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O Brasileiro do Século

20) Dom Ivo Lorscheiter
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Dom José Ivo Lorscheiter quase não desembarcou neste mundo. No momento do parto, os médicos viram nascer Lúcia, gêmea do religioso, e não perceberam que havia outro bebê a caminho. Ele quase morreu asfixiado. Não foi a única vez em que correu perigo. Quando estudava Teologia na Universidade Gregoriana de Roma, nos anos 50, ao participar de um jogo de futebol (é torcedor fanático do Grêmio, de Porto Alegre, embora evite tocar no assunto para não melindrar os fiéis do rival Internacional), levou uma bolada na barriga e, de novo, quase morreu, vítima de inflamação do peritônio (camada que reveste o intestino). Em 1974, retirou o baço um dia após tomar posse como bispo diocesano de Santa Maria (RS). “A saúde é frágil. Com a idade, ficou diabético e tem problemas cardíacos. Embora seja um paciente dócil que não recusa dieta, para impedir que ele saia pelas estradas de terra para visitar as 38 paróquias e mais de 800 capelas da região, só amarrando numa cadeira”, diz irmã Cecília Dhamer, sua enfermeira.

Nascido a 7 de dezembro de 1927 em São José do Hortencio, o bispo é de uma família de pequenos agricultores descendentes de alemães. Tem sete irmãos (um deles é jesuíta no Japão). É primo de dom Aloisio Lorscheider. A troca do t pelo d no sobrenome teria sido um lapso do tabelião do cartório. Resta saber qual cartório errou. “O primeiro registro da família no Brasil é com t”, garantiu dom Ivo a ISTOÉ.

Poliglota A origem familiar desse gaúcho corpulento - 1,80m de altura e 90 quilos - contribuiu para firmar suas convicções sobre a reforma agrária. “Ele defende a função social da terra sem esmorecer”, diz o advogado José Cabas, de Santa Maria (RS). Poliglota (fala cinco idiomas) e ligado aos progressistas, cumpriu dois mandatos como secretário-geral e outros dois como presidente da CNBB durante o regime militar. “Naquele tempo era mais fácil definir os campos porque a ditadura não tinha benevolência. Hoje, todos falam em democracia”, afirma dom Ivo.

VOCÊ SABIA? Candidato à Presidência, Figueiredo exigiu falar com dom Aloisio, combalido no hospital. Dom Ivo não deixou e o general ficou irado. “Foi uma crisezinha. Faltou elegância”, diz dom Ivo.