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O Brasileiro do Século

11) Pixinguinha
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Depois que casou com Jandira Aymoré, em 1927, Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, abriu um botequim na Praia de Ramos, Rio de Janeiro, onde vendia bebidas, salgadinhos etc. Faliu em poucos meses porque os amigos boêmios passavam dias bebendo sem pagar. Em matéria de investimentos ele nunca se deu bem, só ganhou dinheiro com a música, e mesmo assim nunca economizou. Mas, se talento enriquecesse, Pixinguinha teria sido o homem mais rico do Brasil. É considerado por muitos o "pai" da música popular brasileira e não é exagero dizer que foi um dos maiores instrumentistas que o País já teve, tocando flauta ou saxofone. Além disso regeu dezenas de orquestras e foi o criador do arranjo brasileiro da música popular.

Neto de escravos africanos, nasceu numa família onde quase todos eram músicos. A casa vivia cheia de gente e chegou inclusive a ser chamada de "Pensão Viana", porque cada mês era um amigo que chegava pedindo neto para morar. Toda semana, o pai, seu Alfredo, organizava saraus, para a alegria de Pixinguinha, que se deliciava ouvindo chorinhos, lundus, maxixes e outros ritmos populares.

Fantasia de anjo
Quando seu Alfredo mandava o garoto para a cama, ele pegava uma flauta de folha e passava horas tentando imitar os sons que ouvia na sala. Não tinha nem dez anos naquela época, mas já sabia o que queria: ser músico para sempre. E assim foi. No ano de sua morte, 1973, estava com 74 anos e continuava compondo.

Começou a viver de música aos 14 anos, tocando flauta em festas, bailes e piquenines. Mas, gostava mesmo era de sair na ala dos instrumentistas dos blocos de Carnaval. Com Vicente Celestino, amigo de colégio, fazia a dupla mais engraçada da rua. Vicente ia fantasiado de anjo, cantando e dançando, enquanto Pixinguinha seguia atrás com a flauta. Dos bailes foi para as casas de chope e cassinos, onde muitas vezes tocou com o uniforme da escola porque não tinha tempo de trocar de roupa. Só apareceria para o grande público nas salas de projeção, acompanhando os filmes mudos e, mais tarde, na sala de espera do luxuoso Cine Palais, onde tocou com o grupo Os Oito Batutas.

Os Batutas desafiaram a sociedade carioca quando surgiram vestidos de sertanejos e tocando ritmos nacionais - que a aristocracia fingia detestar porque eram descendentes diretos dos ritmos africanos. Para piorar, a metade dos integrantes do grupo era negra. A prova do talento destes precursores veio quando a cidade deixou o preconceito de lado e Pixinguinha se consagrou como o melhor flautista que o Brasil já viu tocar. Ir aos shows dos Batutas virou moda no Rio e ninguém mais entrava na sala de projeção para assistir aos filmes porque ficar na sala de espera era muito melhor. O grupo desfez-se em 1923 e, com a chegada por aqui do cinema falado, muitos instrumentistas ficaram desempregados, menos Pixinguinha. Foi trabalhar na RCA Victor, indústria fonográfica que surgiu com toda a força nos anos 20, onde regia orquestras e arranjava discos.

Rodas de choro
O talento era intuitivo e quando pensava em estudar música os amigos logo o desencorajavam. Donga chegou a dizer que se Pixinguinha aprendesse teoria musical nunca mais seria o mesmo. Em 1933, prestou o vestibular para a Faculdade de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas desistiu nas últimas provas.

Era magistral em tudo o que fazia. E exigente. Nos anos 40, trocou a flauta pelo saxofone porque achava que não tocava mais como antes. Passou a se interessar pelo jazz, mas continuou senhor absoluto nas rodas de choro. Com o flautista Benedito Lacerda gravou 34 chorinhos em apenas cinco anos e todas as composições eram suas.

Nunca foi de muita farra, mas não dispensava sua cachacinha de todos os dias. Chegou a ser marca de uma: Cachaça Pixinguinha. O desenho do rótulo era uma caricatura malfeita que em nada lembrava o músico. Mesmo assim, ele adorou a homenagem. Dava alguns sustos em dona Jandira quando exagerava nos goles e ia parar no hospital.

Dores no peito
Porém, o maior susto foi ela quem deu nele, quando, depois de 45 anos de casamento, em 1972, caiu doente e precisou ser internada. Pixinguinha sentiu dores no peito alguns meses depois e deu entrada no mesmo hospital, mas ela nunca soube disso. Quando era dia de visita, ele trocava a roupa hospitalar pelo terno e subia alguns andares para vê-la.

A morte da mulher mudou a vida de Pixinguinha, que se transformou num homem triste e solitário. Morreu seis meses depois, em janeiro de 1973, na sacristia de uma igreja quando esperava para ser padrinho de batismo do filho de um amigo. Deixou obras-primas como o chorinho Carinhoso, um clássico da música brasileira que já foi gravado centenas de vezes.

VOCÊ SABIA?
Caminhando no Rio de Janeiro, Pixinguinha foi abordado por três ladrões, que o reconheceram e desistiram do assalto. Feliz, perguntou se eles não queriam tomar uma cerveja. E então beberam a noite toda. Na despedida, o músico lembrou: "Querem algum para a passagem?"

PALCO:
· Samba de Nego (1927)
· Carinhoso (1928)
· Teus crimes (1928)
· Mulher boêmia (1928)
· Aguenta, seu Fulgêncio (1930)
· Urubu e o gavião (1930)
· Página de dor (1930)
· Rosa (data desconhecida)