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O Brasileiro do Século

10) Padre Marcelo Rossi
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Fugindo no silêncio da madrugada, Marcelo Rossi conseguiu chegar com segurança ao Seminário Diocesano de Santo Amaro, que o formou padre, há dez anos. Inconformadas, as moradoras do prédio onde morava com os pais e a irmã, na zona norte de São Paulo, estavam dispostas a cometer os mais desvairados pecados para evitar que aquele moço de 1,94 m, olhos claros e sorriso arrebatador se despedisse dos prazeres da vida para se dedicar ao sacerdócio.

Pânico no elevador Diante da ameaça de tumulto, ele preferiu partir sorrateiro bem cedo, logo após o raiar do dia. Agarrado à mãe, dona Vilma (que estava aos prantos), deu de cara com uma vizinha a caminho da padaria. Aproveitando aqueles últimos instantes, até que o elevador chegasse ao térreo, a mulher tentou convencê-lo a não abraçar a vida religiosa. Em vão, naturalmente, porque o jovem estava decidido. Anos mais tarde, quando padre Rossi já tinha se transformado num ídolo pop, líder de audiência com programas religiosos no rádio e na televisão, encontrou a mesma vizinha no mesmo elevador. Desta vez, a conversa foi mais amena. Emocionada ao revê-lo, contou que havia retornado para a Igreja. “Uma das missões a que me dedico é trazer de volta as ovelhas desgarradas”, disse ele a ISTOÉ.

Nascido em São Paulo a 20 de maio de 1967, é convicto de que sua vida tem sido uma explosão de sucessivas surpresas. “Para começar, quase não nasci”, diz. Na data de seu nascimento, os hospitais públicos estavam em greve, para desespero de sua mãe, que trazia no ventre um bebê de 55 centímetros e 3,5 quilos. Como o parto normal não seria possível, foi preciso que um médico da família o trouxesse ao mundo. Mas foi por pouco. “Eu estava com o cordão umbilical envolvido no pescoço e quase morri asfixiado”, conta.

Sorriso inocente Quem perguntar sobre seu sonho de infância não vai ouvir o óbvio. “Aos nove anos quis ser piloto de Fórmula 1, mas desisti porque minhas pernas eram compridas demais. Aos 12, meu sonho era ser jogador de futebol, mas calçava 44.” Por sofrer de cifose (curvatura da coluna) desde criança, aos 14 começou a praticar esportes, até que se transformou em um aficionado. Formou-se em Educação Física pela Faculdade de Santo André (SP), chegou a pesar 130 quilos de pura massa muscular e fez das academias por onde passou seu segundo lar. Pecados? Segundo ele, o maior de todos foi ter sido instrutor físico. “Devo ter feito horrores com a coluna das pessoas. Espero que elas me perdoem por isso”, afirma com um sorriso inocente nos lábios.

Apesar de ter estudado num colégio de padres, o Salesiano, em São Paulo, sempre criticou a Igreja na juventude. Em 1980, preferiu fazer palavras cruzadas a assistir ao papa João Paulo II, que, em visita à capital paulista, desfilou bem embaixo de sua janela.

Na verdade, chegou ao catolicismo pelo caminho mais difícil, o do sofrimento. Aos 20 anos, um golpe o abateu, a morte prematura, aos 28 anos, de um primo, um dos melhores amigos. Para superar a dor, tratou de compreender o sentido da vida, sempre norteado por um de seus princípios, o de que a “fé cega mata”. Por isso, antes de acreditar em qualquer coisa, estudou a história das religiões. Aos 22 anos, pela primeira vez, aventou a possibilidade de se tornar padre. Embora a idéia tenha surgido das profundezas de seu ser, ele próprio tentou combatê-la, buscando justificativas que o desencorajassem. “Eu era jovem, tinha namorada e levava uma vida que considerava saudável.” Contudo, a resistência foi esmorecendo e ele acabou aceitando a sua sina. “Não foi possível fugir do destino”, diz.

Ovelhas desgarradas Aos 32 anos, padre Marcelo levanta a bandeira de um novo sopro de vida para a fé, embora se intitule um conservador no que diz respeito aos dogmas da Igreja. “Ofereço o mesmo conteúdo, mas de uma nova forma.” É inegável que a fórmula que ele inventou - “ a aeróbica do Senhor”, como ele define a celebração da missa com ênfase na expressão corporal - é um sucesso, principalmente entre os jovens. É com essa receita que está atraindo à paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na zona sul da capital paulista, milhares de ovelhas. “Quero que todas as pessoas que se declaram católicas sejam praticantes”, diz.

VOCÊ SABIA? Na juventude, quando se dedicava aos esportes, devorava 20 claras de ovos
ao dia. Sua fornecedora era uma doceira, que apenas utilizava as gemas. “Eu misturava com leite desnatado. Era pura proteína, uma delícia.