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12) DOM ALOISIO LORSCHEIDER
29,58%
dos votos
Nem
bombas caseiras atiradas no jardim de sua casa nem os três
sustos que seu coração lhe deu - chegou a receber
quatro pontes de safena - fizeram este homenzarrão gaúcho
de 1,95m cair por terra. Neto de alemães, d. Aloisio nasceu
na pequena cidade de Estrela, a 8 de outubro de 1924, e aos nove
anos, antes que se apaixonasse por alguma garotinha, tomou a decisão
de ser padre. Entrou para o seminário, em Taquari (RS), estimulado
pelos pais, e sua ascensão na Igreja foi meteórica.
Com apenas 50 anos, tornou-se o primeiro, e até hoje único,
eclesiástico brasileiro candidato a papa. No pleito de 1974
que decidiu quem seria o sucessor de Paulo VI, perdeu para João
Paulo I, que confessou ter votado em d. Aloisio. Corre à
boca pequena que se o novo papa não tivesse morrido 33 dias
após sua eleição, teria nomeado o brasileiro
para o cargo de secretário de Estado do Vaticano, o segundo
posto mais importante da Cúria romana. Mais tarde, soube-se
que o próprio d. Aloisio havia feito uma sofisticada articulação
entre seus colegas para que não recebesse votos.
Quando conversa,
tem a fala mansa e os gestos angelicais. Mas desfigura-se se o assunto
for as mazelas sociais do País. Enérgico, nunca admitiu
interferências de quem quer que fosse na sua guerra em defesa
dos direitos humanos. Nem uma carta-advertência enviada ao
cardeal, em 1988, pelo papa João Paulo II intimidou d. Aloisio.
Velho conhecido dos generais da ditadura, travou uma luta incansável
pela redemocratização do Brasil e pelo fim das torturas.
Foram atitudes
assim que fizeram do cardeal uma unanimidade no coração
do povo brasileiro. No entanto, dentro da Igreja a situação
é diferente. Assumindo posturas para lá de polêmicas,
como a defesa da ordenação dos padres casados, nunca
agradou a gregos e troianos e arrumou problemas por onde pregou.
No início dos anos 70, os latifundiários do Ceará
conheciam sua fama de progressista e já esperavam enfrentar
problemas quando d. Aloisio tornou-se arcebispo de Fortaleza. Mas
não contavam com a intensa campanha promovida por ele em
favor da reforma agrária e pelo fim dos conflitos de terra
no Estado. Naquela época, estava em sua primeira gestão
como presidente da Confederação Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), onde ficaria até 1979. Mas nem o importante
cargo que ocupava evitou que sofresse toda sorte de represálias.
Os desaforos aos poderosos da região renderam ao bispo incontáveis
ameaças de morte, dois cachorros envenenados e a explosão
de uma bomba caseira no jardim de sua casa. Em outra ocasião,
três homens armados tentaram entrar em seu quarto, mas, graças
a Deus, foram descobertos a tempo.
Como se não
bastassem os incômodos causados pelos fazendeiros, o cardeal
foi vítima de um covarde ato de violência. Em março
de 1994, ele fazia uma de suas rotineiras visitas matutinas ao Instituto
Penal Paulo Salasate, em Fortaleza, onde verificava as condições
de sobrevivência dos detentos. Enquanto discursava no auditório
insalubre, a luz apagou e um repórter que acompanhava a visita
ouviu murmúrios na platéia. Tudo indicava que os presos
estavam conspirando. Alguns segundos bastaram para que dois deles
dominassem d. Aloisio com uma gravata e instaurassem a rebelião.
Arrastado para debaixo de uma mesa, a primeira coisa que o cardeal
fez foi pedir aos rebelados que fosse o último refém
a ser libertado. Pedido atendido, mas 18 horas depois. Mais tarde,
respondendo aos comentários de um deputado sobre a necessidade
da pena de morte para os rebeldes, declarou: O senhor deveria
passar dez dias naquele presídio. Tenho certeza de que também
iria lutar por sua liberdade. Menos de um mês depois
do episódio, lá estava a foto de d. Aloisio nos jornais
novamente. Desta vez, fazendo a cerimônia do lava-pés
nos detentos do mesmo presídio.
Ídolo
de Copolla O cardeal mais famoso do cinema hollywoodiano - seu
nome é citado no filme O Poderoso Chefão III,
de 1990 - não gosta de ser chamado de intelectual, mas tem
currículo para isso. Doutorou-se em Teologia Dogmática,
em 1949, pela Pontificium Athaeneum Antonianum, universidade franciscana
de Roma, onde também deu aulas até 1962. De volta
ao Brasil, começou a ganhar destaque na cena nacional por
causa de seu engajamento político. Foi um dos autores do
documento redigido pela CNBB, em 1968, que pedia a volta do funcionamento
do Executivo, Legislativo e Judiciário, com a elaboração
de uma Constituição eficaz. Por essas e outras,
se não queriam vê-lo morto, os militares o desejavam
pelo menos amordaçado.
Hoje, aos 74
anos, é cardeal-arcebispo de Aparecida do Norte (SP). Mais
ocupado que bengala de cego, dedica-se a visitar as paróquias
da arquidiocese, participar das celebrações e, quando
sobra algum tempo, gosta de vigiar a vida dos fiéis. Hollywood
nunca mais citou seu nome em filme algum, mas os brasileiros não
se importam. Assistem todos os domingos à missa das oito
que d. Aloísio reza no Santuário Nacional, em Aparecida,
pela Rede Vida (de orientação católica). E
o ibope é altíssimo.
VOCÊ
SABIA? As visitas do cardeal-arcebispo às penitenciárias
de Fortaleza sempre foram mais do que festejadas pelos presos. Não
só por causa de suas palavras de conforto, mas também
porque ele nunca se esquecia de levar o que alguns padres consideram
coisa do demônio, mas que os detentos disputam à tapa
nos presídios: maços de cigarro.
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