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5) Frei Damião
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Durante
as intermináveis noites de confissão nas cidades do
interior nordestino onde realizava suas missões, Frei Damião
adquiriu duas manias. A primeira é um símbolo de seu
devotamento. Sentado num banquinho de madeira, muitas vezes sem
encosto, o frade capuchinho entrava as madrugadas confessando os
fiéis. Ouvia cada devoto com a mesma atenção,
cara a cara, o braço apoiado nos joelhos. Sem se levantar
para nada, a posição lhe custou problemas graves na
coluna, que progressivamente o impediram de andar com a cabeça
erguida. A segunda mania, mais profana, revela uma face hilária
do santo das missões. Para atender as filas quilométricas
de fiéis sem ser importunado pelo sono, pedia que lhe trouxessem
um café forte, com bastante açúcar. O café
ele tomava em poucos goles. Mas passava o resto da noite raspando
com uma colher o melado no fundo do copo, saboreando docemente seu
pecado - e o pecado dos outros.
Plantando
bananeira Filho de camponeses, Pio Giannotti - seu nome de batismo
- nasceu a 5 de novembro de 1898, no povoado de Bozzano, na Itália.
Na infância já era visto contemplando o crucifixo que
carregaria para o resto da vida. Além do altruísmo
(certa vez caminhou 30 quilômetros porque dera o bilhete do
trem que ia para Bozzano a um mendigo), o moleque impressionava
pelo equilíbrio - frequentemente saía pelo vilarejo
plantando bananeira. O sonho de ordenar-se sacerdote foi adiado,
com a eclosão da Primeira Guerra Mundial. Combateu pelo exército
italiano e herdou das trincheiras geladas uma infecção
na perna que lhe causava dores terríveis (erisipela). Voltou
para o seminário e tornou-se padre em 1923.
Pertencente
à Ordem dos Capuchinhos, em 1931 recebeu a tarefa de pregar
do outro lado do Atlântico, no distante Estado de Pernambuco.
Decorou meia dúzia de sermões em português e
encarou o desafio. Acompanhado de outro frade, Fernando Rossi, organizou
missões que percorreram quase todas as cidades do Nordeste.
Costumava chegar à localidade escolhida às segundas-feiras
no final da tarde. Às quatro da manhã de terça,
ainda na escuridão, a multidão já se comprimia
para ver a procissão de penitência.
Disputa pelas
sobras A primeira missa era celebrada às cinco. Uma hora
mais tarde, o frade iniciava sua pregação. No
inferno o calor é bilhões de vezes pior que no Nordeste.
As labaredas sobem e queimam sem parar o corpo dos adúlteros,
das prostitutas, dos afeminados e dos criminosos, dizia com
a voz rouca, quase inaudível. A seguir tomava o café
da manhã. As sobras eram disputadas a tapas pelas beatas.
Se ele deixasse um restinho no prato, todo mundo corria para
comer, contou a ISTOÉ Anita Meira, enfermeira que o
acompanhou por 30 anos, a partir de 1962. Não era fome,
não. Era devoção. As beatas viviam atrás
dele com uma tesourinha, tentando cortar um pedaço da batina,
completa. O dia continuava com outras missas, a reza do terço
e as confissões, que duravam até a meia-noite (o horário
era facilmente ultrapassado). Então dormia umas poucas horas
- roncava como um leão - e no dia seguinte, às quatro
da manhã, lá estava o velho capuchinho de novo, com
a habitual campainha nas mãos, acordando o povo para ir à
igreja. Numa rotina que se repetiu por mais de 60 anos, depois de
sete dias Frei Damião se deslocava para outra cidade.
Jerimum com
leite Habituado a comer apenas o que lhe dessem, não
escapou das brincadeiras de seu companheiro de pregação,
Frei Fernando Rossi. Hospedados numa residência de Bom Jesus
(PE), quando a dona da casa perguntou o que deveria servir, Rossi
disse que Frei Damião adorava jerimum (abóbora) com
leite. Sem reclamar, o capuchinho italiano comeu o mesmo prato durante
os três dias seguintes, nas três refeições.
Ao deixar o lugarejo, o companheiro debochou: Como é,
Frei Damião, gostou da comida? Em tom de apelo, ele
respondeu: Nunca mais faça isso, Fernando!
Contra a
minissaia Inimigo declarado do comunismo, do sexo antes do casamento
e da minissaia, Frei Damião espalhou seus milagres por mais
de 800 municípios. Nunca se queixou das dores, apenas das
limitações que a idade lhe impunha. Ele ficava
chorando no quarto por não poder seguir nas missões,
lembra o Frei Rinaldo Pereira, do Convento São Félix,
no Recife, onde o capuchinho morou nos últimos dez anos de
vida. Para arrancar-lhe alguns sorrisos, diziam que sua única
doença era uma tercite - o hábito constante
de rezar o terço. Morreu a 31 de maio de 1997, de problemas
pulmonares. Até os últimos dias, confessou todos os
fiéis que o procuravam. Sem café melado, mas com a
conversa cara a cara que o sertanejo nordestino entendia tão
bem.
VOCÊ
SABIA? Ingênuo, deixava os políticos se aproximarem
para tirar fotos ao lado dele, mais tarde usadas para estampar santinhos
de campanha. Num palanque montado para suas pregações
em Canafístula (Alagoas), os alicerces cederam com a superlotação
de políticos. Frei Damião ficou em situação
constrangedora: caiu no colo do prefeito. São e salvo, tratou
de tranquilizar os fiéis: Quebrei só o terço,
quebrei só o terço!
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