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O Brasileiro do Século

15) Dom Lucas Moreira Neves
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Na Procissão de Ramos, milhares de fiéis caminham três quilômetros pelo centro de Salvador, todos os anos, durante a Semana Santa. Em 1996, a rotina foi quebrada por alguns fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus, que desfilaram no meio da multidão de 80 mil pes-soas e distribuíram jornais da entidade entre os católicos. Dom Lucas Moreira Neves, então arcebispo de Salvador, ao celebrar a missa que encerrava a procissão, disse em alto e bom som, dirigindo-se aos evangélicos desrespeitosos: “Isso não é ser evangélico, é ser pagão. Mas vamos responder a essa provocação pedindo a Deus que esses irmãos se convertam à Igreja Católica.”

Primo de Tancredo A frase é só mais uma entre as centenas de declarações bombásticas que dom Lucas já deu em sermões e entrevistas. A rígida educação mineira deste cardeal nascido em São João Del Rey (a 16 de setembro de 1925), primo distante de Tancredo Neves - de quem, como costuma dizer, “era mais amigo do que parente” -, fez dele um homem de idéias conservadoras. Mas o jeito afável e a boa conversa conquistam qualquer um, até o papa. Dom Lucas conheceu João Paulo II em 1974, quando ele ainda era chamado de Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, na Polônia. Por causa da estreita amizade entre os dois, surgiram boatos, em 1995, no meio eclesiástico, de que o cardeal brasileiro seria o possível sucessor de João Paulo II. Na época, dom Lucas negou com bom humor as cogitações: “Eu, papa? Só se galinha nascer com dente!”

Ordenado padre pela Ordem dos Dominicanos em 1950, estudou Teologia na França e, de volta ao Brasil, foi nomeado bispo de São João Del Rey, onde ficou poucos meses. Transferiu-se para São Paulo e foi trabalhar como bispo auxiliar de dom Paulo Evaristo Arns. Ficou na capital paulista até 1974, quando foi chamado pelo papa João VI a ocupar a vice-presidência do Pontifício Conselho para os Leigos, em Roma. Exerceu por lá também a função de secretário da Congregação dos Bispos, entidade da qual é presidente desde o ano passado, controlando 4,6 mil religio-sos de todo o mundo. O talento e a disposição para exercer inúmeras atividades ao mesmo tempo vieram do pai, que era, ao mesmo tempo, sapateiro, músico de orquestra e bibliotecário em São João Del Rey. Dom Lucas não é diferente. No Vaticano, já chegou a ocupar, simultaneamente, oito cargos.

Mesmo sendo neto de escravos africanos, quando assumiu a arquidiocese de Salvador, em 1987, deu muito trabalho aos terreiros de umbanda e blocos de música negra da cidade. Militou contra o sincretismo entre ritos católicos e africanos e não perdoou sequer a tradicional festa da Lavagem do Bonfim, que considera um “grito de carnaval cheio de bebedeira e violência”. As posições conservadoras já lhe renderam muitas inimizades no Brasil, entre elas a do ex-frei progressista Leonardo Boff. No entanto, foram as mesmas idéias que lhe abriram as portas do Vaticano, onde já morou mais de 15 anos, entre idas e vindas.

Fantasia completa Embora não seja um telespectador assíduo - gosta só dos telejornais da noite e muda de canal nos intervalos -, quando assistiu, por acaso, à propaganda de uma campanha pelo uso da camisinha no Carnaval, cujo slogan era “use a fantasia completa”, -indignou-se profundamente e resolveu promover uma verdadeira guerra pela moralização da tevê. “O que eu mais critico é a vulgaridade dos programas, que não melhoram a cultura e o espírito das pessoas”, disse na época. Nada mais natural para um cardeal que acredita que a função da Igreja no Brasil é a evangelização, para combater a disseminação de seitas. Quando assumiu a presidência da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1998 (depois de ter concorrido ao mesmo cargo e perdido em 1991), facilitou o fim da inimizade entre a entidade e o Vaticano, alimentada durante o período do regime militar. Sua eleição preocupou os bispos e padres progressistas, que pensaram chegar ao fim os trabalhos de assistência social da CNBB. Mas assim que sentou na nova cadeira, dom Lucas fez questão de acalmá-los: “Não vamos abandonar o projeto de integração dos ex-cluídos.” E, de fato, não o fez. Em 1997, recriminou a atitude do presidente Fernando Henrique, que em visita ao papa criticou o apoio dos bispos brasileiros ao Movimento dos Sem-Terra.

É membro da Academia Brasileira de Letras desde 1996. Dom Lucas, entretanto, dificilmente frequenta os famosos chás semanais promovidos pelos imortais. Até porque vive em Roma desde o ano passado, já não rejeita mais, como em outros tempos, a classificação de conservador. “De fato sou conservador. Quero conservar a fé católica, apostólica, romana. Quero manter a liturgia como ela é, não uma liturgia politizada.”

VOCÊ SABIA? Quando era arcebispo de Salvador, dom Lucas sempre liberou os fiéis da abstinência de carne na Semana Santa. Segundo ele, os pobres da capital baiana faziam jejum raticamente o ano inteiro. O cardeal ainda dava entrevistas nos veículos de comunicação dizendo: “Comam carne, pelo amor de Deus, porque o peixe está muito caro!”