|
9) Rachel de Queiroz
38,2%
dos votos
Não é preciso muito esforço para arrancar um
sorriso largo de Rachel de Queiroz. Os dentes perfeitos aparecem
diante de qualquer comentário, desde que sincero. Como há
alguns anos, no Recife. O dramaturgo Ariano Suassuna resolveu enumerar
as qualidades da escritora na frente dos amigos. "Você
é a pessoa de que eu mais gosto no mundo", disse. Mas
completou: "Depois de minha mãe, de minha irmã..."
A lista começou a aumentar e sabe lá onde ia parar
não fosse o comentário da escritora: "Assim não
vale, já estou em sexto lugar!" Se rir ao lado de Rachel
é tarefa fácil, ocorre o inverso para tirar dela um
auto-elogio. "Eu, uma velha do sertão nordestino?",
assustou-se ao saber que havia sido escolhida pelos leitores de
ISTOÉ como uma das brasileiras do século na literatura.
Que vem do sertão, isso é sabido. Filha de fazendeiros,
nasceu em Fortaleza, a 17 de novembro de 1910. E criou-se entre
a capital e o interior do Ceará, nas terras da família.
Mas velha, não. A disposição física
não delata os 88 anos. O segredo da juventude? Rachel nunca
fez exercícios físicos regulares. Devido à
tendência a engordar, come bastante verdura, "embora
deteste". E foi nadadora de açude, como gosta de ressaltar.
Fugindo do
PC
A inspiração literária se manifestou cedo.
Aos 20 anos, tinha escrito O quinze, um de seus principais
romances. No início da década de 30, filiou-se ao
Partido Comunista. No Rio de Janeiro, Rachel entregou os originais
do segundo livro ao Partidão. Passou-se quase um mês
até que alguém do PC a levasse para um armazém
abandonado no cais do porto. Três diretores concluíram
que João Miguel não poderia ser publicado sem
importantes modificações. "Eu não reconheço
nos companheiros condições literárias para
opinarem sobre minha obra", contestou Rachel, pegando os originais
e dando no pé. Morrendo de medo, tomou um bonde que, por
sorte, deixava o ponto no momento da fuga. Mesmo desvinculada do
PC (considerava-se trotskista), acabou presa algumas vezes. Todas
por poucos dias, sem sofre maus-tratos. Uma delas foi num comício,
em 1932. Além do constrangimento de dormir no xadrez, dividiu
a cela com duas prostitutas, que confundiram as bolas e trataram
de aconselhar: "Você, que está começando
na vida, cuidado. Não vá se apaixonar. Também
não pense em se regenerar."
Casou-se duas
vezes. A primeira união se diluiu com o trauma da perda prematura
da filha. Depois veio o casamento com um médico goiano, em
1939. Não tiveram filhos, mas Rachel tem bisnetos. É
que ajudou a criar a irmã caçula, Maria Luíza,
16 anos mais jovem. São amigas, irmãs, mas mantêm
uma relação de mãe e filha. Maria Luíza
lhe deu dois "netos" e dois "bisnetos" (o mais
novo é Pedro, nove meses).
A escritora,
que colaborou com a revista Cruzeiro entre 1945 e 1975, e
ganha R$ 600 de aposentadoria, já morou em várias
capitais. Viúva, hoje vive no edifício Rachel de Queiroz,
no Leblon, Rio de Janeiro. Quando o marido comprou o apartamento,
os entusiasmados moradores se reuniram em segredo e fizeram a homenagem.
Adoram a vizinha e nem reclamam dos gritos de gol da apaixonada
vascaína: "Fico de cabeça inchada se o Vasco
perde", afirma Rachel, também torcedora do Ceará.
Ela conta que quando se associou ao clube carioca ouviu de um diretor:
"Já éramos uma potência futebolística,
agora somos uma potência intelectual." A rotina pacata
de Rachel é quebrada pelo encontro das quintas-feiras na
Academia Brasileira de Letras. Duas vezes por ano, passa pelo menos
20 dias na fazenda Não me deixes, no sertão
do Ceará.
Os olhos míopes
e cansados suportam a crônica semanal que ainda escreve, mas
já não permitem a leitura por mais de uma hora seguida.
"Escrever, para mim, é um trabalho lento, fatigante,
penoso. Se eu morrer agora, você não vai encontrar
uma linha inédita", diz. Ela garante que não
pretende lançar mais nenhum romance, que a carreira literária
está praticamente encerrada. Praticamente, porque Rachel,
a cozinheira especialista em feijoada e arroz de carneiro, quer
realizar um antigo desejo: publicar um livro com os melhores pratos
do Nordeste. Já tem até nome: Receitas do não
me deixes.
VOCÊ
SABIA?
Aos 20 anos, já era jornalista profissional no Ceará
e arranjou um emprego como professora interina. Com um salário
razoável, comprou um carro, um Overland de quarta ou quinta
mão. Nas primeiras lições de direção,
quase matou o pai, que estava na frente do automóvel. Ele
fez Rachel jurar que não ia mais tentar dirigir, pois "além
de louca, era cega". Hoje a escritora tem motorista particular.
Nunca mais pegou no volante.
OBRA-PRIMA:
· O quinze (1930)
· As três Marias (1939)
· Caminho de pedras (1937)
· Dôra, Doralina (1975)
· Memorial de Maria Moura (1992)
|