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O Brasileiro do Século

9) Frei Betto
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A trajetória de Frei Betto combina de modo equilibrado religião e política desde a infância. “Dois grandes estadistas deste País atrapalharam meus aniversários”, disse ele a ISTOÉ. O pai, Antonio Carlos Vieira Christo, jurista, foi um dos assinantes do Manifesto dos Mineiros, documento que expressava a insatisfação de intelectuais de Minas Gerais com a ditadura de Getúlio Vargas (chegava a pedir a renúncia do presidente). O suicídio de Vargas, a 24 de agosto de 1954, um dia antes do aniversário de Frei Betto (nasceu em Belo Horizonte, em 1944), foi motivo de sobra para que seu pai sentisse remorso por ter assinado o tal manifesto. A festa que comemoraria os dez anos do filho, por causa disso, foi cancelada. “Senti que o tiro que Getúlio deu no Palácio do Catete fez seu cadáver cair na sala da minha casa”, lembra Frei Betto.

Bomba como presente A política mais uma vez se fez presente em seu aniversário em 1961. Carlos Alberto Libânio Christo, seu nome de batismo, ainda cheio de espinhas no rosto, despontava na militância estudantil de Belo Horizonte como presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas. Planejou sair com os amigos para se divertir, quando foi surpreendido com a notícia da renúncia de Jânio Quadros, a 25 de agosto de 1961. Deixando mais uma vez as comemorações para segundo plano, preferiu discursar nas ruas de Belo Horizonte, crédulo de que a renúncia do estadista se tratava de um golpe. “Como presente, ganhei bombas de gás lacrimogêneo e uma surra da polícia.”
Desde 1959, integrava a Juventude Estudantil Católica (JEC), da Ação Católica. Em 1962, foi eleito dirigente nacional da JEC. Neste ano, arrumou as malas e mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar jornalismo. Dois anos depois, foi preso por causa da militância. Sentir na pele a violação dos direitos humanos foi o estopim para que trancasse a matrícula na faculdade e ingressasse na Ordem Dominicana (instituição católica datada de 800 anos, fundada por São Domingos de Gusmão, na França, no século XII).

Chamado de Deus Namorador e festeiro na juventude, os ideais de igualdade e justiça o encorajaram a tornar-se frade, embora questionasse a si próprio se suportaria o celibato. Resolveu o impasse elaborando sua própria receita - priorizou engajar-se na articulação da fé com a política e seguiu sua trilha, esquecendo tudo o mais. “Temi que, aos 40 anos, me arrependesse de não ter atendido ao chamado de Deus na juventude.”

Apaixonou-se pelo estilo de vida dominicano e partiu para a evangelização e fortalecimento da fé cristã, mas sem abandonar a atuação política. “Ela é uma ferramenta para levar a palavra de Deus.” Em meados dos anos 60, foi repórter da revista Realidade e da Folha da Tarde, de São Paulo, onde passou a viver. Nesse período, foi escalado para cobrir o casamento de Roberto Carlos e Nice (que era desquitada), em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. O cantor quis retribuir a gratidão aos repórteres e ameaçou sortear um deles para padrinho. “Rezei 20 padres-nossos e dez aves-marias. Como eu explicaria ao Roberto que um frade não poderia aceitar o casamento de uma desquitada?” Deus atendeu sua reza.

No regime militar, penou quatro anos na prisão, de 1969 a 1973. Os frades dominicanos eram cúmplices da guerrilha - protegiam os militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) de Carlos Marighela. Na cadeia, como Frei Betto não sossegava o pito e fazia conchavos com outros apenados políticos, os generais resolveram colocá-lo entre os presos comuns. Ele só mudou de platéia, mas continuou agitando.

Sono interrompido Em 1980, estava dormindo na casa do então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, quando bateram à porta agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Os policiais levaram Lula algemado, enquanto Frei Betto tratava de acordar o clero progressista para pedir ajuda. A notícia vazou e o próprio Lula, ainda no camburão, ouviu o locutor de uma emissora de rádio anunciar sua prisão. A pressão da opinião pública ajudou a libertá-lo em seguida. Em 1986, eleito o Intelectual do Ano pela União Brasileira de Escritores (UBE), Frei Betto recebeu das mãos do então apenas sociólogo Fernando Henrique Cardoso o troféu Juca Pato. Escreveu 40 livros, entre eles, Fidel e a religião (1985), que vendeu três milhões de exemplares no Brasil e no Exterior.


VOCÊ SABIA? Em 1986, estava ansioso para conversar com Gorbatchev, no Fórum da Paz, em Moscou. Como não fala russo, precisava urgentemente de um intérprete. Arrumou um pastor argentino, seu amigo, que se comprometeu a intermediar a conversa. Muy amigo, o argentino avistou o ator Marcello Mastroianni, seu ídolo, e deixou Frei Betto a ver navios. Restou a ele só um aperto de mão de Gorbatchev. Final de festa, Frei Betto estava indo embora a pé, quando ouviu passos e olhou para trás. Era Mastroianni, que lhe fez companhia na caminhada até o hotel.