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O Brasileiro do Século

7) Madre Paulina
41,89% dos votos

 

Amabile teve um sonho que se repetiu durante três dias consecutivos. Estava à porta de um sobrado de dois andares completamente desabitado quando aparecia uma belíssima Nossa Senhora vestida toda de branco. Nos pés, duas rosas brilhantes. “É meu ardente desejo que comeces uma obra. Trabalharás pela salvação de minhas filhas!”, dizia Nossa Senhora.

Carro de boi Nascida a 16 de dezembro de 1865, na região do Tirol (na época, parte da Áustria e hoje território italiano), Amabile Lucia Visintainer estava predestinada a tocar com fina sensibilidade a alma religiosa brasileira. A Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, que ela fundou em 1890, hoje concentra a fé de mais de 600 religiosas e se espalha por todos os cantos do País, atingindo também seis países latino-americanos e outros três africanos. A semente foi lançada no povoado de Vígolo, nos arredores de Nova Trento (SC), a 100 quilômetros de Florianópolis, para onde Amabile se mudou ainda menina com os pais e três irmãos. Aos 22 anos, ela perdeu a mãe (faleceu ao dar à luz o quinto filho) e assumiu as rédeas da casa. Mas seu horizonte ia muito além da porta da rua. Em 1890, uma mulher adoeceu gravemente no lugarejo. Como os parentes não queriam cuidar da enferma, Amabile e a amiga Virgínia transportaram a cancerosa num carro de boi até um casebre junto à igrejinha. Era um barraco de 24 metros quadrados coberto de palha com um quadro de São Jorge na parede. Surgiu ali a Congregação. Com Virgínia e Teresa (que aderira à causa), Amabile passou a cuidar de outros enfermos com tal devoção que, em 1894, o padre jesuíta Giuseppe Montero recomendou que se mudasse para Nova Trento e ampliasse o campo de ação. No ano seguinte, o bispo de Curitiba dom José de Camargo Barros (que morreria num naufrágio) deu sua bênção à Congregação. As moças receberam os santos votos e trocaram de nome. Amabile passou a se chamar Irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus e foi eleita para o cargo vitalício de superiora geral.

Ao receber as primeiras adesões, Madre Paulina não se furtou a trabalhar como bóia-fria cortando capim e lavrando a terra para angariar recursos. Quando o padre Luigi Rossi, de Nova Trento, foi transferido para São Paulo, chamou as Irmãzinhas. Pretendia que elas ajudassem “negros pobres, ex-escravos e seus filhos” que, após a abolição, estavam sem rumo e em situação miserável. A primeira reação dos paulistas, entretanto, foi de espanto ao constatarem que Madre Paulina e suas comandadas não falavam o português, só o dialeto italiano. Logo apren-deram o idioma e passaram a dirigir hospitais e asilos. Tudo parecia correr às mil maravilhas. O sonho com Nossa Senhora, finalmente, era realidade. Neste momento, um personagem-chave entrou na história. Anna Brotero de Barros, de família endinheirada, se transformou em benfeitora do Asilo Sagrada Família, no Ipiranga (zona sul de SP), administrado pela Congregação. Gozando de prestígio junto à cúpula da Igreja, passou a se intrometer na ordem interna das Irmãzinhas. Exigia ser consultada até na admissão de votos.

Ricaça intrometida Madre Paulina considerou a ingerência indevida. O conflito foi resolvido do modo mais injusto possível. O arcebispo de São Paulo, dom Duarte Leopoldo da Silva, tomou partido da ricaça e destituiu Madre Paulina do cargo de superiora (que era para ser vitalício). Ela se viu constrangida a cumprir um doloroso exílio de dez anos como a mais humilde e serviçal das Irmãs na Santa Casa de Bragança Paulista. Não deu um pio. Sua existência passou a transcorrer como “um rio monótono e silencioso”, como contou depois. Há quem acredite que outros motivos contribuíram para a segregação. “Um grãozinho de areia no sapato é suportável. Mas cinco ou seis passam a incomodar”, afirma irmã Célia Cadorin, que escreveu a biografia de Madre Paulina. Dom Duarte havia incumbido as Irmãzinhas de cuidarem de um asilo de loucos, em Perdizes (zona oeste de SP), que pertencia ao irmão dele. Madre Paulina reclamou que não havia segurança porque as jovens eram obrigadas a passar noites em claro temendo ser atacadas pelos internos, o que melindrou o arcebispo.
Em 1918, é chamada de volta a São Paulo para servir como “fonte histórica”, já que a trajetória da Congregação estava sendo posta no papel. Nunca recuperou o cargo de superiora, mas passou a ser venerada como a fundadora da organização, morando até o final da vida na sede da Congregação, na capital paulista. Em 1933, o papa Pio XI assinou o Decreto de Louvor reconhecendo a importância de sua obra de caridade. Sofrendo de diabetes, teve o dedo médio da mão direita amputado e, não cessando a gangrena, os médicos lhe amputaram o braço. “Não importa. Estou disposta a dar tudo a Deus.” Estava já ce-ga quando mor-reu em 1942, aos 76 anos.
A história de Madre Paulina atravessou o século como uma lenda e não foram poucos os relatos de milagres que teriam sido alcançados graças à evocação de seu nome. A beatificação da brasileira foi anunciada pelo próprio papa João Paulo II, em visita a Florianópolis, a 18 de outubro de 1991.

Santa “A beatificação indica que ela é bem-aventurada. Estamos postulando agora a santificação”, informa a biógrafa irmã Célia. O principal argumento é o caso de Iza Bruna Vieira de Souza, de Rio Branco, no Acre, que nasceu com uma bolha do tamanho de uma laranja na cabeça (má-formação congênita), em 1992. Ao ser operada, a mãe colocou uma foto de Madre Paulina na mãozinha da criança. Após a cirurgia, teve convulsões cerebrais. “A previsão dos médicos era de que, se ela sobrevivesse, ficaria tetraplégica, além de cega, surda e muda”, relatou a mãe, Mabel de Souza. Mas repentinamente a criança melhorou e hoje goza de plena saúde. O Vaticano, entretanto, recomendou esperar alguns anos para saber se haverá sequelas. “Creio que até 2001, o mais tardar, Madre Paulina será considerada santa por todos os católicos”, diz irmã Célia.

VOCÊ SABIA? Eluíza de Souza, de Imbituba (SC), tinha um feto já morto há cinco meses na barriga. Puseram uma medalhinha com a foto e um pedaço da veste de Madre Paulina no peito da enferma, internada com afibrinogenemia (mal que impede a coagulação do sangue). “O médico mandou meu marido comprar o caixão. Na manhã seguinte, me viu sentada na cama e caiu para trás”, contou a ISTOÉ Eluíza, hoje plenamente recuperada.