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15) Dom Lucas Moreira Neves
23,19%
dos votos
Na
Procissão de Ramos, milhares de fiéis caminham três
quilômetros pelo centro de Salvador, todos os anos, durante
a Semana Santa. Em 1996, a rotina foi quebrada por alguns fiéis
da Igreja Universal do Reino de Deus, que desfilaram no meio da
multidão de 80 mil pes-soas e distribuíram jornais
da entidade entre os católicos. Dom Lucas Moreira Neves,
então arcebispo de Salvador, ao celebrar a missa que encerrava
a procissão, disse em alto e bom som, dirigindo-se aos evangélicos
desrespeitosos: Isso não é ser evangélico,
é ser pagão. Mas vamos responder a essa provocação
pedindo a Deus que esses irmãos se convertam à Igreja
Católica.
Primo de
Tancredo A frase é só mais uma entre as centenas
de declarações bombásticas que dom Lucas já
deu em sermões e entrevistas. A rígida educação
mineira deste cardeal nascido em São João Del Rey
(a 16 de setembro de 1925), primo distante de Tancredo Neves - de
quem, como costuma dizer, era mais amigo do que parente
-, fez dele um homem de idéias conservadoras. Mas o jeito
afável e a boa conversa conquistam qualquer um, até
o papa. Dom Lucas conheceu João Paulo II em 1974, quando
ele ainda era chamado de Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia,
na Polônia. Por causa da estreita amizade entre os dois, surgiram
boatos, em 1995, no meio eclesiástico, de que o cardeal brasileiro
seria o possível sucessor de João Paulo II. Na época,
dom Lucas negou com bom humor as cogitações: Eu,
papa? Só se galinha nascer com dente!
Ordenado padre
pela Ordem dos Dominicanos em 1950, estudou Teologia na França
e, de volta ao Brasil, foi nomeado bispo de São João
Del Rey, onde ficou poucos meses. Transferiu-se para São
Paulo e foi trabalhar como bispo auxiliar de dom Paulo Evaristo
Arns. Ficou na capital paulista até 1974, quando foi chamado
pelo papa João VI a ocupar a vice-presidência do Pontifício
Conselho para os Leigos, em Roma. Exerceu por lá também
a função de secretário da Congregação
dos Bispos, entidade da qual é presidente desde o ano passado,
controlando 4,6 mil religio-sos de todo o mundo. O talento e a disposição
para exercer inúmeras atividades ao mesmo tempo vieram do
pai, que era, ao mesmo tempo, sapateiro, músico de orquestra
e bibliotecário em São João Del Rey. Dom Lucas
não é diferente. No Vaticano, já chegou a ocupar,
simultaneamente, oito cargos.
Mesmo sendo
neto de escravos africanos, quando assumiu a arquidiocese de Salvador,
em 1987, deu muito trabalho aos terreiros de umbanda e blocos de
música negra da cidade. Militou contra o sincretismo entre
ritos católicos e africanos e não perdoou sequer a
tradicional festa da Lavagem do Bonfim, que considera um grito
de carnaval cheio de bebedeira e violência. As posições
conservadoras já lhe renderam muitas inimizades no Brasil,
entre elas a do ex-frei progressista Leonardo Boff. No entanto,
foram as mesmas idéias que lhe abriram as portas do Vaticano,
onde já morou mais de 15 anos, entre idas e vindas.
Fantasia
completa Embora não seja um telespectador assíduo
- gosta só dos telejornais da noite e muda de canal nos intervalos
-, quando assistiu, por acaso, à propaganda de uma campanha
pelo uso da camisinha no Carnaval, cujo slogan era use a fantasia
completa, -indignou-se profundamente e resolveu promover uma
verdadeira guerra pela moralização da tevê.
O que eu mais critico é a vulgaridade dos programas,
que não melhoram a cultura e o espírito das pessoas,
disse na época. Nada mais natural para um cardeal que acredita
que a função da Igreja no Brasil é a evangelização,
para combater a disseminação de seitas. Quando assumiu
a presidência da Confederação Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), em 1998 (depois de ter concorrido ao mesmo cargo
e perdido em 1991), facilitou o fim da inimizade entre a entidade
e o Vaticano, alimentada durante o período do regime militar.
Sua eleição preocupou os bispos e padres progressistas,
que pensaram chegar ao fim os trabalhos de assistência social
da CNBB. Mas assim que sentou na nova cadeira, dom Lucas fez questão
de acalmá-los: Não vamos abandonar o projeto
de integração dos ex-cluídos. E, de fato,
não o fez. Em 1997, recriminou a atitude do presidente Fernando
Henrique, que em visita ao papa criticou o apoio dos bispos brasileiros
ao Movimento dos Sem-Terra.
É membro
da Academia Brasileira de Letras desde 1996. Dom Lucas, entretanto,
dificilmente frequenta os famosos chás semanais promovidos
pelos imortais. Até porque vive em Roma desde o ano passado,
já não rejeita mais, como em outros tempos, a classificação
de conservador. De fato sou conservador. Quero conservar a
fé católica, apostólica, romana. Quero manter
a liturgia como ela é, não uma liturgia politizada.
VOCÊ
SABIA? Quando era arcebispo de Salvador, dom Lucas sempre liberou
os fiéis da abstinência de carne na Semana Santa. Segundo
ele, os pobres da capital baiana faziam jejum raticamente o ano
inteiro. O cardeal ainda dava entrevistas nos veículos de
comunicação dizendo: Comam carne, pelo amor
de Deus, porque o peixe está muito caro!
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