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14) Dorival Caymmi
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Dorival
Caymmi tinha 20 anos e andava a pé do centro de Salvador
até Itapoã. Era uma caminhada e tanto, de três
ou quatro horas, mas ele ia sem pressa, de vez em quando caía
na água para se refrescar e depois seguia viagem. Mais adiante,
parava para a contemplação e fitava o horizonte do
mar azulado, sem ilhas. De repente, apareceu a luz. Era de ofuscar
os olhos. "Havia um ponto luminoso dentro da água, não
era o sol, não era a lua. Fiquei abismado", disse Caymmi
a ISTOÉ. A luz foi chegando perto, devagar, crescendo, crescendo,
até descolar do horizonte. Era o Zepellin, o dirigível
alemão com o farol jogado na direção da areia.
Vindo da Europa, passava pelo litoral da Bahia para descer no Rio
de Janeiro. Caymmi se deitou na areia para ver de ângulo diferente.
A cena, inesquecível para Caymmi, é o tema de uma
canção inédita de seu filho Danilo, 50 anos.
Caymmi gostava da solidão de praias desertas como Itapoã,
pedra que ronca na língua dos tapuias. "Um ponto
cavado embaixo da pedra ronca, de fato, quando a maré sobe.
Fui reparar e era verdade."
Reparou também
nas figuras trágicas de pescadores que nunca sabiam ao certo
se voltariam para a casa, personagens de seus sambas dolentes e
originais. "Eram homens de pouca fala, tipos pitorescos."
Alguns mergulhavam para saber quantos peixes estavam aprisionados
na rede. Se a quantidade era suficiente, a pescaria estava encerrada.
"Imagine que eram mergulhadores fantásticos e, além
disso, tinham talento para a matemática, caso contrário,
daria tudo errado." Nascido em 1914, em Salvador, um dos primeiros
empregos foi de vendedor de bebidas. "Carregava uma pasta de
couro, pesadíssima, cheia de garrafas." O emprego foi
por água abaixo quando resolveu tomar uns goles para comprovar
se as bebidas eram falsificadas, como desconfiava. "Bebi todo
o mostruário."
Em 1938, foi
para o Rio de Janeiro, onde sonhava cursar a faculdade de Direito.
"Essa é uma terra de rádio e futebol, rapaz.
Para que mais um advogado?", argumentavam os amigos. O compositor
Assis Valente, exímio fabricante de dentaduras, emprestou
a capa do violão para que Caymmi fizesse um teste na Rádio
Tupi. Estreou cantando O que é que a baiana tem? Carmen
Miranda, nessa época, preparava-se para estrelar um novo
filme em que cantaria Na baixa do sapateiro, de Ari Barroso.
Mas o produtor americano não quis pagar o cachê exigido
por Ari e, para não perder o cenário de motivos baianos,
contratou Caymmi. Era um contrato de 100 mil réis. "Dava
para pagar a pensão folgado."
Namorinho
inevitável
Na mesma noite, foi levado à casa de Carmen Miranda. "Fui
ensiná-la a cantar minha música e ainda dei uns palpites
sobre os figurinos." A afinidade entre os dois foi instantânea.
A cantora ligava para a pensão: "Vou te pegar aí."
Saíam num vistoso automóvel de Carmen ("Não
lembro o nome, sei que era inglês", diz Caymmi), azul
celeste, conversível. Ela abria a capota e ia abanando para
os fãs. "Eu pensei: sou um baiano de sorte. Cheguei
outro dia e já estou passeando com Carmen Miranda."
Era um "namorinho de simpatia", segundo ele, que nunca
avançou o sinal. Ela tinha um caso com o produtor Aloysio
de Oliveira, amigo de Caymmi. "Não quis perder o amigo
novo, por isso guardei certa distância de Carmen, sem fugir
de um carinho pessoal, que era inevitável."
Beija-flor
Casado com Stella Maris, que conheceu num programa de calouros,
há 59 anos, tem três filhos ligados à música
- além do caçula Danilo, o violonista e compositor
Dori e a cantora Nana. Vive hoje na pequenina Piqueri (MG), no meio
do mato, longe do mar. "Menino, preciso interromper a entrevista
um momento. Um beija-flor acaba de pousar na minha mão."
VOCÊ
SABIA?
Num ônibus no Rio, Aracy de Almeida não parava de falar
ao lado de um Caymmi distraído, em estado de transe. "Estou
falando com você", reclamou Aracy. Ele acabara de completar
João Valentão, canção que iniciara
nove anos antes, na Bahia. A fama de preguiçoso pegou.
PALCO:
· O que é que a baiana tem? (1938)
· Samba da minha terra (1940)
· É doce morrer no mar (1941)
· Doralice (1945)
· Peguei um ita no norte (1945)
· Não tem solução (1952)
· Modinha para Gabriela (1975)
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