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O Brasileiro do Século

5) Caetano Veloso
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Um homem velho de barbas longas, possivelmente o rosto de um pensador da Antiguidade estampado num almanaque ou na capa de uma revista. Aos seis anos, quando sabia que um dia seria uma celebridade, Caetano Veloso imaginava-se um sábio. "Não era propriamente o desejo de ser popular, reconhecido nas calçadas. Como as crianças hoje sonham ser o Super-Homem ou algum policial americano, eu desde cedo tinha a fantasia de cometer uma façanha intelectual", disse Caetano à ISTOÉ, ao saber que havia sido eleito um dos cinco músicos do século. Na puberdade, amarrava uma cueca branca na cabeça, como se fosse um turbante, e improvisava calças largas de bufão com panos esquecidos nos cantos da casa e a providencial ajuda da irmã Nicinha que sabe costurar como ninguém. Aos 16 anos, ele saiu de biquíni e óculos de sol num Carnaval. "A ausência de pêlos fazia com que, verdadeiramente, parecesse uma menina. Fiz aquilo conscientemente. Se era Carnaval, queria ser só um pouquinho mais original."

Clareza luminosa
Filho de seu Zeca, funcionário dos Correios e Telégrafos, e dona Canô, Caetano Emanuel Viana Teles Veloso (nasceu em 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, na Bahia), por influência de João Gilberto, virou um pensador da música popular. "É um músico complexo e profundo, de riqueza rítmica, além de um poeta incomparável. Mas, desde o início, o que mais me atraiu foi sua densidade ética acima do normal, uma clareza luminosa a respeito da vida", afirma o amigo Gilberto Gil. Até os 18 anos, Caetano pintava quadros e tocava piano, além de encenar dramas em casa com a irmã caçula Maria Bethânia. "Eu penso que faria bem qualquer tipo de arte. Podia botar uma tabuleta na porta, assim: Faz-se arte", afirma Caetano.

Em 1965, foi para o Rio, com a missão dada pelo pai de cuidar de Bethânia, que substituiria Nara Leão no show Opinião. Em que pese chamar a atenção pela doçura de suas primeiras canções, o público só notou a figura esquálida de Caetano no programa Esta noite se improvisa, da TV Record, de São Paulo. De paletó xadrez e blusa de gola rulê, graças à memória fora do comum, ganhou muitos automóveis Gordini (o jogo era adivinhar a canção que continha uma certa palavra).

Nos radicais anos 60, havia divisão entre os artistas considerados sérios da bossa nova e os de apelo comercial da jovem guarda. Caetano frequentava as mesas de bar do pessoal da MPB, mas achava que a bossa nova, um elemento inovador dos anos 50, dava sinais de cansaço e diluição. O divisor de águas era a guitarra elétrica, execrada pelos bossa-novistas. O rompimento veio em 1967, num festival da Record, em que cantou Alegria, alegria, com as guitarras dos Beat Boys.

O tropicalismo, movimento que liderou com Gil em 1968, era um prisma em que se cruzavam influências do cinema novo (o ritmo frenético de Terra em transe, de Glauber Rocha) e o Teatro Oficina (o clima antropofágico das peças de José Celso Martinez Correa), além do artista plástico Hélio Oiticica e da poesia concreta dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos. A tropicália incomodou a esquerda nacionalista, mas irritou também os militares que governavam o País. "Politicamente, era uma espécie de limbo." Aquela maluquice foi catalogada no item subversão ideológica. Caetano e Gil foram presos em dezembro de 1969 e, alguns meses depois, exilados em Londres. Na volta, em 1972, continuaram indigestos. Caetano - que atravessou os anos 70 usando batas indianas feitas por sua primeira mulher, Dedé - rebolou como Carmen Miranda no palco. Arriscou um disco experimental (Araçá azul, inspirado no paulista Walter Franco), que bateu o recorde de devolução nas lojas. Os manifestos Jóia e Qualquer coisa eram um deboche diante das cobranças de engajamento. Muito, em que aparece na capa com a cabeça no colo da mãe, encalhou nas lojas. Caetano culpou a má vontade da crítica. (Mais de 20 anos depois, é forçoso reconhecer que tinha total razão. Em Muito, estão Terra e Sampa obrigatórias em qualquer antologia de Caetano). O show Bicho, de 1977, Caetano quis transformar em baile. Mandou tirar as cadeiras para que a platéia dançasse. Estabeleceu-se uma polêmica: afinal, a música dançante é alienada (era o apogeu das discotecas)? A lógica era a de que, uma vez que havia crianças morrendo de fome, dançar era um ato de alienação política. Uma idéia absurda que na época rendeu muitos artigos e entrevistas.

Terno e gravata
"Algumas pessoas curtem minha música e até têm ternura por mim. Outras consideram importante a referência de minhas letras, mas não radicalizam a própria experiência ideológica e se voltam contra mim, como se eu quisesse me apropriar de suas cabeças e não tivesse esse direito. Aí fico com raiva", afirma Caetano. É apenas um cantor, como diria Belchior, mas é um dos brasileiros que mais influenciaram o comportamento de sucessivas gerações, nos últimos 30 anos. Casado, pela segunda vez, com a atriz e empresária carioca Paula Lavigne, tem três filhos - Moreno (do casamento com Dedé), Zeca e Tom. Em seu mais recente show, surpreendeu os fãs ao se apresentar, imagine, de terno e gravata. Como João Gilberto. "Não tenho conclusão para apresentar às pessoas como se fosse um modelo a ser seguido. Ao contrário, eu me ofereço em espetáculo, exibo o processo do meu pensamento com todas as incoerências. As perguntas que eu me faço, eu as faço publicamente."

VOCÊ SABIA?
"Conheço a pressão social, moral e religiosa sobre os homossexuais porque me confundem com um deles. Agora, não tenho nenhum preconceito ou tabu. A pergunta que você não faria: se eu sou homossexual. Claro que não! Sou heterosseuxal e monogâmico. Minha vida real é esta."

PALCO:
· Alegria, alegria (1967)
· Tropicália (1968)
· Tigresa (1977)
· Terra (1978)
· Sampa (1978)
· Oração ao tempo (1979)
· O ciúme (1987)