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O Brasileiro do Século

18) Henry Sobel
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Varava a madrugada fria de Nova York namorando e, ao voltar para casa, tentava enganar o patriarca da família com o velho truque de andar nas pontas dos pés. “Henry, vamos estudar!”, gritava do quarto o pai, Lasar Sobel, que estava à sua espera. O motivo para tamanho sacrifício era justo. O jovem Henry se preparava para defender a tese de dourado na Hebrew Union College Jewish Institute of Religion, universidade que o formou rabino, em 1970 no mesmo ano em que viria para o Brasil. Além da religiosidade, diz que herdou do pai a sabedoria; da mãe, ficou com a vaidade. Antes de ser fotografado, até hoje, pede licença para conferir no espelho se os cabelos estão devidamente alinhados.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os pais fugiram da Bélgica para Lisboa, Portugal, onde Henry nasceu a 9 de janeiro de 1944. Era ainda um bebê de colo quando a família mudou para Nova York. Todos ganharam a cidadania americana. Na adolescência, morava em frente ao Central Park. Sobel não perdia nenhum show de rock, de preferência os de Simon e Garfunkel, em plena efervescência cultural e política, em 1968. Henry amanhecia no parque enrolado em cobertores, “pensando em fazer algo pela humanidade”, como ele disse a ISTOÉ. Disposto a ser um “revolucionário”, começou levantando uma bandeira contra a intervenção americana no Vietnã, ao lado de jovens rabinos. Os religiosos rebeldes conseguiram até ser recebidos pelo vice-presidente Lindon Johnson, em Washington (EUA), em 1966. Naquele momento, sentiu-se muito importante. “Eu era o porta-voz da opinião pública americana.”

Aventura Em 1970, aceitou o convite da Congregação Israelita Paulista (CIP) para ser rabino em São Paulo. “Foi um ato de impulsividade sensata, embora na época eu desconfiasse que era uma aventura e tanto”, diz Sobel, para quem o clima, os hábitos e a comida pouco fizeram diferença. “Só não me acostumei até hoje com os buracos das ruas.” Henry Sobel confessa que o futebol o fez perder algumas horas preciosas - tentando domesticar a pelota, em vão. “Eu fazia questão de homenagear os brasileiros aprendendo seu futebol, mas foi impossível.”

A princípio, foi designado rabino da CIP por dois anos, mas desde então já se passaram 29. Quando aqui chegou, colocou os princípios do judaísmo a serviço de uma boa causa, a da redemocratização do País. É até hoje um dos religiosos mais respeitados no País por sua honradez e credibilidade.

VOCÊ SABIA? Embora nascido em Lisboa, tropeçou durante muito tempo na língua portuguesa. Nas celebrações na sinagoga, os fiéis gritavam em coro a tradução
das palavras do inglês para ajudá-lo.