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O Brasileiro do Século

8) Leonardo Boff
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Os noviços amarravam fronhas e desciam pela janela, à noite, para roubar o pomar dos frades. Era arriscadíssimo. Quem fosse pego era sumariamente expulso do seminário de Rio Negro (PR). Roubar laranja, maçã e pêra era o pecado mais horripilante que Leonardo Boff tinha para contar na hora de se confessar, de joelhos, no refeitório, na frente de 150 colegas. Como penitência, ficava sem refrigerante. Castigo maior era submeter-se à “disciplina”, auto-flagelo obrigatório às segundas, quartas e sextas, pontualmente às sete horas da noite. Rezava dois salmos enquanto baixava as calças e chicoteava as próprias costas e nádegas. A sessão durava 15 minutos e se repetiu na vida de Boff de 1959, ano em que ingressou na ordem franciscana, até 1965, quando o Concílio do Vaticano II aboliu o ritual.

Rádio em galho de árvore Um dos criadores da Teologia da libertação, que incorpora a luta contra a pobreza à pregação do Evangelho, Genésio Darci Boff (trocou de nome ao adotar o hábito franciscano, como manda a tradição) é neto de italianos que migraram para o Sul do Brasil no final do século XIX. Da infância ele guarda uma história que ilustra bem a capacidade da família de driblar as adversidades. Com a Segunda Guerra Mundial, os camponeses foram proibidos de falar os dialetos dos ancestrais. O pai, seu Mansueto, se fez representante de uma loja de eletrodomésticos de Porto Alegre e arranjou rádios que punha em cima de árvores. Assim, o agricultor era obrigado a ouvir a transmissão em português durante todo o dia até aprender o idioma. Enquanto puxava enxada com a mãe, Regina, analfabeta, o garoto fazia planos de ser motorista de caminhão. Escutava ao longe o ronco das carretas e se imaginava guiando o monstro de rodas. Aí apareceu um frade à cata de vocações religiosas e perguntou a um bando de calças curtas se alguém queria ser padre. “Senti um fogo dentro de mim e levantei o braço.” Com 11 anos de idade, o moleque partiu de Concórdia na boléia de um caminhão. Não era para ser chofer. O destino era o seminário de Luzerna, no Vale do Rio do Peixe (SC).

Críticas ferinas Aquele caminho ia dar, 20 anos depois, em Munique, na Alemanha, onde Boff concluiu o Doutorado em Teologia e Filosofia. A tese, “A Igreja como sacramento no horizonte da secularização”, por coincidência, foi publicada por iniciativa do hoje cardeal Joseph Ratzinger, que o interrogaria duas décadas mais tarde como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santa Inquisição. Entusiasmado com a Teologia política em voga na Alemanha, Boff quis adaptá-la ao Brasil. “Por causa do trauma do nazismo, os alemães discutiam a democracia, mas esqueciam a pobreza”, analisa. Quem cunhou a expressão Teologia da libertação foi o peruano Gustavo Gutierrez, mas Boff se tornou o principal teólogo da doutrina. A combinação da Bíblia com a pregação política não agradou à hie-rarquia da Igreja e, em 1984, ele foi chamado a dar explicações no Vaticano.

O interrogatório estava marcado para 15 de agosto, mas ele preferiu na data participar de um congresso de prostitutas no Brasil. “Segundo o Evangelho, elas chegarão ao Reino dos Céus antes de nós”, justificou aos superiores. A 7 de setembro, finalmente, foi inquirido. “É aqui a sala de tortura?”, brincou. Antes de abrir o bico, Boff curvou-se diante da cadeira onde haviam sentado Galileu Galilei e Giordano Bruno, entre outros perseguidos pela Inquisição.

Teólogo cigano A insolência deve ter ajudado a condená-lo a um ano de “silêncio obsequioso”. Em 1992, a pena voltou a ser aplicada e Boff tomou a iniciativa de largar a batina. Professor de Filosofia da Religião na Uerj e “teólogo cigano” - lecionou em Harvard (EUA) em 1998 e dará aulas na Alemanha no ano 2000 -, hoje vive com Márcia Moreira, antiga colaboradora de militância. “O celibato obrigatório é um equívoco. Muitas mulheres são condenadas a uma vida dupla porque não podem assumir sua relação com um padre”, afirma Márcia.


VOCÊ SABIA? Quando tinha seis meses de vida, foi acometido de um misterioso mal, que até hoje não sabe qual era. “Talvez fosse alguma infecção”, especula. No cafundó em que morava, chamavam de “doença do macaquinho”. A conselho de uma velha colona, a mãe pôs o bebê - magérrimo e dado como morto - de
ntro do forno de pedra. “Fiquei ali como um pão-de-ló. Mas saí curado, não sei como.