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O Brasileiro do Século

13) Dom Pedro Casaldáliga
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Apaixonado por índios, posseiros, negros e peões, ele sempre foi um ardoroso combatente das injustiças sociais e políticas e já teve a cabeça colocada a prêmio diversas vezes por adversários da reforma agrária. Sua pregação incomodou meio mundo: fazendeiros, grandes latifundiários, o governo militar e até a Santa Sé. Nascido em Balsanery, Barcelona (a 16 de fevereiro de 1928), dom Pedro Casaldáliga vive há 31 anos no Brasil, numa região rural de muita poeira e barro. Bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, em Mato Grosso, sempre esteve entre os humildes. “Tenho paixão pelos pobres e perseguidos”, disse emocionado a ISTOÉ.

“O povo gosta de mim” Missionário da Ordem dos Claretianos, na ditadura foi acusado de comunista e os militares tentaram expulsá-lo do País cinco vezes. Defendendo a Teologia da libertação (doutrina que prega o combate à miséria como prio-ridade na pregação do Evangelho), tornou-se um dos principais líderes da corrente progressista da Igreja brasileira. Desde que chegou por aqui, nunca mais voltou para a Espanha e é em São Félix que deseja morrer. “Não pretendo sair daqui. Gosto do povo, o povo gosta de mim.” Bem-humorado, dom Pedro riu quando soube que foi escolhido como um dos Religiosos do Século pelos leitores de ISTOÉ. “Como eu me conheço muito bem e Deus também, sei que a escolha não foi por mim, mas pela causa.”

Ameaças de morte Com ele, o Araguaia melhorou. “Antes não tinha nem estrada. Hoje tem correio, telefone, eletricidade, sindicato e o povo cresceu em cons-ciência e organização.” Mas as mazelas sociais ainda são gritantes. Continua firme pregando e organizando as comunidades. “Luto pelos direitos humanos, escrevo artigos, rezo. Tenho esperanças e sonhos.” Atitudes assim já lhe renderam muitas intranquilidades. Como um dos fundadores da Comissão Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Missio-nário, viu seus padres serem presos durante a ditadura e presenciou a morte do jesuíta João Bosco Penido Burnier por policiais de Mato Grosso, num protesto contra a tortura. Na década de 80, cansou de receber ameaças de morte. Pistoleiros traziam recados vindos dos fazendeiros.

O Vaticano nunca tolerou suas audácias. Por pouco não foi punido com o “silêncio obsequioso” que foi aplicado a Leonardo Boff. Roma chiou por causa de sua recusa em visitar o papa João Paulo II - os bispos são obrigados a fazê-lo de cinco em cinco anos. Para dom Pedro, as causas pelas quais lutava eram mais urgentes. Só em julho de 1988 realizou, pela primeira vez, depois de 17 anos como bispo, a visita ao chefe da Igreja. Submetido a interrogatório sobre aspectos doutrinários, pastorais e políticos de sua atuação, foi censurado por ter apoiado o regime sandinista da Nicarágua e as forças de oposição em El Salvador, Guatemala e Honduras.

Durante o interrogatório, os cardeais quiseram que ele assinasse documentos aceitando as censuras recebidas. Decidido, o bispo recusou-se a cumprir a ordem. Na mesma viagem, só esteve com o papa durante 15 minutos. Dois meses depois, uma carta do Vaticano mandava dom Pedro parar de dar entrevistas e de viajar pela América Central, principalmente à Nicarágua. Mas ele não obedeceu pois o documento sequer tinha assinatura e selo oficial.
Aos 71 anos, ele confessa: “Sou impaciente, não faço as minhas orações muito bem e deveria confiar mais em Deus.” Bom de briga, ele não foge da raia. “Continuo acreditando que a vida de um bispo não vale mais do que a vida de um peão.”

VOCÊ SABIA? Viajando de ônibus, de madrugada, pediu para descer a fim de fazer xixi. O motorista não entendeu o português enrolado do espanhol e o deixou na estrada. Perdido, dom Pedro bateu à porta de um barraco de peões e apresentou-se como bispo. Os homens caíram na risada: “Ah, é? Então, nós somos o papa”.