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11) Mãe Menininha do Gantois
32,43%
dos votos
Jorge
Amado não viajava sem ouvir suas recomendações.
Dorival Caymmi não dava um passo sem consultá-la primeiro.
Antônio Carlos Magalhães seguia seus conselhos a ferro
e fogo. E Vinicius de Moraes corria a escutá-la quando estava
na Bahia. Ninguém sabe ao certo quem foi a primeira personalidade
a frequentar o Terreiro do Gantois, em Salvador, mas o fato é
que os braços acolhedores de Mãe Menininha nunca estavam
parados. Fosse recebendo seus numerosos filhos-de-santo - o telefone
tocava pelo menos 20 vezes por dia, com ligações de
todo o País -, fosse preparando os saborosos aracajé,
caruru ou o vatapá como só ela sabia fazer, nenhum
traço de exaustão perturbava a rotina da guia espiritual
mais paparicada da Bahia.
Neta de escravos,
Maria Escolástica da Conceição Nazaré
(nascida a 10 de fevereiro de 1894 na capital baiana) foi escolhida
na infância pelos santos do candomblé como mãe-de-santo
do terreiro fundado pela avó. Ainda criança, sem conhecimento
suficiente para assumir o posto mais alto na hierarquia da religião
- o de ialorixá, que dita as regras e comanda todo o funcionamento
da casa - foi iniciada nos rituais pela tia Pulquéria, sua
antecessora. Era então uma moça quieta e franzina,
e não escapou do apelido que a acompanhou pelo resto da vida.
Aos 28 anos, assumiu definitivamente o terreiro. Quando os
orixás me escolheram eu não recusei, mas balancei
muito para aceitar, contou certa vez. Na época, o candomblé
vivia uma fase de perseguição a paus e pedras. Relegados
ao submundo religioso, os rituais terminavam subitamente com a chegada
da polícia.
Vem
olhar, doutor A partir da década de 30, a restrição
arrefeceu, mas uma Lei de Jogos e Costumes exigia que o candomblé
só fosse celebrado em horários específicos,
com a autorização de uma delegacia específica.
Quando passava das dez da noite, lá vinham os policiais.
Isso é uma tradição ancestral, doutor,
dizia a ialorixá ao delegado, com sua paz interior que pouco
a pouco se apoderava dos outros. Venha dar uma olhadinha o
senhor também. E o jeito melindroso de Mãe Menininha
não só evitou o fechamento do terreiro, como venceu
a resistência religiosa do chefe da Delegacia de Jogos e Costumes,
que escutou o chamado dos santos e se tornou um praticante da religião
depois da extinção da lei, em meados dos anos 70 -
a própria Mãe Menininha foi uma das principais articuladoras
para o término das proibições.
Como outras
crenças, no início do século a religião
afro-brasileira também era carregada de conservadorismo.
Passar em frente de uma mãe-de-santo sem baixar a cabeça
era grave ofensa para os seguidores da casa. Como um bispo
progressista na Igreja Católica, Menininha modernizou o candomblé
sem permitir que ele se transformasse num espetáculo para
turistas, analisa o professor Cid Teixeira, da Universidade
Federal da Bahia. Informal e bonachona, não hesitava em abrir
as portas do Gantois para brancos e católicos - uma abertura
que, em muitos terreiros, ainda hoje é vista com certo estranhamento.
Programa
evangélico Ecumênica, Mãe Menininha nunca
deixou de assistir à missa, numa prova de que o sincretismo
religioso da Bahia não é mero chavão. Podia
comungar pela manhã e celebrar os rituais do candomblé
à noite. No meio tempo, cuidava das duas filhas - Cleusa
e Carmen - e coordenava todas as atividades do terreiro. Não
eram poucas, já que dentro do próprio Gantois criavam-se
galinhas e cultivava-se milho. Sem cobrar um tostão, passava
o dia atendendo seus seguidores. Para dar uma trégua aos
santos, entregava-se de corpo e alma a pequenos prazeres. Cuidava
com esmero da vasta coleção de objetos de louça,
presentes dos filhos-de-santo ilustres. Quando estava assistindo
aos capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém
arriscava importuná-la. E grudava no rádio colocado
no criado-mudo do quarto para escutar programas evangélicos
e música popular - uma de suas cantoras preferidas era Maria
Bethânia, ainda hoje frequentadora do Gantois, junto com o
irmão Caetano Veloso.
Por trás
das poderosas lentes dos óculos da mãe-de-santo havia
uma mulher de força inabalável. Mais que superar preconceitos
e afirmar o candomblé como símbolo da cultura negra,
abriu a seita para novos seguidores. Mais que ser católica,
convenceu os bispos a permitir a entrada nas igrejas de mulheres
com os tradicionais vestidos do candomblé. Vestidos que ela
mesma exibia com elegância: brancos para Oxalá, dourados
para Oxum e azuis para Oxóssi.
Sucessora
Com sua paciência invejável, não se cansava
de tirar dúvidas sobre o candomblé. Deus? O
mesmo Deus da Igreja é o do candomblé. A África
conhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum.
A morada Dele é lá em cima, e a nossa cá embaixo,
explicava. Mãe Menininha morreu a 13 de agosto de 1986, aos
92 anos. Sua sucessora foi a filha Cleusa - que morreu no final
do ano passado. A nova ialorixá do Gantois será escolhida
até novembro, numa cerimônia que pode durar até
um mês.
VOCÊ SABIA? Recusava-se a beber Coca-Cola porque tinha
ouvido dizer que o refrigerante era bom para desentupir pia de mármore
e para limpar cano de bateria de carro.
Se eu tomar esse negócio o efeito vai ser o mesmo em
mim!, dizia. E não gostava que os outros bebessem,
completa a filha Carmen.
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