraria os dez anos do filho, por causa disso, foi
cancelada. Senti que o tiro que Getúlio deu no Palácio
do Catete fez seu cadáver cair na sala da minha casa,
lembra Frei Betto.
Bomba como
presente A política mais uma vez se fez presente em seu
aniversário em 1961. Carlos Alberto Libânio Christo,
seu nome de batismo, ainda cheio de espinhas no rosto, despontava
na militância estudantil de Belo Horizonte como presidente
da União Municipal dos Estudantes Secundaristas. Planejou
sair com os amigos para se divertir, quando foi surpreendido com
a notícia da renúncia de Jânio Quadros, a 25
de agosto de 1961. Deixando mais uma vez as comemorações
para segundo plano, preferiu discursar nas ruas de Belo Horizonte,
crédulo de que a renúncia do estadista se tratava
de um golpe. Como presente, ganhei bombas de gás lacrimogêneo
e uma surra da polícia.
Desde 1959, integrava a Juventude Estudantil Católica (JEC),
da Ação Católica. Em 1962, foi eleito dirigente
nacional da JEC. Neste ano, arrumou as malas e mudou-se para o Rio
de Janeiro para estudar jornalismo. Dois anos depois, foi preso
por causa da militância. Sentir na pele a violação
dos direitos humanos foi o estopim para que trancasse a matrícula
na faculdade e ingressasse na Ordem Dominicana (instituição
católica datada de 800 anos, fundada por São Domingos
de Gusmão, na França, no século XII).
Chamado de
Deus Namorador e festeiro na juventude, os ideais de igualdade
e justiça o encorajaram a tornar-se frade, embora questionasse
a si próprio se suportaria o celibato. Resolveu o impasse
elaborando sua própria receita - priorizou engajar-se na
articulação da fé com a política e seguiu
sua trilha, esquecendo tudo o mais. Temi que, aos 40 anos,
me arrependesse de não ter atendido ao chamado de Deus na
juventude.
Apaixonou-se
pelo estilo de vida dominicano e partiu para a evangelização
e fortalecimento da fé cristã, mas sem abandonar a
atuação política. Ela é uma ferramenta
para levar a palavra de Deus. Em meados dos anos 60, foi repórter
da revista Realidade e da Folha da Tarde, de São
Paulo, onde passou a viver. Nesse período, foi escalado para
cobrir o casamento de Roberto Carlos e Nice (que era desquitada),
em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. O cantor quis retribuir
a gratidão aos repórteres e ameaçou sortear
um deles para padrinho. Rezei 20 padres-nossos e dez aves-marias.
Como eu explicaria ao Roberto que um frade não poderia aceitar
o casamento de uma desquitada? Deus atendeu sua reza.
No regime militar,
penou quatro anos na prisão, de 1969 a 1973. Os frades dominicanos
eram cúmplices da guerrilha - protegiam os militantes da
Aliança Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighela. Na
cadeia, como Frei Betto não sossegava o pito e fazia conchavos
com outros apenados políticos, os generais resolveram colocá-lo
entre os presos comuns. Ele só mudou de platéia, mas
continuou agitando.
Sono interrompido
Em 1980, estava dormindo na casa do então líder
sindical Luiz Inácio Lula da Silva, quando bateram à
porta agentes do Departamento de Ordem Política e Social
(Dops). Os policiais levaram Lula algemado, enquanto Frei Betto
tratava de acordar o clero progressista para pedir ajuda. A notícia
vazou e o próprio Lula, ainda no camburão, ouviu o
locutor de uma emissora de rádio anunciar sua prisão.
A pressão da opinião pública ajudou a libertá-lo
em seguida. Em 1986, eleito o Intelectual do Ano pela União
Brasileira de Escritores (UBE), Frei Betto recebeu das mãos
do então apenas sociólogo Fernando Henrique Cardoso
o troféu Juca Pato. Escreveu 40 livros, entre eles, Fidel
e a religião (1985), que vendeu três milhões
de exemplares no Brasil e no Exterior.
VOCÊ SABIA? Em 1986, estava ansioso para conversar
com Gorbatchev, no Fórum da Paz, em Moscou. Como não
fala russo, precisava urgentemente de um intérprete. Arrumou
um pastor argentino, seu amigo, que se comprometeu a intermediar
a conversa. Muy amigo, o argentino avistou o ator Marcello Mastroianni,
seu ídolo, e deixou Frei Betto a ver navios. Restou a ele
só um aperto de mão de Gorbatchev. Final de festa,
Frei Betto estava indo embora a pé, quando ouviu passos e
olhou para trás. Era Mastroianni, que lhe fez companhia na
caminhada até o hotel.
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