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O Brasileiro do Século

2) Dom Helder Camara
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É começo de madrugada. Nenhum foco de luz atravessa as frestas da porta verde de madeira da Igreja das Fronteiras (metralhada duas vezes durante a ditadura militar), no Recife. Pontualmente às duas horas, passos curtos interrompem o silêncio. Num ritual que se repete quase diariamente, há mais de 67 anos, o arcebispo emérito de Olinda e Recife, dom Helder Pessoa Camara, acorda para a vigília de oração e reflexão. Desde que foi ordenado padre, em 1931, foram 7.547 meditações escritas de madrugada - sem contar as centenas que ele jogou no lixo - sobre os mais variados assuntos: a fé em Deus, em Cristo e em Maria, as asas quebradas de um passarinho, a crença no amor dos homens, a esperança na justiça social. Hoje, debilitadas, as mãos trêmulas do religioso já não conseguem mais escrever. Mas continuam abençoando como se estivessem comandando uma orquestra. O carisma e a vontade de ajudar continuam estampados em seu rosto, embora os olhos caídos denunciem as décadas de luta incessante pelos direitos da gente simples.

Décimo primeiro filho de uma professora primária e um guarda-livros maçom, o nome foi escolhido ao sabor do acaso - o pai abriu o atlas geográfico e pousou o dedo indicador sobre uma localidade da Holanda, Helder, ou "céu limpo". Nascido a 7 de fevereiro de 1909, em Fortaleza, uma das brincadeiras preferidas do menino era ir à feira com o irmão mais velho, Mardônio, e voltar para a casa cheio de pitombas. Sorrateiramente, depois de chupar a fruta nordestina, subiam até o solar do sobrado em que moravam e se divertiam atirando as sementes nos pedestres.

Erro de juventude O tom irresistivelmente aliciador de sua pregação não demorou a surgir. Ainda no seminário, empolgado com a radicalização política dos anos 30, juntou-se às fileiras do integralismo (organização de extrema direita). "Foi meu erro de juventude", confessaria mais tarde. Aos 26 anos, foi nomeado diretor da Instrução Pública do Ceará. Irritado com as ingerências do governo em seu trabalho, o padre magricela e baixinho (mede 1,60m) pediu demissão e foi para o Rio de Janeiro. Na casa onde morava em Botafogo, com a família que viera de Fortaleza, Helder tinha uma empregada de confiança, a quem costumava dar uma gorjeta. Esperava um momento de distração, aproximava-se da moça e berrava no pé do ouvido: "Olha a barata, Maria!", e jogava algumas notas.
No Rio, como arcebispo-auxiliar, organizou o Congresso Eucarístico de 1955. Um cardeal francês, impressionado com a magnitude do evento (um milhão de pessoas), perguntou: "Não é irritante ver esse fausto religioso num lugar rodeado de favelas?" Daí em diante, Helder - principal articulador da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), criada em 1952 - passou a desenvolver gigantescos programas sociais. Batia na porta dos ricos e reclamava se eles não oferecessem ajuda. "As camisas dele sumiam e só quando abríamos o guarda-roupa notávamos que haviam sido dadas aos pobres", conta a secretária Maria José Duperron Cavalcanti, que o acompanha há 35 anos.

Operação Esperança Na época, era chamado de "bispo vermelho", imagem fortalecida com as idéias progressistas que defendeu no Concílio Vaticano II. Transferido para a Arquidiocese de Olinda e Recife devido às pressões políticas, nem as ameaças a seus colaboradores e o assassinato de um padre o fizeram calar-se. Deu início a um dos maiores programas sociais já visto no Nordeste, a Operação Esperança, ajudando os flagelados das enchentes e incentivando o surgimento de lideranças populares para transcender o mero assistencialismo.

As obras de dom Helder repercutiram internacionalmente. Em 1970, reuniu mais de 20 mil pessoas em Paris para denunciar torturas no Brasil. Foi indicado quatro vezes ao prêmio Nobel da Paz (entre 1970 e 1973). Em todas elas, era favorito absoluto, mas a pressão do governo brasileiro funcionou e o arcebispo nunca levou o prêmio.

Aos 90 anos, a retórica vibrante de dom Helder rendeu-se à degeneração da idade. Ao receber a reportagem de ISTOÉ, sereno, de repente os olhos se umedecem, uma lágrima percorre a face marcada e é absorvida pela enorme batina branca, enquanto ele observa o vazio. "Há muita coisa errada, mas também há coisas lindas na vida", esforça-se em dizer, para calar-se por longos minutos, as mãos finas batendo na mesa à procura de alguém que acompanhe seu raciocínio.

VOCÊ SABIA? Antigo frequentador dos teatros cariocas, é fã incondicional de Bibi Ferreira. Também adora música. No Rio, os amigos o levavam para ouvir Francisco José, cantor português em voga na noite dos anos 50. Mas suas canções favoritas são, sem sombra de dúvida, as de Elizete Cardoso. Para agradar ao arcebispo de Olinda e Recife, basta cantarolar um sucesso da Divina. Ele certamente acompanhará a cantoria.