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8) Cecília Meireles
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"Sou capaz de dar a volta ao mundo a pé", costumava
dizer Cecília Meireles. Nem que esse mundo fosse a sala de
jantar da casa do Cosme Velho, no Rio de Janeiro. Depois de trabalhar
a tarde inteira, perguntava às três filhas pequenas
se haviam se comportado bem durante o dia. Verdade ou não,
a resposta afirmativa era a senha para se vestirem todas a caráter
e viajarem pelos quatro cantos da Terra. Saíam da cozinha,
ficavam dando voltas em torno da mesa da sala de jantar e estacionavam
na frente de cada objeto. Visitavam lojas imaginárias, faziam
expedições ao Oriente olhando os tapetes persas e
terminavam a "viagem" carregadas de compras e fantasia.
Assim era a poetisa Cecília Meireles, mulher imaginativa,
uma viajante percorrendo as civilizações em busca
de sabedoria. Passou o ano de 1953 realizando um sonho antigo: conhecer
a Índia e o Paquistão, países que tanto admirava.
Para cada lugar, uma crônica. E algumas surpresas. Como o
bazar de um pitoresco vilarejo paquistanês onde os barbeiros
atendiam seus clientes em plena rua e vendedores ofereciam colírios
feitos à base do pó raspado de uma pedra.
Cecília
nasceu a 7 de novembro de 1901, numa casa simples no andar de cima
de um açougue no morro de São Carlos, berço
das escolas de samba cariocas. Estava longe de possuir os dotes
rebolativos das mulatas. Encantava os homens pela serenidade dos
olhos verdes, a suavidade nos gestos e na fala. O pai morreu três
meses antes de ela nascer. A mãe, três anos depois.
Criou-se com a avó açoriana, numa "infância
de silêncio e solidão". Cecília contava
que sua maior alegria quando criança foi ter recebido uma
medalha de ouro por distinção e louvor do inspetor
escolar Olavo Bilac. Aos dezoito anos, já ganhava projeção
com os poemas publicados em Espectros. Em 1921, casou-se
com o artista plástico Fernando Correia Dias, com quem adquiriu
o gosto pelas pinturas a guache e teve as três filhas: Maria
Matilde, Maria Elvira e Maria Fernanda.
História
de uma letra
Além de poetisa, Cecília mostrava sua faceta jornalística
na página de educação que pilotou durante quatro
anos no Diário de Notícias. "Foi ela quem
promoveu a estréia de Carlos Lacerda no jornalismo, então
um adolescente", conta a biógrafa Valéria Lamego.
Mais tarde governador da Guanabara, Lacerda homenageou a madrinha
de profissão inaugurando a Sala Cecília Meireles,
no centro do Rio. Os artigos só foram interrompidos pelas
viagens a Portugal (onde a consideram a maior poetisa da língua)
e aos Estados Unidos, onde lecionou folclore brasileiro na Universidade
do Texas.
Abalada pelo
suicídio do marido, em 1935, fez de tudo para reencontrar
a felicidade. Cecília consultou uma astróloga, que
recomendou: deveria tirar um "L" do sobrenome "Meirelles".
Acreditando no valor cabalístico da letra, passou a assinar
seus artigos com a nova forma, mesmo sem mudar os documentos. Mas
preferia não entrar em detalhes quando lhe pediam explicações:
"Muita gente me pergunta se deixei de escrever com letra dobrada
devido à reforma ortográfica. Quando estou com preguiça
de explicar, digo que sim". A felicidade finalmente chegou
no segundo casamento, com o educador Heitor Grillo. Tinha ido entrevistá-lo
e não conseguiu anotar uma linha. A matéria do Observador
Econômico e Financeiro já denunciava a paixão.
A segunda união levantou o astral da poetisa que continuou
escrevendo crônicas até o fim da vida, em jornais como
A manhã e Folha de S. Paulo.
Introvertida
e metódica
Cecília era exatamente o oposto do estereótipo que
carrega um poeta. Não fumava, não jogava e nem bebia.
Seguia à risca uma dieta macrobiótica. Dormia e acordava
cedo, a tempo de fazer o café da manhã, sempre com
waffles fresquinhos molhados no mel. Dava ordens aos empregados
e trancava-se na biblioteca de manhã e à tarde, metodicamente,
com um único intervalo para o almoço. Depois descansava
ouvindo músicas medievais, ibéricas e indianas. Colecionava
colheres e xícaras de café. Não gostava de
aparecer em público, preferindo o recolhimento. Havia exceções.
Duas ou três vezes por ano ela mesma preparava um banquete
para recepcionar os amigos intelectuais. Nos fins de semana, a família
se deliciava com pratos típicos de vários países
- um cardápio tão vasto quanto a lista dos lugares
que conheceu.
Caseira, introvertida
e voltada para a meditação, Cecília sempre
manteve seu espiritualismo exacerbado. Em 1961, descobriu que tinha
câncer. Contam que quando estava internada no Hospital dos
Servidores do Rio de Janeiro onde morreu em 1964, três indianos
entraram na ante-sala e ainda tentaram dar as últimas palavras
de alento à poetisa, sumindo em seguida. Ninguém confirma
a história. Parece mito, mas prova que Cecília Meireles
foi adorada por todos que a conheceram. No mundo inteiro.
VOCÊ
SABIA?
Numa das viagens a Portugal, em 1935, Cecília Meireles marcou
um encontro com o poeta Fernando Pessoa no café A Brasileira,
em Lisboa. Sentou-se ao meio-dia e esperou em vão até
as duas horas da tarde. Decepcionada, voltou para o hotel, onde
recebeu um livro autografado pelo autor lusitano. Junto com o exemplar,
a explicação para o "furo": Fernando Pessoa
tinha lido seu horóscopo pela manhã e concluído
que não era um bom dia para o encontro.
OBRA-PRIMA:
· Espectros (1919)
· Viagem (1939)
· Mar absoluto (1945)
· Retrato natural (1949)
· Romanceiro da Inconfidência (1953)
· Poemas escritos na Índia (1961)
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