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4) Dom Paulo Evaristo Arns
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dos votos
Aqui
vive um corin-tiano feliz. A frase está escrita na
placa que dom Paulo pregou na porta da chácara de sua irmã
Otília, na região metropolitana de Curitiba, onde
costuma passar as férias. Ao lado da sentença está
a bucólica figura de um passarinho vestido com a camisa alvinegra
do time paulistano. Não perde uma final de campeonato disputada
pelo Timão e houve um tempo em que tinha a escalação
na ponta da língua. A paixão pelo futebol está
em dom Paulo Evaristo Arns desde a infância, quando jogava
bola com os irmãos em Forquilhinha, Santa Catarina (onde
nasceu a 14 de setembro de 1921). A prole de dona Helena e seu Gabriel,
13 filhos, formava um time completo - do qual Paulo era o zagueiro
-, com direito a técnico e preparador físico. Só
não virou um violinista de mão-cheia porque, no seminário,
desistiu das aulas de música por serem no mesmo horário
dos jogos entre os seminaristas, contou a ISTOÉ Zilda,
irmã do religioso.
Abismos deslizantes Durante os dez anos em que morou em Petrópolis
(RJ), onde foi pastor da igreja do bairro Itamarati, costumava acompanhar
alguns moradores das favelas adjacentes ao estádio, até
mesmo para evitar incidentes, uma vez que, se o Flamengo perdesse,
eles se embriagavam. Com dom Paulo por perto, ninguém tinha
coragem de arrumar confusão. Tão querido era nos morros
de Petrópolis que, mesmo depois da mudança do cardeal
para São Paulo, o povo continuava chamando qualquer padre
que subisse o morro de Frei Evaristo. Pudera, durante
as enchentes, ele era o primeiro a subir os abismos deslizantes,
sem medir consequências, na ânsia de salvar os fiéis.
Quando as equipes de resgate dos bombeiros chegavam, encontravam
dom Paulo nos telhados das casas ajudando as vítimas.
O garotinho
que, em Forquilhinha, saía na companhia da mãe peregrinando
pelos arredores da cidade levando remédios e comida aos pobres
e doentes não poderia ser outra coisa senão padre.
Não tinha o costume de ir à missa porque, no pequeno
vilarejo, não havia nenhum padre. Mas, acostumado que estava
a fazer caridade com a mãe, descobriu a vocação
logo cedo. Era o preferido da Filantra, nossa empregada, que
preparava ovos estralados com arroz especialmente para ele ,
lembra a irmã Otília. Aos 12 anos, deu adeus à
paparicação de Filantra e partiu para Curitiba, onde
foi cursar o Seminário Menor do Paraná. Formou-se
em Teologia no Instituto dos Franciscanos, em Petrópolis,
e rumou, em 1947, aos 26 anos, para Paris, onde estudou Letras na
Sorbonne. Depois de receber o mais alto grau - trés
honorabile - com a tese de doutoramento, A técnica
do livro de São Jerônimo, em 1952, voltou ao Brasil.
Honradez
Em 1966, o papa Paulo VI o fez bispo e, quatro anos depois, arcebispo
de São Paulo - a maior arquidiocese católica do mundo.
A primeira coisa que fez ao assumir o cargo, em 1970, foi vender
a residência oficial do arcebispado por 17 milhões
de cruzeiros e mudar-se para uma modesta casa, no bairro do Sumaré.
Com o dinheiro, comprou centenas de lotes na periferia da cidade
que viraram espaços para a comunidade rezar, discutir os
seus problemas e se divertir. Por essas e outras, foi tachado de
comunista e conquistou o ódio dos militares da ditadura,
embora os governantes o respeitassem, e muito, em virtude de sua
honradez e credibilidade. Respeito que ele soube aproveitar para
evitar prisões e torturas na época. Sua casa era um
verdadeiro muro de lamentações, onde mães e
amigos de presos e desaparecidos faziam vigília até
ser recebidos, na esperança de que o cardeal os ajudasse
na soltura. Dom Paulo atendia a todos e, embora não fosse
um santo milagreiro, muitas vezes sua luta nos bastidores da ditadura
era vitoriosa. Bons relacionamentos ajudavam, como o que tinha com
o general Golbery do Couto e Silva, a quem pediu insistentemente
pelo fim da censura na imprensa. Pagou pelo trabalho que deu aos
militares: o jornal O São Paulo, da Cúria Metropolitana,
foi o último a livrar-se dos censores.
A grande
família O espírito combativo de dom Paulo fez
da Igreja da Sé, no centro da capital paulista, onde rezava
suas missas, o ponto de encontro dos militantes da esquerda paulistana,
que ali se reuniram durante mais de dez anos para manifestar. Na
catedral, choraram a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1976,
e pediram a volta das eleições diretas, em 1985.
Nenhum
Natal, Ano Novo e Páscoa ele passa com a gente. A família
dele é o povo de São Paulo, disse a irmã
Zilda. Aos 77 anos, longe das pregações desde maio
de 1998, quando abandonou a arquidiocese, dom Paulo passa o tempo
recebendo homenagens, principalmente da família. Ou melhor,
do povo paulistano. E continua proferindo a velha frase que é
sua marca registrada. Ao despedir-se de qualquer pessoa, o cardeal
incentiva: Coragem, irmão, coragem.
VOCÊ
SABIA? Nos anos 70, o então comandante do II Exército,
Dilermando Gomes Monteiro, perguntou a dom Paulo se ele era mesmo
comunista, como se dizia. O cardeal, espirituoso, respondeu com
uma charada: Em São Paulo, milhares de carros andam
só com o motorista. Se cada automóvel levasse no mínimo
três pessoas, o tráfego não seria penoso. Na
minha opinião, a prioridade deveria ser o transporte coletivo.
O senhor acha que isso é comunismo? O general disse
que sim. O cardeal calou-se e, mais tarde, confidenciou a amigos:
Ele deve estar maluco
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