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7) Graciliano Ramos
56,06%
dos votos
Certamente não era pela qualidade dos produtos oferecidos
que os habitantes do município de Palmeira dos Índios,
no agreste alagoano, viviam na loja de tecidos Sincera. Nada contra
as mercadorias. Mas a alma do negócio era o próprio
dono, um intelectual que largava o balcão, punha cadeiras
na calçada em frente ao comércio e, entre doses de
café e cachaça, discorria horas sobre a Revolução
Francesa. A gente pobre se deliciava. Resolvia comprar. E sensibilizado
com o aperto financeiro dos conhecidos, Graciliano Ramos vendia
fiado. Há quem diga que, na hora de receber o dinheiro, o
escritor dava o troco segurando as notas com uma tesoura para não
se sujar. A mania de higiene sempre o acompanhou. Se alguém
o perdia de vista, bastava passar no banheiro mais próximo:
ele estava lavando as mãos.
O comércio
não mexia com a imaginação de Graciliano. Aos
22 anos (nasceu a 27 de outubro de 1892, em Quebrângulo, Alagoas)
foi tentar a sorte no Rio de Janeiro. Já trabalhava como
revisor e escrevia crônicas quando um telegrama interrompeu
o sonho de ser um escritor. Chegava a notícia da morte de
três irmãos, num só dia, e do péssimo
estado da mãe, todos vítimas da peste bubônica.
Atarantado, ele voltou ao sertão, e lá ganhou notoriedade.
Em 1926, o prefeito
de Palmeira dos Índios apareceu fuzilado. De tanto recusar
o convite dos amigos para sair candidato, espalhou-se o boato de
que Graciliano estava com medo de fracassar. "Apareça
o filho da p... que disse que eu não sabia montar em burro
bravo!", desafiou. Ninguém apareceu e ele venceu as
eleições sem fazer campanha. Logo que assumiu o cargo,
em 1928, decretou o recolhimento dos bois, cavalos e porcos que
andavam soltos nos passeios públicos. Os donos eram severamente
multados. Sobrou até para o pai do escritor. Certo dia, o
fiscal encontrou algumas vacas do velho em liberdade. Sebastião
Ramos protestou, mas o filho não teve dúvida: "Lavre
a multa; prefeito não tem pai."
O homem que
lia Marx em francês na adolescência deu asas às
suas inspirações e mandou a prestação
de contas ao governador em linguagem literária. Não
se sabe como, mas o texto brilhante foi parar nas mãos do
editor carioca Augusto Frederico Schmidt. Ele supôs que quem
escrevia relatórios como aqueles deveria ter algum romance
escondido na gaveta. Schmidt acertou e mandou publicar Caetés,
lançado quando Graciliano já contava 41 anos. A austeridade
do administrador resultou no convite para dirigir a Imprensa Oficial
do Estado, equivalente a uma Secretaria de Educação.
Detido sob a
falsa acusação de participar da Levante Comunista
de 1935, Graciliano passou dez árduos meses preso no Rio
de Janeiro. O inferno foi retratado em Memórias do cárcere:
a cela fétida, a comida intragável, mas também
a amizade com dois ladrões barra-pesada - Cubano e Gaúcho,
este último um especialista em arrombamentos. Deixou a cadeia
em janeiro de 1936 e nunca mais voltou para o Estado de origem.
Ao contrário, trouxe a mulher, Heloísa, e duas filhas
para uma pensão no Catete, no Rio. "Parecia ser um sujeito
ríspido, mas no fundo isso não passa de estereótipo",
lembra o jornalista Moacir Werneck de Castro, então vizinho
de Graciliano. O mito se justifica. Dizem que ele respondia aos
cumprimentos de "bom-dia" com um seco "por quê?".
Quando lhe pediam a opinião sobre um livro, afiançava:
"Não li e não gostei."
Pêsames
do Dops
As dificuldades financeiras acompanharam o velho Graça até
o fim da vida. Sua produção literária era lenta
e mal-remunerada. Acumulava as funções de inspetor
de ensino e revisor do Correio da Manhã. A filiação
ao Partido Comunista aconteceu em 1945, quando o PCB saiu da ilegalidade
do Estado Novo. Foi um membro ativo, mas nunca se submeteu ao patrulhamento
ideológico dos companheiros, que insistiam para que sua obra
se voltasse para um realismo socialista. Preferia denunciar a miséria
brasileira por meio de personagens ásperos e uma linguagem
sem rebuscamentos.
Sua franqueza
cortante foi espionada até o último dia. Graciliano
Ramos não resistiu ao câncer no pulmão causado
pelos três maços diários de cigarros Selma.
Na manhã do dia 20 de março de 1953, o telefone tocou
na Casa de Saúde São Victor. "Pode me informar
se Graciliano Ramos faleceu?" "Sim, senhor", responderam.
"Meus pêsames. É do Departamento de Ordem Política
e Social. Desejávamos saber se podíamos inutilizar
a ficha dele." Como se as idéias morressem com o corpo.
VOCÊ
SABIA?
Era ateu convicto, mas tinha uma Bíblia na cabeceira
só para apreciar os ensinamentos e os elementos de retórica.
Por insistência da sogra, casou na igreja com Maria Augusta,
católica fervorosa, mas exigiu que a cerimônia ficasse
restrita aos pais do casal. No segundo casamento, com Heloísa,
evitou transtornos: casou logo no religioso.
OBRA-PRIMA:
· Caetés (1933)
· São Bernardo (1934)
· Angústia (1936)
· Vidas secas (1938)
· Infância (1945)
· Memórias do cárcere (1953)
· Viventes de Alagoas - reunião de crônicas
(1962)
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