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EDITORIAL
Política e fé
Entre os Religiosos
do Século, dois têm comportamento antagônico
e ocupam posições aparentemente opostas no espectro
político. Dom Helder Camara, 90 anos, arcebispo emérito
de Olinda e do Recife, bateu de frente com o poder a maior parte
da vida e especialmente nos conturbados anos 60 e 70, quando era
chamado de bispo vermelho pelos que governavam o País.
Dom Eugenio Sales, 78 anos, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro,
atravessou o regime de exceção com a imagem de um
religioso conservador. Em silêncio, no entanto, salvou centenas
da prisão e da tortura, valendo-se do bom relacionamento
com os governantes. O que poucos sabem é que dom Helder e
dom Eugenio cultivaram ao longo de meio século uma rara cumplicidade.
Avisei aos militares que não tocassem em dom Helder.
Se preciso fosse, iria pessoalmente defendê-lo no Recife.
Quando aumentaram os rumores de que seria preso, cheguei a comprar
a passagem. Mas logo chegaram notícias tranquilizadoras e
cancelei a reserva, contou dom Eugenio a ISTOÉ, em
depoimento inédito.
Com estilos
distintos que se complementam, dom Helder e dom Eugenio sintetizam
a participação política da Igreja no século
XX. A última vez que se viram, dom Helder quase não
reconheceu o amigo. É como se uma névoa se apoderasse
de vez em quando de sua memória. Mas em seguida vieram à
tona as lembranças do tempo em que lutavam para redimir a
miséria do Nordeste. A criação da Sudene
é fruto do coração e da inteligência
dos bispos nordestinos, afirmou o presidente Juscelino Kubitschek
no final dos anos 50. Com uma infernal dor de cabeça e um
tanto cansado, dom Helder recebeu o repórter Daniel Rittner,
de ISTOÉ. Na manhã seguinte, entretanto, bem disposto
e jovial, diante do repórter fotográfico Max Pinto,
repetiu seu gesto inconfundível, abrindo e fechando os braços,
com os dedos médio e indicador unidos, como se abençoasse
o mundo. A comovente história de dom Helder, já consagrada,
e a luta de dom Eugenio em prol da liberdade, que pouquíssima
gente conhecia, estão contadas neste encarte especial. Boa
leitura.
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