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O Brasileiro do Século

14) Alziro Zarur
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Foi sem maiores pretensões, exceto narrar fábulas em que o bem sempre vencia o mal, que o ecumênico Alziro Zarur lançou na rádio carioca Mayrink Veiga “Aventuras de Sher-lock Holmes”, nos anos 40. Líder em audiência, o programa foi o estopim da fundação da Legião da Boa Vontade (LBV), hoje uma das mais importantes instituições de caridade do País. As histórias narradas ao microfone ele inventava. Não se furtava a recitar versos de seu próprio punho, talento que desenvolveu desde os sete anos, quando já era capaz de compor sonetos, muitos deles em latim. Na adolescência, Zarur (nascido no Rio de Janeiro a 25 de dezembro de 1914) foi estudante do Colégio Pedro II, em Botafogo, período em que, ao lado de um de seus maiores amigos, o fonoaudiólogo Pedro -Bloch, fundou o Jornal Ciências e Letras, no final da década de 20. No espaço reservado à publicação de suas crônicas, Zarur se declarava um defensor da paz e do ecumenismo. Esta foi a receita que seguiu à risca a vida inteira.

Sinal divino A caridade era sua principal virtude, tanto que o seu apelido era “Bom Coração” desde a mocidade. O sucesso dos programas de rádio o transformaram no profissional de maior salário do meio. Era o primeiro a ser pago e seus proventos nunca atrasavam, coisa rara na época. Com pena dos demais funcioná-rios, emprestava uma gorda fatia do salário aos colegas todos os meses. Apesar de não abraçar nenhuma religião, Zarur sentia vontade de construir uma instituição de caridade. Mas, como era de sua índole, esperava um sinal divino.

Nunca recusava convites de amigos e até mesmo de estranhos para conhecer igrejas, fossem elas católicas, protestantes, budistas, umbandistas ou centros espíritas. E foi num desses convites inesperados que Zarur participou de uma reunião mediúnica na Federação Espírita Brasileira (FEB), no Rio, em 1948. Se ainda restava alguma dúvida sobre a sina que deveria seguir, ali ela foi extinta. Emília Ribeiro, um dos grandes nomes da mediunidade no Brasil na época, olhou o visitante e pronunciou: “Zarur, eu vi São Francisco de Assis a seu lado o tempo todo e ele disse que é hora de começar.” Surpreendido, Zarur acreditou receber o sinal que tanto esperava. Quis conhecer melhor a história do santo e, ao sair da FEB, entrou logo numa livraria. Levou um livro para casa e o devorou no mesmo dia. No decorrer da leitura, visões foram surgindo e Zarur, confuso, preferiu esclarecê-las com o grande médium Chico Xavier.

No dia seguinte, viajou até Pedro Leopoldo (MG), onde morava o médium. Os espíritas Bezerra de Menezes, André Luiz e Emmanuel, psicografados por Chico Xavier, confirmaram a missão e fortaleceram a coragem de Zarur. Ele deveria dar vida a um sonho antigo - fundar uma instituição de caridade. De volta ao Rio, anunciou no seu programa A hora da boa vontade, na Rádio Globo, em 1949, a criação da Legião da Boa Vontade (LBV), instituição ecumênica.

Dom da palavra Os primeiros tempos foram difíceis, mas soube driblar as adversidades. Para expandir sua obra, se valeu especialmente de seu dom da palavra e do poder de comunicação da mídia (não largou o microfone até o final da vida). Além disso, contou com o apoio de vários jornais, empenhados em elogiar sua iniciativa. Atualmente, a LBV conta com 552 unidades no Brasil - está presente também nos Estados Unidos, em Portugal, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. A prioridade são os idosos e as crianças abandonadas.

A LBV abriu asilos e creches e lançou campanhas do agasalho e de distribuição de alimentos, além de investir na capacitação profissional e na educação de ensino médio.

Quando Zarur morreu, a 21 de outubro de 1979, de parada cardíaca, as bases do sucesso da LBV estavam alicerçadas. Seu sucessor foi José de Paiva Netto, que dirige a instituição até hoje. Uma prova do reconhecimento internacional veio este ano, quando a LBV foi eleita por 28 paí-ses pertencentes ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas (ONU) e se tornou a entidade representante da Missão Permanente do Governo Brasileiro, ajudando a implementar projetos de interesse mundial.

VOCÊ SABIA? Zarur passou a mandar pessoas carentes ao consultório médico do amigo de infância, Pedro Bloch, conceituado fonoaudiólogo carioca. Bloch nunca cobrou as consultas, mas Zarur insistia em pagar com dinheiro do próprio bolso. Diante da recusa de Bloch, ele deu um jeito de pagar a conta. Enviou uma caixa repleta de livros de medicina, os mais atualizados da época.