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10) Gilberto Gil
43,92%
dos votos
O
gerente da Gessy Lever, Vicente Creazzo, andava com a pulga atrás
da orelha. Sua auxiliar Edma teimava em abandonar o posto e deixar
a pequena sala em que trabalha às escuras. "É
para economizar energia, seu Vicente", dizia ela. A desculpa
esfarrapada atiçou ainda mais a curiosidade do chefe, que
abriu a porta e acendeu a luz. Deparou com um rapaz estendido no
chão, roncando como um inocente. "Esse cara é
maluco!", esbravejou Creazzo, antes de bater a porta e acordar
Gilberto Gil, que passara a noite no Juão Sebastião
Bar, templo da bossa nova em São Paulo, tentando convencer
Elis Regina a gravar Louvação. Gil, que ganhava
o equivalente a US$ 700 por mês, era trainee e estava sendo
preparado para virar executivo, mas o convívio boêmio
com outros músicos o obrigava, cada vez mais frequentemente,
a dormir de manhã na sala da colega. "Gil, essa vida
de gerente é medíocre, não tem nada a ver com
você", emendou Creazzo. Hoje, Creazzo está casado
com a ex-assistente Edma, a cúmplice de Gil, e o baiano é
um dos músicos brasileiros do século.
Filho de um
médico e uma professora primária, Gilberto Passos
Gil Moreira nasceu em Salvador (26 de junho de 1942) e passou a
infância em Ituaçu, no interior da Bahia, onde admirava
os sanfoneiros ceguinhos das feiras nordestinas e, principalmente,
Luiz Gonzaga. Em 1959, era o acordeonista de Os Desafinados, que
se apresentava em festas e bailes, mas já estava fisgado
pela bossa nova. "Desde a primeira audição, fiquei
absolutamente seduzido por João Gilberto", disse Gil
a ISTOÉ. O encontro de Luiz Gonzaga e João Gilberto,
numa esquina imaginária na cabeça de Gil - onde também
ecoaram os acordes da banda de pífaros de Caruaru (PE), dos
Beatles e da guitarra de Jimmy Hendrix - abriu espaço para
o tropicalismo, movimento que ele liderou com Caetano Veloso no
final dos anos 60.
Gil não
era só o feiticeiro que mexia a colher do caldeirão
musical da tropicália. Tinha as virtudes do eficiente executivo
que não chegou a ser. "Sabia lidar com as pessoas, formar
seu próprio time e era um estrategista. Teria sido um gerente
exemplar", lamenta o ex-chefe Vicente Creazzo. O terremoto
causado pelo tropicalismo levou Gil à prisão e ao
exílio em Londres. Nos anos 70, já de volta, a esquerda
o criticava por não fazer canções engajadas
como as de Chico Buarque. "No fundo, minha autonomia incomoda.
Não sigo cartilhas" afirma Gil. As virtudes de aglutinador
voltaram a se manifestar nos anos 80, quando entrou na política.
Chegou a cumprir um mandato de vereador na capital baiana (1988-1992).
"Abracei a política por conta de meu temperamento impetuoso
e experimental. Mas ela é a representação da
guerra em que os adversários viram inimigos. Se pouco me
deu, pelo menos me fez compreender que, por natureza, sou diplomático
e odeio a idéia de suprimir aquele que não concorda
comigo."
A partir do
exílio, Gil se abriu ainda mais para as influências
do rock e do reggae jamaicano e acelerou a carreira internacional.
De 1978 a 1998, fez uma excursão anual à Europa. Este
ano, planeja sossego. Casado há 19 anos com Flora, a quarta
mulher, com seis filhos e dois netos, quer descansar a voz - operou
calos nas cordas vocais. "Há momentos em que é
preciso trabalhar internamente."
VOCÊ
SABIA?
Na excursão dos Doces Bárbaros, em julho de 1976,
com Caetano, Gal e Maria Bethânia, Gil foi preso com uma pequena
quantidade de maconha, em Florianópolis. Recolhido à
cadeia pública, admitiu na época ser usuário
da erva e foi obrigado a se internar num hospício na capital
catarinense. "Parece que cantar em Florianópolis foi
um gesto livre demais e isso subiu à cabeça do delegado",
consolou o amigo Caetano.
PALCO:
· Domingo no parque (1967)
· Aquele abraço (1969)
· Expresso 2222 (1972)
· Super-Homem, a canção (1979)
· Palco (1980)
· Drão (1982)
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