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1) Irmã Dulce
78,6%
dos votos
Irmã
Dulce estava caminhando na Ilha dos Ratos, em Salvador, quando viu
um menino trêmulo e febril. Esfomeado, o pequeno vendedor
de jornais olhou para a mulher franzina e pediu socorro. A freira
puxou o moleque pelas mãos, avistou um barraco abandonado
e parou um banhista que passava pelo local. "Moço, arrombe
esta porta!" Apesar de assustado, o banhista cedeu ao apelo
e Irmã Dulce acomodou o menino na casa. No dia seguinte,
a história já era conhecida da vizinhança.
Ao voltar à Ilha dos Ratos, uma velha morrendo de câncer
e um tuberculoso convalescendo também lhe pediram ajuda.
Irmã Dulce ordenou que derrubassem a porta novamente. Quando
apareceu o dono reivindicando a posse do barracão, a freira
levou seus doentes, que iam se multiplicando, para o desativado
Mercado do Peixe, um galpão imenso onde poderia oferecer
algum tipo de assistência. A boa vontade do prefeito da capital
baiana na época (1946), Wanderley Pinho, não durou
muito tempo. Ele também foi implacável: mandou que
todos fossem embora. Sem mais opções, Irmã
Dulce conversou com a madre superiora e transformou o galinheiro
do convento em albergue para os pobres. Tudo ajeitado, a madre foi
parabenizá-la pelo trabalho, mas intrigou-se com o destino
de suas galinhas. Apontando um doente, Irmã Dulce explicou
com calma para a madre, estupefata: "Viraram canja e estão
na barriga deles." Era o marco inicial de uma das mais grandiosas
obras sociais já existentes no Brasil.
Fã
do Ipiranga A história de Maria Rita Lopes Pontes - nome
de batismo da freira - é daquelas que comovem pelo desapego.
Nascida em Salvador, a 26 de maio de 1914, quando criança
passava horas ajoelhada diante da imagem de Santo Antônio,
aguardando um sinal se devia ou não seguir a vocação
religiosa. Um dia, acreditou ter visto o santo português balançar
a cabeça. Nessa época, a timidez alternava-se com
as travessuras de infância. Segunda entre cinco filhos do
dentista e advogado Augusto Pontes (mantenedor de uma escola para
carentes, diziam que sua cachaça era a dedicação
à entidade assistencial) e de Dulce Lopes (morta aos 26 anos),
Maria Rita não perdia a oportunidade de empinar pipa e jogar
mamona nos irmãos. A descoberta de um mundo sem os luxos
da casa na rua Independência (era vizinha de Antônio
Carlos Magalhães) aconteceu ao visitar, com as tias, os bairros
da periferia, sob o único pretexto de que "era hora
de a menina conhecer uma rea-lidade diferente". O que ninguém
na família imaginava era que ela se transformaria num raro
exemplo de bondade e amor. Preocupada com a miséria alheia,
Maria Rita, com 13 anos, deixou os amigos das brincadeiras de esconde-esconde
a contar carruagens e passou a atender mendigos, enfermos e desvalidos.
A vizinhança não disfarçava a cara feia para
a menina que fazia curativos em enfermos e cortava o cabelo dos
mendigos. "Temia perder o namorado por causa dos mendigos que
ficavam esperando por ela na porta de casa", disse a ISTOÉ
Dulcinha Pontes, 83 anos, irmã e entusiasta contadora de
histórias da religiosa.
O altruísmo
prematuro só era interrompido aos domingos, dia de ir ao
Campo da Graça torcer pelo Ipiranga, frágil equipe
de futebol de Salvador que existe até hoje. Fanática
pelo atacante Popó, Maria Rita entrava no gramado com os
jogadores e chegou a dar o pontapé inicial de uma partida.
A paixão pela bola - mantida por toda a vida - lhe valeu
o curioso apelido de "Machão", invenção
do tio Mundinho. Quando as notas no colégio estavam baixas,
o pai ameaçava: "Se não melhorarem, domingo que
vem não vai ao estádio!"
Apelo de
formatura Sem perder os gols de Popó, a garota concluiu
os estudos aos 18 anos. O pai levou-a para escolher um presente
de formatura, mas ouviu um pedido da filha: "Não quero
nada, só que o senhor me deixe ser freira", anunciou
Maria Rita. E quem resistiria ao apelo daquela garotinha bochechuda?
Em agosto de 1933, a devota de Santo Antônio ganhou o hábito
na Congregação das Irmãs Missionárias
da Imaculada Conceição, em Sergipe, e recebeu o nome
religio-so de Irmã Dulce, em homenagem à mãe.
Tão logo tomou os votos de profissão de fé,
foi designada enfermeira e, mais tarde, professora de geografia
numa escola católica em Salvador. Como demonstrava pouco
interesse pela atividade, conseguiu a liberação para
fazer o que realmente gostava. Aos domingos, ia à favela
dos Alagados - mangue aterrado com lixo e cheio de barracos - para
socorrer os necessitados. Tocando sua sanfona, animava o almoço
dos operários nas fábricas ensinando catecismo. Ao
ver que os trabalhadores não gozavam de nenhum benefício
nem dispunham de assistência médica, convocou uma reunião.
O primeiro encontro teve a presença de quatro homens e seis
mulheres. Deu vontade de desistir. Mas, da segunda vez, foram 200
pessoas. Construiu farmácia, posto médico e uma cooperativa
de consumo. A obra começou a crescer e, em janeiro de 1937,
Irmã Dulce fundou o Círculo Operário da Bahia,
que também proporcionava atividades culturais e recreativas,
além de uma escola de ofícios.
Saco de pimentão
Impressionado com as dificuldades enfrentadas pela religiosa, que
continuava acomodando seus doentes no antigo galinheiro, em 1959
o governador do Estado cedeu um terreno para a construção
de um projeto maior. Bem ao lado do convento, no bairro Roma, era
criado o Albergue Santo Antônio, com 150 leitos. Poucos anos
depois foi inaugurado um orfanato com capacidade para 300 menores.
Se crescia a
obra de Irmã Dulce, aumentavam também suas preocupações.
Para alimentar tanta gente, saía com uma caminhonete pela
manhã e percorria feiras e supermercados. Os comerciantes
já a esperavam com um saco de pimentão, cebola ou
o que pudessem oferecer. O importante era não voltar de mãos
vazias. A cada fim de mês, médicos e enfermeiros -
todos voluntários - acreditavam que o dinheiro não
seria suficiente para arcar com as despesas. Irmã Dulce ia
atrás de donativos, falava com empresários e, no final,
sempre dava um jeitinho. "Ela foi a administradora mais eficiente
que conheci", afirmou a ISTOÉ o ex-banqueiro Ângelo
Calmon de Sá (dono do Banco Econômico, que faliu em
1995). Durante 13 anos, ele conversou diariamente com Irmã
Dulce e hoje preside o conselho que gerencia suas obras assistenciais.
Seguindo uma
filosofia franciscana de caridade, Irmã Dulce quase não
se divertia. Os raros momentos de folga eram dedicados a responder
cartas, assistir aos Trapalhões na tevê e ouvir
Roberto Carlos. Não lia jornais nem via televisão.
As cenas a que assistia diariamente eram mais cruéis que
as de qualquer programa policial. Irmã Dulce quase não
comia. Três vezes por semana, fazia jejum. As poucas refeições
se resumiam a um montinho de arroz e legumes colocados num prato
de sobremesa ou num pires de café. Carne, doce e refrigerante
não constavam de seu cardápio. Com tantos doentes
e esfomeados esperando por seus gestos de benevolência, Irmã
Dulce também quase não dormia. Eram no máximo
quatro horas de sono por noite, sentada numa cadeira de madeira
maciça. Começou a dormir ali para pagar uma promessa
e usou a espreguiçadeira por 30 anos, até ser proibida
pelo médico. E, pior de tudo, Irmã Dulce tinha apenas
um terço da capacidade respiratória. Quando os médicos
perguntavam se havia passado bem a noite, respondia: "Passei
na boate." Aí explicava: "boate" era como
chamava o tubo de oxigênio que ajudava a mantê-la viva.
Os sacrifícios
eram proporcionais à felicidade. Uma das maiores alegrias
acontecia às quartas-feiras e aos sábados, quando
visitava o orfanato-escola localizado na periferia de Salvador.
Chamava a todos pelo nome e conhecia os problemas de cada criança.
E não recusava os convites para participar das "peladas"
de futebol entre os garotos. Os meninos só saíam quando
completavam 18 anos e tinham emprego garantido. Um deles, José
Ferreira de Souza, 33 anos, lembra com carinho a mulher que garante
ter sido sua verdadeira mãe. Atualmente trabalhando na própria
obra de Irmã Dulce, conta que se desesperou quando chegou
à maioridade. "Mas aí Irmã Dulce me avisou
que estava precisando de um auxiliar administrativo e haveria um
concurso no hospital", conta José. "No dia seguinte
levantei nervoso. Fui até o hospital, andei por todos os
setores durante três horas, rezei o terço com ela e
saí empregado. Esse era o concurso dela."
Caminhos
de Roma O hos-pital a que José se refere é o Santo
Antônio, fundado em 1970 ao lado do antigo albergue e ampliado
em 1983. Recebe verbas regulares do governo federal, mas as doações
continuam sendo imprescindíveis. A instituição
possui hoje 1,1 mil leitos e atende diariamente a quatro mil pessoas.
Servindo 142 mil refeições por mês, não
é mais preciso arrombar portas nem matar galinhas para socorrer
os pobres. "Hoje a obra é definitiva e irreversível",
comemora a sobrinha Maria Rita Pontes, atual superintendente da
Associação Obras Sociais Irmã Dulce.
Em 1990, a religiosa
entrou em longos 16 meses de agonia, por causa dos problemas pulmonares.
"Quero morrer ao lado dos pobres", ordenou. E assim foi,
na sexta-feira 13 de março de 1992, no Convento Santo Antônio,
ali no bairro Roma, onde a freira passou a vida inteira ao lado
dos mais necessitados, sem descanso de Carnaval, domingo ou feriado.
"Quando nenhum hospital quiser aceitar mais algum paciente,
nós o aceitaremos. Esta é a última porta e
eu não posso fechá-la." Como se diz entre a gente
humilde de Salvador, todos os caminhos, hoje mais do que nunca,
levam a Roma.
VOCÊ
SABIA? O estampido assustou as freiras do convento. Naquela
manhã de 1952, Irmã Dulce foi até a janela
e viu a explosão. Um ônibus e um bonde haviam colidido.
Antes que o carro do resgate chegasse até o local, ela puxou
uma mangueira. Depois, com o hábito chamuscado, subiu num
caixote e quebrou a janela dianteira do ônibus. Salvou 12
passageiros. Outros 16 morreram.
VOCÊ
SABIA? Com medo de voar, só saiu de Salvador duas vezes
depois de ordenada. Foi aos EUA receber uma homenagem, em 1962.
Também visitou o Rio, mas aí preferiu pegar 26 horas
de estrada. Certa vez, ao entrar num jato para se despedir da sobrinha,
foi logo avisando: "Não levanta vôo comigo aqui,
não!"
VOCÊ
SABIA? Era final de tarde e não havia alimento para todos
no hospital. Sem dinheiro, Irmã Dulce rezava quando tocou
o telefone: "Irmã, minha filha ia casar hoje. O noivo
não apareceu e estou lhe dando o bufê." A partir
daí, a religiosa passou a pedir para Santo Antônio
que arranjasse um bom marido para a mulher.
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