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2) Dom Helder Camara
69,91%
dos votos
É
começo de madrugada. Nenhum foco de luz atravessa as frestas
da porta verde de madeira da Igreja das Fronteiras (metralhada duas
vezes durante a ditadura militar), no Recife. Pontualmente às
duas horas, passos curtos interrompem o silêncio. Num ritual
que se repete quase diariamente, há mais de 67 anos, o arcebispo
emérito de Olinda e Recife, dom Helder Pessoa Camara, acorda
para a vigília de oração e reflexão.
Desde que foi ordenado padre, em 1931, foram 7.547 meditações
escritas de madrugada - sem contar as centenas que ele jogou no
lixo - sobre os mais variados assuntos: a fé em Deus, em
Cristo e em Maria, as asas quebradas de um passarinho, a crença
no amor dos homens, a esperança na justiça social.
Hoje, debilitadas, as mãos trêmulas do religioso já
não conseguem mais escrever. Mas continuam abençoando
como se estivessem comandando uma orquestra. O carisma e a vontade
de ajudar continuam estampados em seu rosto, embora os olhos caídos
denunciem as décadas de luta incessante pelos direitos da
gente simples.
Décimo
primeiro filho de uma professora primária e um guarda-livros
maçom, o nome foi escolhido ao sabor do acaso - o pai abriu
o atlas geográfico e pousou o dedo indicador sobre uma localidade
da Holanda, Helder, ou "céu limpo". Nascido a 7
de fevereiro de 1909, em Fortaleza, uma das brincadeiras preferidas
do menino era ir à feira com o irmão mais velho, Mardônio,
e voltar para a casa cheio de pitombas. Sorrateiramente, depois
de chupar a fruta nordestina, subiam até o solar do sobrado
em que moravam e se divertiam atirando as sementes nos pedestres.
Erro de juventude
O tom irresistivelmente aliciador de sua pregação
não demorou a surgir. Ainda no seminário, empolgado
com a radicalização política dos anos 30, juntou-se
às fileiras do integralismo (organização de
extrema direita). "Foi meu erro de juventude", confessaria
mais tarde. Aos 26 anos, foi nomeado diretor da Instrução
Pública do Ceará. Irritado com as ingerências
do governo em seu trabalho, o padre magricela e baixinho (mede 1,60m)
pediu demissão e foi para o Rio de Janeiro. Na casa onde
morava em Botafogo, com a família que viera de Fortaleza,
Helder tinha uma empregada de confiança, a quem costumava
dar uma gorjeta. Esperava um momento de distração,
aproximava-se da moça e berrava no pé do ouvido: "Olha
a barata, Maria!", e jogava algumas notas.
No Rio, como arcebispo-auxiliar, organizou o Congresso Eucarístico
de 1955. Um cardeal francês, impressionado com a magnitude
do evento (um milhão de pessoas), perguntou: "Não
é irritante ver esse fausto religioso num lugar rodeado de
favelas?" Daí em diante, Helder - principal articulador
da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), criada
em 1952 - passou a desenvolver gigantescos programas sociais. Batia
na porta dos ricos e reclamava se eles não oferecessem ajuda.
"As camisas dele sumiam e só quando abríamos
o guarda-roupa notávamos que haviam sido dadas aos pobres",
conta a secretária Maria José Duperron Cavalcanti,
que o acompanha há 35 anos.
Operação
Esperança Na época, era chamado de "bispo
vermelho", imagem fortalecida com as idéias progressistas
que defendeu no Concílio Vaticano II. Transferido para a
Arquidiocese de Olinda e Recife devido às pressões
políticas, nem as ameaças a seus colaboradores e o
assassinato de um padre o fizeram calar-se. Deu início a
um dos maiores programas sociais já visto no Nordeste, a
Operação Esperança, ajudando os flagelados
das enchentes e incentivando o surgimento de lideranças populares
para transcender o mero assistencialismo.
As obras de
dom Helder repercutiram internacionalmente. Em 1970, reuniu mais
de 20 mil pessoas em Paris para denunciar torturas no Brasil. Foi
indicado quatro vezes ao prêmio Nobel da Paz (entre 1970 e
1973). Em todas elas, era favorito absoluto, mas a pressão
do governo brasileiro funcionou e o arcebispo nunca levou o prêmio.
Aos 90 anos,
a retórica vibrante de dom Helder rendeu-se à degeneração
da idade. Ao receber a reportagem de ISTOÉ, sereno, de repente
os olhos se umedecem, uma lágrima percorre a face marcada
e é absorvida pela enorme batina branca, enquanto ele observa
o vazio. "Há muita coisa errada, mas também há
coisas lindas na vida", esforça-se em dizer, para calar-se
por longos minutos, as mãos finas batendo na mesa à
procura de alguém que acompanhe seu raciocínio.
VOCÊ
SABIA? Antigo frequentador dos teatros cariocas, é fã
incondicional de Bibi Ferreira. Também adora música.
No Rio, os amigos o levavam para ouvir Francisco José, cantor
português em voga na noite dos anos 50. Mas suas canções
favoritas são, sem sombra de dúvida, as de Elizete
Cardoso. Para agradar ao arcebispo de Olinda e Recife, basta cantarolar
um sucesso da Divina. Ele certamente acompanhará a cantoria.
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