|
8) Leonardo Boff
38,85%
dos votos
Os
noviços amarravam fronhas e desciam pela janela, à
noite, para roubar o pomar dos frades. Era arriscadíssimo.
Quem fosse pego era sumariamente expulso do seminário de
Rio Negro (PR). Roubar laranja, maçã e pêra
era o pecado mais horripilante que Leonardo Boff tinha para contar
na hora de se confessar, de joelhos, no refeitório, na frente
de 150 colegas. Como penitência, ficava sem refrigerante.
Castigo maior era submeter-se à disciplina, auto-flagelo
obrigatório às segundas, quartas e sextas, pontualmente
às sete horas da noite. Rezava dois salmos enquanto baixava
as calças e chicoteava as próprias costas e nádegas.
A sessão durava 15 minutos e se repetiu na vida de Boff de
1959, ano em que ingressou na ordem franciscana, até 1965,
quando o Concílio do Vaticano II aboliu o ritual.
Rádio
em galho de árvore Um dos criadores da Teologia da libertação,
que incorpora a luta contra a pobreza à pregação
do Evangelho, Genésio Darci Boff (trocou de nome ao adotar
o hábito franciscano, como manda a tradição)
é neto de italianos que migraram para o Sul do Brasil no
final do século XIX. Da infância ele guarda uma história
que ilustra bem a capacidade da família de driblar as adversidades.
Com a Segunda Guerra Mundial, os camponeses foram proibidos de falar
os dialetos dos ancestrais. O pai, seu Mansueto, se fez representante
de uma loja de eletrodomésticos de Porto Alegre e arranjou
rádios que punha em cima de árvores. Assim, o agricultor
era obrigado a ouvir a transmissão em português durante
todo o dia até aprender o idioma. Enquanto puxava enxada
com a mãe, Regina, analfabeta, o garoto fazia planos de ser
motorista de caminhão. Escutava ao longe o ronco das carretas
e se imaginava guiando o monstro de rodas. Aí apareceu um
frade à cata de vocações religiosas e perguntou
a um bando de calças curtas se alguém queria ser padre.
Senti um fogo dentro de mim e levantei o braço.
Com 11 anos de idade, o moleque partiu de Concórdia na boléia
de um caminhão. Não era para ser chofer. O destino
era o seminário de Luzerna, no Vale do Rio do Peixe (SC).
Críticas
ferinas Aquele caminho ia dar, 20 anos depois, em Munique, na
Alemanha, onde Boff concluiu o Doutorado em Teologia e Filosofia.
A tese, A Igreja como sacramento no horizonte da secularização,
por coincidência, foi publicada por iniciativa do hoje cardeal
Joseph Ratzinger, que o interrogaria duas décadas mais tarde
como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé,
ex-Santa Inquisição. Entusiasmado com a Teologia política
em voga na Alemanha, Boff quis adaptá-la ao Brasil. Por
causa do trauma do nazismo, os alemães discutiam a democracia,
mas esqueciam a pobreza, analisa. Quem cunhou a expressão
Teologia da libertação foi o peruano Gustavo Gutierrez,
mas Boff se tornou o principal teólogo da doutrina. A combinação
da Bíblia com a pregação política não
agradou à hie-rarquia da Igreja e, em 1984, ele foi chamado
a dar explicações no Vaticano.
O interrogatório
estava marcado para 15 de agosto, mas ele preferiu na data participar
de um congresso de prostitutas no Brasil. Segundo o Evangelho,
elas chegarão ao Reino dos Céus antes de nós,
justificou aos superiores. A 7 de setembro, finalmente, foi inquirido.
É aqui a sala de tortura?, brincou. Antes de
abrir o bico, Boff curvou-se diante da cadeira onde haviam sentado
Galileu Galilei e Giordano Bruno, entre outros perseguidos pela
Inquisição.
Teólogo
cigano A insolência deve ter ajudado a condená-lo
a um ano de silêncio obsequioso. Em 1992, a pena
voltou a ser aplicada e Boff tomou a iniciativa de largar a batina.
Professor de Filosofia da Religião na Uerj e teólogo
cigano - lecionou em Harvard (EUA) em 1998 e dará aulas
na Alemanha no ano 2000 -, hoje vive com Márcia Moreira,
antiga colaboradora de militância. O celibato obrigatório
é um equívoco. Muitas mulheres são condenadas
a uma vida dupla porque não podem assumir sua relação
com um padre, afirma Márcia.
VOCÊ SABIA? Quando tinha seis meses de vida, foi acometido
de um misterioso mal, que até hoje não sabe qual era.
Talvez fosse alguma infecção, especula.
No cafundó em que morava, chamavam de doença
do macaquinho. A conselho de uma velha colona, a mãe
pôs o bebê - magérrimo e dado como morto - dentro
do forno de pedra. Fiquei ali como um pão-de-ló.
Mas saí curado, não sei como.
|